Escola sem partido e a falácia sobre a "doutrinação"

Para Luis Felipe Miguel, professor de Ciência Política na UNB, o "grito de "doutrinação" surge cada vez que o professor questiona o mundo e as verdades estabelecidas sobre ele"

Tem um ponto que precisa ficar claro na discussão sobre o famigerado Escola Sem Partido (sic): não existe doutrinação de esquerda na educação brasileira, nem nada próximo disso.

Parece que a lei da mordaça não será aprovada. A obstrução da oposição democrática tem funcionado. A inclinação do Supremo é considerar inconstitucional. A nomeação do ministro da Educação de Bolsonaro, hoje, também parece indicar que o novo governo não vai tentar empurrar a todo custo esta pauta.

Mas o estrago do Escola Sem Partido (sic) já é real, mesmo sem aprovação da lei. Estamos nos movendo em um universo mental em que a suposta doutrinação é um dado estabelecido, do qual se parte.

É como a carga tributária excessiva, o rombo da previdência, a eficácia superior do mercado... Estabelecer "fatos" e, assim, subtrair do debate a inquirição sobre o real estado das coisas é uma manobra básica da disputa discursiva na política.

Um exemplo disso está no artigo de Leandro Narloch, publicado hoje, intitulado "Esquerda precisa dar resposta consistente ao Escola sem Partido". É engraçado: Narloch dando conselho à esquerda. Por que a esquerda ouviria um conselho de Leandro Narloch? Aliás, por que qualquer pessoa, em sã consciência, ouviria algum conselho dele?

Posando agora de liberal muderninho, Narloch se coloca contra o Escola Sem Partido (sic). Segundo ele, leis não resolvem problemas. Mas a esquerda tem dado respostas ruins ao projeto, baseadas em "espantalhos". O certo, ensina o jornalista, seria admitir o "viés ideológico" e apresentar outras alternativas para superá-lo.

E confessa, com a falta de sofisticação que lhe é característica: "O Escola sem Partido [sic] já realizou o grande feito de ter levado o problema [da pretensa doutrinação] à agenda pública". Em suma: trata-se de manter a pressão pelo silenciamento do pensamento crítico, mas sem a coerção aberta. O modelo é o macarthista: não é proibido falar. Mas, se falar, apanha.

E onde está a tal doutrinação? Raras vezes eles se dão ao trabalho de explicar, o que faz parte do esforço de naturalização do veredito. Mas, quando se aperta um pouco, dá para perceber que o grito de "doutrinação" surge cada vez que o professor questiona o mundo e as verdades estabelecidas sobre ele.

Mas isso é exatamente o que faz a ciência.

E as ciências humanas, em particular, existem para desvendar o mundo social como produto humano, isto é, desnaturalizá-lo, entendê-lo como produto histórico, com vencedores e com vencidos e também, portanto, sujeito a mudança.

É o contrário de doutrinação. É o professor desempenhando seu papel de "guardião da dúvida", para citar a bela expressão que o deputado Chico Alencar gosta de usar em seus discursos - ecoando a "pedagogia da pergunta" de que falava Paulo Freire. E as perguntas começam com: por que o mundo é assim? Ele sempre terá que ser assim?

Sobre isto, lembro que, logo no começo de um importante texto intitulado "Duas lógicas da ação coletiva", Claus Offe e Helmut Wiesenthal observam: "O que torna a sociologia interessante é a sua função crítica". E explicam que o pensamento sociológico só passa a existir quando, com o triunfo da ordem liberal, torna-se necessário desvelar o contraste entre uma norma igualitária e uma realidade desigual.

Em suma: critica, desnaturalização, inquirição são as ferramentas próprias da ciência social. Um professor de história ou sociologia que se apoia no materialismo histórico é tão "doutrinador" quanto um professor de ciências que se apoia no heliocentrismo ou na teoria da evolução. Ele está transmitindo o estado da arte da disciplina.

Narloch, não custa lembrar, se projetou escrevendo obras de incrível desonestidade intelectual sobre a história do Brasil e do mundo, os "guias politicamente incorretos", coleções de anedotas descontextualizadas, quando não distorcidas, para provar que a esquerda é má. (Aliás, o website do Escola Sem Partido [sic] continua apresentando uma indicação de bibliografia, com apenas quatro títulos: dois deles são "guias" de Narloch.) Se, em vez de produzir panfletos, ele tivesse feito um pouco de pesquisa histórica verdadeira, certamente seria capaz de entender o que estou dizendo.

Há professores mais abertos ao diálogo e menos abertos ao diálogo, com mais jogo de cintura e com menos jogo de cintura, com mais repertório e com menos repertório. Na minha experiência, via de regra os mais autoritários estavam mais à direita, mas nem é esse o ponto. É necessário estimular o diálogo nos ambientes de ensino e aprendizagem, sem dúvida. Mas isso não tem nada, absolutamente nada, a ver com a suposta "doutrinação de esquerda".

O fantasma da doutrinação é simplesmente um ardil para transformar a escola em um deserto de ideias.

ATUALIZAÇÃO: No começo do texto, fiz referência à nomeação de Mozart Neves Ramos para o MEC. Menos de duas horas depois, ele foi "desnomeado", diante da reação negativa de fundamentalistas religiosos...

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*Luis Felipe Miguel é professor de Ciência Política na UNB e cooderna o Demodê (Grupo de Pesquisa sobre Democracia e Desigualdades)

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