POLÍTICA

O pânico moral e o pânico da história nessas eleições

Eu confesso que achei que era uma brincadeira quando um conhecido, ao me explicar o seu voto, me disse que era preciso evitar a ameaça comunista. Mas ele não riu e só então eu percebi que ele não estava brincando. Ele estava com raiva. Foram dois longos minutos até processar o que estava acontecendo. Afinal, eu só podia esperar um raciocínio desse de alguém que esteve em coma nos últimos 30 anos e não viu a queda do muro de Berlim, o esfacelamento da URSS e o fim da Guerra Fria. Meu interlocutor parecia ter saído do filme “Adeus, Lenin”, em que, na Alemanha Oriental, um filho protegia a sua mãe, uma comunista que ficara em coma por um ano pouco antes da queda do Muro de Berlim, de descobrir que o seu mundo já não existia.

Pouco a pouco percebo que essa e muitas outras maluquices estão no centro do debate político atual. É quase impossível fazer uma discussão qualquer que envolva projetos para o país. Mesmo questões muito objetivas como salários, direitos trabalhistas, previdência, educação sumiram da agenda.

Parece que ninguém está preocupado se o seu filho terá uma escola melhor, se o SUS continuará existindo ou coisas desse tipo. O campo conservador teve um enorme sucesso ao apoiar-se em dois pilares: o primeiro, a propagação de um ódio a todos os seus adversários, logos transformados em “comunistas”. Nos últimos meses, não só o PT – logo ele com governos de centro-esquerda, mas como enormes concessões ao capital – mas também a Folha, a Globo e até a ONU foram identificadas como comunistas. Lembrei do meu avô, em 1985, que desconsolado com a ideia de que Fernando Henrique se elegeria prefeito de São Paulo – o que não aconteceu – me sentenciou: elegeram um comunista! Hoje é até engraçado pensar nisso, mas ele realmente tinha muito medo, o mesmo olhar que vejo nas pessoas. O segundo pilar que está pautando o debate político é o pânico moral. A ideia de uma suposta “perversão de costumes” que teria o seu maior símbolo no debate sobre gêneros na escola, parece causar pavor na maioria das pessoas.

Não é por acaso que estes – a criminalização da esquerda e o pânico moral – são também os eixos de movimentos assemelhados ao “Escola sem Partido”. Quando ajudei a organizar um livro no ano passado – Golpes na História e na Escola (Editora Cortez, 2017) – tínhamos claro que a crise política de 2016 estava associada a um discurso, a uma estratégia de encaminhamento do debate público, que tinha o espírito do “Escola sem Partido” como norte. Entender isso é perceber o que está acontecendo ao nosso redor. Em 2016, os mexicanos foram incentivados por membros do PAN a rasgar livros didáticos que tivessem menções à educação sexual. Entre 2016 e 2017, ocorreram grandes manifestações populares no Peru e na Colômbia motivados pelo pânico em torno da discussão de gênero nas escolas, mesmo quando justificadas sob o argumento de estabelecer a melhor convivência entre alunos, dado os suicídios então recentes.

Está redondamente enganado quem acredita que isso não teve repercussão no centro da vida política desses países. No caso da Colômbia, a filósofa Nancy Prada Prada argumenta que a proximidade entre essas manifestações de massa contra a discussão de gênero nas escolas e o plebiscito que propunha o acordo de paz entre o governo e as FARC foi um dos elementos decisivos para que o “não” ganhasse por uma diferença de décimos percentuais na votação pelo aprovação ou não do fim do conflito. De modo muito semelhante ao que se assiste hoje, uma série de boatos inacreditáveis ganharam status de verdade. Entre outras coisas, dizia-se que a “ideologia de gênero” – impropriedade conceitual criada e universalizada pelos conservadores – estaria consagrada na Constituição. Era uma mentira, evidentemente. Mas convenceu parte da sociedade colombiana, que igualmente acreditava em outras inverdades, como a de que os ex-guerrilheiros receberiam pensões do governo. De mentira em mentira, o acordo fracassou para surpresa geral da comunidade internacional, que parece não se acostumar com a série de resultados surpreendentes e conservadores de algumas consultas populares realizadas nos últimos anos, como a do Brexit na Inglaterra.

Portanto, é ingenuidade a surpresa de muitos de que histórias fantasiosas – como a de que serão distribuídas mamadeiras com bicos em formato de pênis às crianças ou que o Estado “definirá o gênero” de alunos após os cinco anos – estejam pesando decisivamente no voto de muitos brasileiros. Como se vê, essa não é uma estratégia eleitoral nova e nem inventada aqui. A partir de agora é preciso ter em mente como lidar com o “pânico moral” como uma das variáveis das disputas políticas e trazer o debate para um lugar racional.
Não bastasse isso, aparentemente outra coisa que parece causar pânico nessa eleição é a História. Um dos elementos inegáveis é a ascensão de pautas conservadoras que em seu extremo flertam diretamente com a defesa da ditadura civil militar iniciada em 1964. O que se assiste é tanto um desfile daqueles que fazem a defesa aberta da ditadura, como daqueles que pretendem ser os seus revisionistas. A despeito da existência de uma farta literatura histórica a respeito – com contundentes exemplos de crimes contra a humanidade, com a existência de censura, prisões políticas, torturas e mortes – há quem hoje prefira entendê-la como um  “movimento”, seja lá o que isso signifique. Como solução, outro já expressou, inclusive, o desejo de tirar de circulação livros que não contassem a “verdade” sobre os governos militares pós 1964.

Essa “relativização” da História – defendendo a ideia de que tudo são versões – é outro pilar do “Escola sem Partido”. Essa relativização pretende dar o mesmo peso a trabalhos acadêmicos e a defesas sem qualquer embasamento, como se ambas se equivalessem. Em outra área, é o alimento do delírio dos terraplanistas, todos muito ciosos da sua pseudociência. No entanto, qualquer aluno de primeiro ano em História sabe que apesar de nossas fontes serem impregnadas pelas perspectivas dos seus autores, o fato não pode ser ignorado por quem procura entender o passado. Ou, de forma mais simples, Edward Carr nos explica que, a partir dos relatos, pode-se descrever uma montanha de diversas formas. Mas nunca ela pode ser descrita como um vale. Essa aceitação ou até mesmo saudades de um período ditatorial no Brasil diz muito sobre como lidamos ou não lidamos com a nossa História nos governos democráticos.

São apagamentos e omissões que agora cobram o seu preço e que nos parecem colocar diante da opção entre a política e a barbárie.

André Roberto de A. Machado é historiador e professor da UNIFESP

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Imagem: Salvador Dalí, Le visage de la guerre (1940): óleo sobre a tela, 64 x 79 cm, Museum Boijmans Van Beuningen‎, Rotterdam, NL.

 

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