ESPECIAL | LEITURA E INFÂNCIA

Para finalista do prêmio Jabuti, desigualdade de renda atrapalha distribuição de livros infantis no Brasil

O escritor Renato Moriconi comenta a importância e as dificuldades da formação literária para as crianças brasileiras

 
(Foto: Ivson/Youtube/Reprodução)

“Para a concepção crítica, o analfabetismo nem é uma ‘chaga’, nem uma ‘erva daninha’ a ser erradicada, mas uma das expressões concretas de uma realidade social injusta”. Essa frase foi dita pelo educador e filósofo brasileiro Paulo Freire cerca de 30 anos atrás. No entanto, as dificuldades enfrentadas pelo país em relação à leitura continuam gigantescas.

Para o professor e autor de livros infantis Renato Moriconi, um dos principais desafios da promoção da leitura é, justamente, a barreira criada pela desigualdade de renda. “Nós vivemos em um país gigante e desigual financeiramente. Essa desigualdade se reflete na forma como o solivros chegam aos lares. Onde se concentra renda, se concentram as livrarias e, provavelmente, os livros também”, afirma Moriconi.

De acordo com dados da 4ª edição da pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, realizada pelo Instituto Pró-Livro, 44% dos livros adquiridos no Brasil são comprados em lojas físicas.

O professor afirma que há uma relação entre a concentração de renda e a aglomeração de livrarias. “Isso é um problema, porque se os livros não estão nas casas na maior parte do território do país, como eles chegam aos leitores?”, problematiza Moriconi.

Se os livros não estão nas casas, cabe a escola assumindo a responsabilidade de ser o ponto de contato entre os produtores de literatura e os pequenos leitores. "O aspecto positivo disso é que a leitura escolar é feita de maneira diferente, com aprofundamento, uma discussão que não aconteceria por uma leitura fora dela. A formação literária é importante para transformar pessoas em indivíduos mais conscientes e críticos. Isso transforma a vida, o local onde a pessoa convive e assim, transforma a relação do sujeito com o mundo", explica.

A literatura quando restrita ao ambiente escolar deve ser tratada com especial atenção. "Deve se tomar cuidado para que a arte permaneça sendo plural e diversa em um ambiente de leitura direcionada, como é o caso do ambiente pedagógico'', ressalta o professor. 

Para o educador, é essencial que o hábito da leitura seja fomentado desde a infância. “Pensar que você tem um processo de formação literária desde a infância, é planejar um projeto de formação de indivíduos críticos, conscientes e autônomos”, afirma. 

Renato Moriconi é professor convidado no curso “Livros, crianças e jovens: teoria, mediação e crítica”, do Instituto Vera Cruz. Nascido em Taboão da Serra, em 1980, dedica-se às artes visuais desde 1994 e tem aproximadamente 60 livros publicados no Brasil, México, França, Itália, Coreia do Sul e China. Recebeu os prêmios "Melhor livro-imagem" em 2011 e 2014, e "Melhor livro para a criança" em 2012 pela Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil (FNLIJ). Em 2016, foi contemplado com o Premio Fundación Cuatrogatos (EUA) pelo livro Bárbaro, também finalista do prêmio da revista italiana Andersen, na categoria "Melhor livro de arte. Vive na cidade de São Paulo.