ESPECIAL | LEITURA E INFÂNCIA

Como incentivar a formação de jovens leitores

Para educadora, Cristiane Fernandes Tavares, a aprendizagem da leitura e da escrita se dá com professores bem formados e bem pagos


(Foto: Agência Brasil/Reprodução)

 Voltar a ler livros, ampliando o olhar a partir de outras leituras, confrontando pontos de vista trazidos por outros leitores, abrindo-se para a descoberta das várias camadas de leitura que uma obra literária contém, são formas de desenvolver posicionamentos críticos não apenas diante da leitura literária, mas também em outras situações que exigem escuta, respeito, questionamento e depuração de significados.

Em primeiro lugar, é preciso melhorar significativamente o nível de proficiência leitora em nosso país. A aprendizagem da leitura e da escrita se dá na escola, sobretudo, com professores bem formados e bem pagos. Portanto, o primeiro ponto é uma maior qualificação e valorização da carreira docente, desde a Educação Infantil até o Ensino Superior, sem ameaças aos direitos conquistados pela categoria, nem sucateamento das escolas públicas (como vem acontecendo velozmente no Estado São Paulo, por exemplo), além de uma revisão urgente dos currículos vigentes nos inúmeros cursos de Pedagogia que, em sua maioria, não formam profissionais críticos e bem preparados.

É muito recente e ainda insuficiente, por exemplo, a inclusão de disciplinas sobre as especificidades da literatura para crianças e jovens nos cursos de Pedagogia. Nesse sentido, a grade curricular da nossa pós no Instituto Vera Cruz procura contemplar o viés político inerente a qualquer ação educativa, incluindo a disciplina Políticas Públicas de promoção do livro e da leitura no Brasil, atualmente ministrada por Ricardo Queiroz, cuja pesquisa de doutorado foi justamente sobre os Planos Municipais do Livro e da Leitura. Paralelamente a isso, é preciso continuidade e consolidação de políticas públicas que garantam o acesso a um acervo de qualidade tanto nas escolas, quanto nas bibliotecas públicas e comunitárias, com profissionais devidamente formados para uma interlocução reflexiva e provocadora com os jovens leitores.

Uma conquista importante nesse sentido foi a aprovação do PNLL (Plano Nacional do Livro e Leitura), em 2006, pelos ministros Gilberto Gil, da Cultura, e Fernando Haddad, da Educação, firmado pela presidenta Dilma Rousseff. O PNLL foi resultado de inúmeras reuniões com a sociedade civil, tendo como um dos principais mentores José Castilho – que já esteve em nosso curso de pós em participação especial. O PNLL é um bom exemplo do que pode ser feito no sentido de promoção da leitura porque criou diretrizes para uma política pública voltada à leitura e ao livro no Brasil (e, em particular, à biblioteca e à formação de mediadores), partindo de quatro eixos que tratam de aspectos essenciais quando pensamos na formação de leitores: “a democratização do acesso ao livro e á leitura; o fomento à leitura e à formação de mediadores; a valorização institucional da leitura e incremento de seu valor simbólico e o desenvolvimento da economia do livro”. Sabemos que isso só terá maior eficácia se os planos de leitura municipais e estaduais forem, de fato, construídos com participação de diferentes segmentos sociais, aprovados e acompanhados durante seu funcionamento.

Recentemente, uma ação que merece destaque e pode ser tomada como iniciativa de referência foi a criação da Biblioteca Comunitária Carolina Maria de Jesus, com acervo de qualidade e calendário de mediação de leitura e ações culturais, na Ocupação Povo Sem Medo, organizada pelo MTST, em São Bernardo do Campo. As doações somaram mais de mil e quinhentos livros de diversos gêneros, catalogados de forma voluntária por um grupo de bibliotecários preocupados em organizar os livros de modo que pudessem ser encontrados com autonomia. Não poderia haver exemplo mais emblemático para pensarmos a formação de jovens leitores no país: uma biblioteca comunitária construída num território em disputa, lugar fronteiriço marcado por conflitos antigos e resistência legítima, espaço de fortalecimento de cidadãos críticos, ávidos por conhecimento e justiça, assumindo-se autores e protagonistas, acima de tudo.

Cristiane Fernandes Tavares é mestre em Literatura e Crítica Literária pela PUC-SP (2005) e graduada em Jornalismo pela Faculdade Cásper Líbero, atualmente coordena o curso de Pós-Graduação "Livros, crianças e jovens: teoria, mediação e crítica", no Instituto Vera Cruz - SP.