ESPECIAL | LEITURA E INFÂNCIA

O papel de um mediador de leitura na formação literária infantil

A professora Cristiane Tavares, coordenadora do curso de pós-graduação "Livros, crianças e jovens: teoria, mediação e crítica", explica que o mediador pode ser um profissional, um irmão mais velho e até outra criança


(Foto: Arquivo Agência Brasil/Reprodução)

O mediador de leitura é um interlocutor qualificado para estabelecer com outros leitores uma conversa que amplie as percepções, de ambos, sobre determinado livro. É difícil definir essa “qualificação” porque há muitos fatores que interferem numa situação de leitura mediada. De modo resumido, podemos dizer que um bom mediador costuma ser um leitor sensível, atento e perspicaz para identificar determinadas chaves de leitura, com repertório literário e tempo de dedicação à leitura suficientes para perceber diferentes camadas de leitura e, principalmente, com uma escuta apurada para as respostas e reações dos leitores com quem interage.

Essa última característica costuma ser a mais difícil: a ansiedade por falar exageradamente sobre um livro, dando pouco espaço à escuta (e, portanto à fala do outro), muitas vezes ocorre porque o mediador não realizou uma leitura aprofundada do livro antecipadamente e durante a mediação se vê em uma situação desconfortável. O medo de ouvir perguntas e comentários inesperados, que apontem para direções que ele não tinha imaginado percorrer, pode invalidar a mediação, tornando-a mero monólogo expositivo acerca de uma única e mais superficial camada de leitura. O convívio demorado com a obra que será lida e mediada é muito bem-vindo, mas na maioria das vezes não ocorre e a interlocução reflexiva fica comprometida.

Um professor pode ser um bom mediador se lê e estuda antecipadamente o livro que pretende compartilhar com seus alunos, pensando em provocações que pode fazer a respeito de determinado conflito, ou em trechos que gostaria de reler porque apresentam uma imagem poética que o mobilizou ou emocionou especialmente, ou ainda chamando a atenção para aspectos da relação entre texto e imagem que no livro para crianças pode ser de extrema relevância.

O crítico literário, por sua vez, ao escrever uma resenha sobre determinado livro, também atua, em outra instância, como mediador de leitura, estabelecendo um diálogo tanto com o leitor que pretende ler aquele livro e busca na resenha algumas chaves de leitura, como com o leitor que já leu o livro e procura por uma interlocução acerca de suas impressões, dúvidas, hipóteses de leitura. As próprias crianças fazem mediação de leitura quando leem umas para as outras.

É comum, por exemplo, flagrarmos irmãos mais velhos lendo para os menores um livro do qual gostam muito, que já sabem de trás pra frente, fazendo mediações incríveis, justamente porque conhecem muito bem o livro e mantém com ele uma relação afetiva especial. O que aproxima estes três exemplos de mediação e, de alguma maneira, ajuda a traçar um perfil do profissional mediador de leitura é principalmente o estabelecimento de uma interlocução pautada pela escuta de percepções construídas a partir de diferentes repertórios e experiências leitoras. Nesse sentido, parece-me que nosso curso de pós-graduação no Instituto Vera Cruz acerta muito ao escolher os eixos leitura, mediação e crítica para pensar a relação das crianças e dos jovens com os livros, pois são aspectos indissociáveis quando se pensa na formação de leitores.

Cristiane Fernandes Tavares é mestre em Literatura e Crítica Literária pela PUC-SP (2005) e graduada em Jornalismo pela Faculdade Cásper Líbero, atualmente coordena o curso de Pós-Graduação "Livros, crianças e jovens: teoria, mediação e crítica", no Instituto Vera Cruz - SP