DIREITOS HUMANOS

Com corte de verbas, feira da reforma agrária no Rio resiste e sobrevive

A Feira Estadual da Reforma Agrária Cícero Guedes, reconhecida por lei como de interesse cultural e social, teve verba cortada pelo Incra, mas a organização dos sem-terra garantiu sua realização

Acaba hoje (12) a 10ª Feira Estadual da Reforma Agrária Cícero Guedes, no Rio de Janeiro. Desde segunda-feira, a capital fluminense recebeu uma ampla variedade de produtos orgânicos produzidos em assentamentos do Movimento dos Trabalhadores Rurais sem Terra (MST) de todo o Rio de Janeiro. Além disso, houve shows, palestras e debates sobre alimentação saudável e agroecologia.

Apesar da feira ser reconhecida por lei como de interesse cultural e social para o município do Rio de Janeiro, neste ano o Instituto de Colonização e Reforma Agrária (Incra) cortou a verba de apoio à realização. Foi um problema que teve de ser revertido “na marra”, como afirma o movimento em nota. O MST está mobilizando apoiadores em uma campanha virtual de financiamento coletivo intitulada “MST na Luta por Direito à Alimentação Saudável e Direitos Humanos”.

É possível colaborar com o financiamento, que ainda não atingiu sua meta, até o dia 22. A ajuda inicial para a realização do evento veio de sindicatos locais, o que garantiu a sobrevivência. “O resultado foi uma belíssima feira com muita produção dos assentamentos e acampamentos do movimento e de outros movimentos populares, editoras e parceiros”, afirma o MST.

A deputada estadual eleita pelo Psol Renata Souza criticou o corte de verbas do governo. “A não liberação de verba para a feira, para o MST poder mostrar sua produção deste ano, mostrar a realidade do campo, é um absurdo. Só tenho a repudiar a retirada de verbas tanto para a feira quanto para a Reforma Agrária de maneira qualificada.” A feira contou com mais de 100 produtores, além de artistas como a cantora pernambucana Doralyce, que fez seu show no dia de encerramento da feira.

O deputado federal eleito Marcelo Freixo (Psol) esteve na feira e comentou sobra a importância de sua manutenção. “Essa feira é sensacional. Produtos da Reforma Agrária, produtos dos assentamentos do MST, você pode fazer feira, cantar, dançar, sorrir, encontrar pessoas. Tem palestras, atividades culturais, grandes encontros. É um movimento fundamental para a democracia brasileira que é o direito à terra. É um direito humano fundamental.”

Da mesma forma, o músico cearense Juno se manifestou e convidou a sociedade a ajudar o movimento. “No momento que vivemos no país é fundamental estarmos cientes do que acontece com esses movimentos. O MST tem um trabalho fundamental, as feiras que trazem comida saudável, sem agrotóxicos. Desta vez, estão fazendo sem apoio nenhum. É importante compartilhar essa informação para fortalecer esse movimento que é importante para o desenvolvimento do país.”

Direito à terra

A feira começou na segunda, dia 10, data que marca os 70 anos da assinatura da Declaração Universal dos Direitos Humanos pela ONU. Foi uma coincidência simbólica, já que os temas que permeiam sua realização se alinham. São eles, o direito à terra e à alimentação. “Com essa campanha, o MST se coloca na defesa do acesso pelo povo a alimentos agroecológicos saudáveis, enquanto um direito fundamental.”

Para Fernanda Vieira, militante do MST, o momento é de resistência. “A Declaração Universal dos Direitos Humanos trouxe um marco jurídico que pudesse garantir terra, trabalho, dignidade, fraternidade, harmonia e, acima de tudo, a garantia de que eu, homem, mulher, negra, índia, independente de onde estiver, vou ter direitos respeitados. Trazemos a Declaração para a feira porque, 70 anos após sua edição, o mundo caminha para a reflexão da garantia desses direitos”, disse.

O movimento faz referência ainda a Cícero Guedes, que dá nome à feira. Ele foi assassinado há cinco anos no norte fluminense. Também lembram dos dois militantes assassinados na Paraíba no último fim de semana. “A feira se coloca como resistência, celebração e afirmação das convicções e valores do movimento, na certeza de que as companheiras e companheiros que tombaram na luta se tornam sementes que germinarão”, diz o MST.

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