Em busca da veracidade na era das fake news

As recentes eleições no Brasil foram marcadas pela combinação de desinformação, WhatsApp, redes sociais, ideologias conservadoras e discursos populistas de direita. A análise foi feita por Eugênio Bucci, professor titular da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA-USP), na FAPESP Week New York, realizada em conjunto com a City University of New York (CUNY) e o Wilson Center de 26 a 28 de novembro no Graduate Center da CUNY.

“Por quê? Ainda não há respostas conclusivas. Precisamos de mais pesquisa, de mais e melhores dados, de mais ciência e de mais filosofia para entender o que ocorreu”, disse Bucci, que foi um dos expositores em um painel sobre “Fake news e mídias sociais em campanhas políticas”.

“Os resultados da eleição presidencial brasileira deste ano atestam uma clara desmoralização da política tradicional. A chamada notícia falsa, ou, para usar um conceito melhor, a desinformação, desempenhou um papel principal na campanha do vencedor, o candidato Jair Bolsonaro”, disse Bucci.

“Seu sucesso foi feito nas redes sociais. Ele tinha apenas alguns segundos por dia na propaganda política obrigatória. Outros candidatos tiveram vários minutos. Bolsonaro não tinha nenhum partido forte apoiando sua candidatura. Mas, nas mídias sociais, ele superou seus rivais. Alcançou a marca de 8,7 milhões de seguidores no Facebook e de 2,37 milhões no Twitter. Fernando Haddad, candidato do PT, que estava em segundo lugar nas eleições, chegou a 1,7 milhão no Facebook e 1 milhão no Twitter”, disse.

Bucci destacou que um aspecto original da campanha de Bolsonaro foi o grande uso do WhatsApp. “Embora não seja considerado tecnicamente ou legalmente uma rede social, o WhatsApp, no caso brasileiro, teve o efeito de uma enorme rede social. O WhatsApp está protegido pela confidencialidade da correspondência. Por causa disso, está fechado aos pesquisadores. Não sabemos exatamente o que ocorre dentro dele”, disse.

Bucci citou um levantamento divulgado pelo Datafolha em 2 de outubro, segundo o qual seis de cada 10 apoiadores de Bolsonaro disseram se informar sobre as eleições por meio do WhatsApp.

“É importante lembrar que a disseminação de notícias falsas não é apenas um produto da tecnologia, mas também uma ação de multidões, de multidões de pessoas reais. A notícia falsa ou falsificada cresce muito mais rapidamente do que a notícia real por causa das pessoas, e não somente por causa da tecnologia”, disse Bucci, que é membro do conselho editorial da revista Pesquisa FAPESP e foi membro do conselho deliberativo do Instituto de Estudos Avançados da USP.

Bucci citou um estudo feito por pesquisadores do Media Lab do Massachusetts Institute of Technology (MIT). O trabalho analisou 126 mil histórias compartilhadas por aproximadamente 3 milhões de pessoas no Twitter e verificou que as fake news eram 70% mais prováveis de serem compartilhadas do que as histórias reais.

“E aqui nos deparamos com algo estranho. Embora todos, à esquerda ou direita no ambiente político, usem notícias falsas, por alguma razão as pessoas de direita parecem compartilhá-las mais. Quero ser muito claro neste ponto. Eu não digo que as pessoas de direita têm a exclusividade de lidar com notícias falsas ou com outras técnicas de desinformação. De modo algum. A única coisa que digo, com base em pesquisas de opinião pública, é que entre homens e mulheres de direita esse comportamento parece ser mais frequente e mais intenso”, disse.

Bucci citou a filósofa Hannah Arendt (1906-1975) que, em várias obras, destacou que a política, na democracia, só pode ser feita a partir dos fatos.

“Fatos e opiniões, embora devam ser mantidos separados, não são antagônicos uns aos outros; eles pertencem ao mesmo domínio. Os fatos informam opiniões e as opiniões, inspiradas por interesses e por paixões diferentes, podem diferir amplamente e ainda serem legítimas contanto que respeitem a verdade factual, disse Arendt.”

“De acordo com Arendt, a verdade factual deve ser a base do pensamento político. E a liberdade de opinião é uma farsa a menos que a informação factual seja garantida e os fatos em si não estejam em disputa”, disse Bucci.

Checagem e veracidade

“Não gosto do termo ‘fake news’, prefiro ‘notícias fabricadas’. Porque o termo fake news virou uma espécie de arma contra jornalistas. Alguns dizem que estamos vivendo uma era de pós-verdade, mas acho que estamos é vivendo uma era de verdade profunda. As verdades estão mais bem escondidas e precisamos nos esforçar mais para trazê-las à superfície”, disse Barbara Gray, professora do Craig Newmark Graduate School of Journalism da CUNY, outra participante do painel.

“Jornalismo é uma disciplina de checagem. Nosso trabalho é sermos céticos, mas não cínicos. Devemos buscar evidências, checar e rechecar nossas fontes”, disse Gray, que foi diretora de pesquisa no jornal New York Times.

Segundo ela, os jornalistas de hoje têm que voltar a ser como os de antigamente, que faziam de tudo. “Os novos profissionais de imprensa precisam saber como apurar, escrever, editar, tirar fotos e fazer vídeos. Mas também precisam checar tudo, dedicando-se intensamente à veracidade dos fatos. Veracidade quer dizer pesquisa. O jornalista precisa ir a fundo no assunto sobre o qual está escrevendo”, disse.

“Em nossos cursos de jornalismo, ensinamos os alunos a fazer checagem. Eles odeiam, pois é um processo minucioso e tedioso, mas depois dizem que é a melhor coisa que aprenderam”, disse Gray.

O painel “Fake news e mídias sociais em campanhas políticas” também teve a participação de Michelle Strah, professora do John Jay College da CUNY, de Paulo Sotero, diretor do Brazil Institute do Wilson Center, e de Carlos Eduardo Lins da Silva, consultor de comunicação da FAPESP.

Saiba mais sobre a FAPESP Week New York em: www.fapesp.br/week2018/newyork.

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