OPINIÃO

O ministro Jungmann e a tal "festa de bandido"

Marta Macedo questiona se estar na companhia de bandido realmente te torna bandido também


(Foto: Valter Campanato/Agência Brasil)

Aqui vou chamá-la de Vera, não usarei o seu nome verdadeiro por prudência.

Conheci Vera na empresa onde trabalhei por poucos meses. Ela era uma espécie de gerente de produção. O dono tinha muita confiança no seu trabalho e nas decisões que tomava.

Vera era uma mulher de personalidade forte. Não gostava de falsidade e rodeios. Falava na cara o que achava necessário sem ser grossa. Eu gostava daquele seu jeito decidido!
Éramos em cinco mulheres trabalhando na mesma sala, por isso acabávamos sabendo de um pouco da vida de cada uma. A história da Vera era a mais “fora do padrão”, pelo menos foi o meu sentimento na época.

Vera era casada com um homem bom (ela dizia isso), mas a rotina daquele casamento a fez buscar bailes e bares da região. O marido não a acompanhava porque odiava sair à noite, por isso ela saia com amigos, muitos deles da favela Buraco Quente da Vila Brasilândia. Ela tinha amigos de todas as classes sociais.

Quando se falava em noitada Vera já estava dentro. Era empolgada nas diversões noturnas. Não era apenas nas sextas e sábados que saia, no meio da semana também, sem que isso afetasse o seu desempenho na manhã seguinte. E foi numa noite que conheceu um delegado de polícia e logo engataram um romance. Pensa que ela escondeu do marido? Não! Fez questão de abrir o jogo o quanto antes, mas para a sua surpresa o marido não quis a separação. Alegou que a amava muito e conviveria com a situação.

Nos papos da mulherada da sala, Vera não se conformava de eu não ter vida noturna. Duas das outras colegas da sala as vezes saiam juntas com ela, voltavam quando dia amanhecia, então eu argumentava que não gostava disso. Mas um dia Vera comentou sobre um show de samba que haveria nas quebradas de um certo bar da Freguesia do Ó e me convidou. Desta vez me prometeu que eu teria carona na volta, isso antes da madrugada. Também me disse que, no máximo, a uma da matina eu já estaria debaixo das minhas cobertas. Aceitei!

Quando chegamos no bar ainda não tinha muita gente, mas conforme via o jeitão dos frequentadores confesso ter me arrependido de ter ido. Num dado momento se armou um espaço pra baile, como não estava nos meus planos dançar, fui lá pra longe da “pista”. Estou sentada no cantinho, pra ninguém me perceber e contando os minutos para ir embora, quando senta um rapaz ao meu lado na mesa. Papo vai e papo vem eu lhe pergunto o que ele trabalha? Sou segurança de banqueiro, respondeu. Eu, ingênua ainda perguntei: “De qual banco? Itaú, Bradesco...?” "Mina, sou de banqueiro de jogo de bicho”.

Lembrei deste caso que aconteceu comigo por causa das palavras de Raul Jungmann. Na semana passada a polícia invadiu uma festa organizada supostamente por milicianos. Pelo menos foi este argumento para prenderem mais de cem pessoas, entre elas gente sem antecedentes criminais. Jungmann disse que aquelas pessoas sem antecedentes criminais “precisam explicar o que estavam fazendo na festa de bandido?” Onde está no Código Penal, Civil, Constituição que estar ao lado e no mesmo ambiente de gente com antecedentes criminais também o torna criminoso e obrigado a dar explicações?

Já imaginou se a polícia invadisse o bar da Freguesia nos dias de hoje? Como explicaria que não tinha nada a ver com jogo do bicho?

Se estar na companhia de bandido o torna também bandido, as companhias do Jungmann no governo Temer já o colocariam na prisão.

Meu Deus! Que época de trevas estamos vivemos!


Marta Maceto trabalha no Instituto de Biociências da USP