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Como reduzir a lacuna entre descobertas científicas e sua implementação em políticas públicas

“Você quer ter só razão ou ser efetivo?”. É essa pergunta que Celina Gorre, diretora executiva da Global Alliance for Chronic Diseases (GACD), costuma fazer. O consórcio que reúne 14 agências de fomento de diversos países, entre as quais a FAPESP, promove a colaboração de pesquisas entre países de alta renda e de baixa ou média renda na luta contra doenças crônicas.

Com um orçamento de US$ 174 milhões e 83 projetos correndo pelo mundo, a GACD promove uma área da ciência chamada Implementation Science (Ciência da Implementação), cujo objetivo principal é buscar metodologias e estratégias para reduzir a lacuna existente entre as descobertas científicas e sua implementação nos programas de saúde. São cerca de 900 pesquisadores trabalhando em projetos apoiados pela GACD em 66 países no mundo.

No Brasil para participar do 10º Workshop e da 7ª Reunião Anual da GACD, Gorre conversou com a Agência FAPESP. Para ela, é importante que pesquisadores, comunidade e formuladores de políticas públicas estejam articulados para que projetos de combate às doenças crônicas – como câncer, diabetes do tipo 2, doenças mentais, pulmonares e cardiovasculares – tornem-se efetivos.

“Vemos que muitas vezes o pesquisador considera o valor do seu trabalho inerente apenas às suas descobertas ou à consistência do trabalho. Como se isso fosse o bastante para atrair a atenção para seus resultados, mas é preciso fazer mais que isso”, disse.

Agência FAPESP: Por que os projetos da GACD de combate às doenças crônicas são trabalhados sempre em colaboração entre países de alta renda e de baixa ou média renda?

Celina Gorre: É preciso lembrar que, em geral, a ciência avança mais rápido quando há diversidade. Se todos vêm do mesmo lugar não é possível testar hipóteses em uma variedade de contextos. Em um projeto desenvolvido em São Paulo, com uma equipe de São Paulo, é provável que o desenho de intervenção escolhido ou as decisões passem a ser reforçadas ao longo do projeto. No entanto, se existem participantes de outras partes do mundo algum deles pode dizer: “Espere um minuto, isso não funcionou muito bem no contexto de Bangkok. Lá os setores socioeconômicos e a população são diferentes. Também não temos esse hábito alimentar lá”. Portanto, quanto mais diverso for o grupo, mais desafios serão quebrados e as dúvidas ou perguntas ao longo do projeto serão respondidas mais rapidamente. Pelo menos, é isso que temos visto ocorrer.

Agência FAPESP: Isso também vale para a experiência e idade dos integrantes do projeto?

Gorre: Sim. Essa mistura de interações precisa ser amplificada não apenas em diversidade de regiões, mas também em grupos formados por diferentes níveis de cientistas. Por isso, é importante que em nossos projetos haja cientistas seniores e juniores trabalhando em equipe. Recentemente, passamos a exigir que cada projeto envie para os nossos encontros [workshops e reuniões anuais] não só os pesquisadores mais experientes, mas também os mais novos. Porque eu entendo que é muito tentador para o projeto mandar apenas os líderes. Há uma lógica nisso, mas fizemos um pedido explícito para todos os 84 projetos individualmente. Aprendemos com o tempo que isso é importante e faz diferença.

Agência FAPESP: A diversidade é importante, mas é preciso pensar também no contexto local, certo?

Gorre: Sim. Vejo as doenças crônicas, entre outros pontos, como uma comorbidade do sucesso econômico. Quando ocorre um mínimo crescimento econômico em uma família, por exemplo, ele é refletido rapidamente no consumo de uma TV, de um carro, em sedentarismo ou no consumo de alimentos mais caros, mas menos saudáveis. O que estamos fazendo em nossos projetos é focar em hábitos locais como forma de combate às doenças crônicas. Sabemos que existem comportamentos locais que são saudáveis e que acabam ficando em segundo plano. O que é saudável na cultura indígena? Qual o contexto local? Não necessariamente são aulas de ioga ou suco verde detox [sendo este último controverso]. Estive domingo na avenida Paulista e estavam realizando aulas de dança e as famílias participavam ativamente. Esse é o conceito: hábitos saudáveis locais. Foi uma boa experiência ver isso em ação.

Agência FAPESP: Como são feitos os projetos na GACD?

Gorre: Não necessariamente o projeto precisa ser feito pelo cientista que fez uma descoberta. Implementação da ciência, por definição, é pegar algo que funciona em algum lugar – como uma política pública de um determinado país ou algo descoberto em laboratório – e introduzir em um contexto diferente. Trabalhamos com chamadas de propostas anuais e, voltando ao fato que temos 14 agencias no consórcio – e todas elas têm suas estratégias próprias –, buscamos justamente as justaposições dessas estratégias para definir o tema das chamadas. Em 2017, a chamada foi de projetos em saúde mental. Neste ano, é hipertensão e diabetes. Como nem sempre é possível ter todas as 14 agências participando o tempo todo, buscamos escolher áreas prioritárias para a maioria das agências.

Agência FAPESP: Um problema discutido no workshop foi que nem sempre a qualidade dos projetos submetidos supera as expectativas da GACD.

Gorre: Isso tem mais a ver com o fato de que ainda estamos crescendo como comunidade em Ciência da Implementação e o mecanismo que temos para fazer isso é o financiamento de pesquisa. Acredito que, quanto mais continuarmos a nutrir essa comunidade [de pesquisa em implementação da ciência em políticas públicas ligadas ao combate de doenças crônicas] e fazer essa comunidade crescer, a ciência que vier disso será melhor.

Agência FAPESP: Poderia dar exemplos de projetos efetivos?

Gorre: Gosto particularmente de dois projetos. Ambos são sobre a redução do consumo de sódio, portanto podem envolver uma perspectiva de a importância do desenho de projeto estar de acordo com o contexto local. O primeiro é um projeto muito bonito feito em uma província da China. Nossa hipótese era que com a política do filho único era comum que a criança se tornasse o centro da casa e que tanto pais e avós ouviam muito essas crianças. A intervenção estava relacionada com a inclusão do tema redução do consumo de sal no currículo escolar de crianças de 8 anos, porém o resultado do projeto era medido na mudança de consumo dos adultos. É um modelo fascinante, pois assume a dinâmica e a direção de influência de uma criança de 8 anos na família, o que é culturalmente muito específico dentro de um país que passou anos com a política do filho único. O resultado desse programa foi tão significativo que houve de fato um decréscimo no consumo de sal. O programa foi escalonado para mais escolas em uma parte da China.

Agência FAPESP: E o outro projeto?

Gorre: O outro foi em Fuji, também para a redução do consumo de sódio, porém buscou atingir esse objetivo no nível de políticas públicas. Esse projeto mostra particularmente a importância da relação de pesquisadores com formuladores de políticas públicas. Os pesquisadores trabalharam não só com o ministério da saúde, mas também com a Organização Mundial da Saúde. Com isso, eles conseguiram escolher muito bem quais eram os melhores mensageiros para a comunidade. Em vez das autoridades, eles escolheram pessoas comuns de Fuji que falaram de suas próprias experiências sobre consumo de sal e redução. No fim, isso se tornou um programa nacional. Gosto desses dois projetos, pois eles mostram a importância de conhecer o contexto em que se está trabalhando.

Agência FAPESP: É comum ver pesquisadores incluírem a Ciência da Implementação em seus projetos de pesquisa?

Gorre: Infelizmente ainda não é o mais comum. Acho que o pesquisador tradicional considera que o valor do seu trabalho é inerente apenas às suas descobertas ou à consistência do trabalho. Como se isso fosse o bastante para atrair a atenção para seus resultados, seja da imprensa, da comunidade ou dos formadores de políticas públicas. É preciso fazer mais. Sempre faço essa pergunta para as pessoas que trabalham comigo: você quer só ter razão ou ser efetivo? Ciência da Implementação tem a ver com ser efetivo, reduzir a lacuna entre o conhecimento científico e sua aplicação em políticas públicas. 

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