OPINIÃO

O FUTURO JÁ CHEGOU

O jornalista Marcus Vinicius Ozores explica a 'Quarta Revolução Industrial'


(Black Mirror) 

Vivemos hoje a “Quarta Revolução Industrial”, o tempo da Indústria 4.0. Todos nós, fazemos parte desse novo mundo, mesmo que não tenha se apercebido. Vivemos numa imensa aldeia global, como definiu Marshall MacLuhan, na década de 1960. Estamos conectados com empresas, bancos, instituições governamentais, parentes próximos, parentes distantes dos quais muitos, dentre eles, recém-descobertos no mundo virtual, vizinhos, prestadores de serviço, namoradas, namorados, esposas, esposos, filhos, filhas, entregadores de pizza. Ou então, realizamos nossos pequenos sonhos de consumo barato ou caro através de sites de empresas tão distantes como da China ou no Curdistão, ou mesmo na esquina da sua casa e você nem sabia que aquela casa, na rua debaixo da sua rua, com paredes altas amarelas era uma distribuidora de cerveja importadas. Os mundos reais e virtuais se fundem. E, para acessar esse universo, basta apertarmos com dedo indicador a tela do nosso smartphone.

O mundo é uma grande teia ligada por empresas gigantes de redes de comunicação cada vez mais rápidas. Somos devorados pela tecnologia e pelos aplicativos que baixamos nos celulares que nos fazem ficar cada vez mais parados olhando a tela do celular, do computador, do tablet e do cada vez menos usado computador de mesa. Os mais velhos ainda se sentam na sala para assistir a programação das redes cambaleantes e doentes, na tela da televisão.

O futuro já chegou. É agora. Ele já adentrou a porta da sala de casa e está presente no nosso cotidiano. Fazemos parte de uma sociedade de massa consumista e impessoal e, tentamos desesperadamente, nos manter como indivíduo sendo membro ativo como um algoritmo no Google, do Facebook, do Twiter, Instagram, WhatsApp, You Tube, Messenger, Linkedin e muitos outros.

Hoje são os robôs, programados pela Inteligência Artificial, que nos atendem quando procuramos informações bancárias, hospitalares, apoio técnico quando ficamos sem sinal de internet em casa, seguro de vida, quase tudo que demandamos no nosso cotidiano são os robôs programados que atendem o nosso as demandas do nosso algoritmo pessoal.

Ao longo dos séculos, dezenas de pensadores e filósofos dedicaram suas vidas tentando explicar a existência humana no planeta Terra e sonhando com a remota possibilidade de encontrar alguma forma de vida em algum planeta próximo ou em uma das milhares de galáxias espalhadas pelo cosmos infinito.

Luciano de Samósata, nascido na cidade síria que dá origem ao seu sobrenome, no ano 125 da era cristã, foi o primeiro a escrever sobre a possibilidade da existência de vida na Lua. Luciano escreveu mais de sessenta obras, no entanto uma em especial intitulada “Uma história verdadeira” narra a viagem fantástica à Lua e descreve seres extraterrestres.

A ficção de Luciano de Samósata influenciou, após o Renascimento, vários escritores ocidentais como Erasmus de Roterdã, François Rabelais, Jonathan Swift, Voltaire, Hector Savinien de Bergerac e muitos outros.

Dentre esses nomes destacamos o de Hector Savinien de Bergerac que ficou conhecido pela alcunha de Cyrano de Bérgerac (1619-1655). Cyrano foi soldado do rei de França, duelista, poeta e romancista libertino aclamado na sua época. Dentre os vários títulos que publicou ao longo da sua curta existência dois livros, publicados após sua morte, foram dedicados ao mundo imaginário: “Histoire comique des Estats et Empires de la Lune” e; “Histoire comique des Etats et Empires de le Soleil”.

Cyrano de Bergerac dá título a mais famosa peça de teatro de Edmond Rostand que, tomando como base uma biografia reinventada de Cyrano, transformou sua vida num texto clássico do teatro francês e mundial e deu segunda vida a esse duelista romântico, libertino e sonhador. Representa para sempre o outro na paixão secreta pela sua amada Roxane.


(Le Voyage Dans La Lune)

Revolução Industrial

Os séculos XVIII e XIX são respectivamente, berços das chamadas Primeira e Segunda Revolução Industrial. O século XIX, em particular, é o século que assiste o nascimento da ciência moderna. Nesse período ocorre o ‘casamento entre o saber científico e a grande indústria’.

É outro francês, que desponta no cenário literário mundial como um dos maiores divulgadores de ficção (realidade) científica na segunda metade do século XIX. Seu nome é Júlio Verne, autor de mais de 100 livros, publicados em 148 línguas.

Júlio Verne nasceu e morreu entre as chamadas duas revoluções industriais. Nasceu em 1828 quando a força motriz era o vapor e que substituiu a força motriz do homem/animal. Verne morreu em 1905, época em que o mundo já vivia a chamada segunda revolução industrial, a era da energia elétrica.

O autor antecipou várias invenções que mudariam para sempre o modo de vida da civilização humana. O submarino, os aviões e o seu fantástico e profético livro “Da Terra a Lua” publicado pela primeira vez,

Foi pelas mãos habilidosas de um ilusionista francês que nasceu o cinema moderno. Seu nome era Georges Méliès e o seu filme mais célebre, exibido em 1902, tinha como título “Viagem à Lua”, inspirado em dois romances. O primeiro de Júlio Verne e o segundo, intitulado “Primeiros homens da Lua”, de autoria do biólogo inglês H. G. Wells, outro nome importantíssimo na ficção científica mundial do final do século XIX e início do XX.

É de H. G. Wells o texto “A Guerra dos Mundos” que o ator norte-americano Orson Wells vez uma adaptação do romance, e narrou ao vivo na noite de 30 de outubro de 1938, na mais importante rede de rádio dos EUA na época, a CBS. Nessa noite a emissora interrompeu a transmissão de um programa musical e o ator Orson Wells interpretou, ao vivo, a adaptação que havia feito do livro de H. G. Wells. O texto descrevia, em tom realista, a chegada de milhares de marcianos vindos a bordo de naves extraterrestres à cidade de Grover's Mill, no estado de Nova Jersey. Em questão de minutos houve um pânico em várias cidades do país e pessoas saíram às ruas temendo pelas suas vidas e pedindo socorro. Houve fuga em massa inclusive na capital financeira do país, Nova Iorque.

No entanto, nenhum livro foi mais profético, para o momento atual que vivemos, que “Admirável Mundo Novo" de Aldous Huxley, publicado pela primeira vez em 1932. Nesse livro, Huxley descreve uma sociedade extremamente científica, onde as pessoas são pré-condicionadas biologicamente e condicionadas psicologicamente a viverem em harmonia com as leis e regras sociais da sociedade. Essa sociedade, concebida pela pena de Huxley, filho e neto de destacados biólogos do University College de Londres, não possui ética religiosa e tampouco valores morais. Qualquer dúvida e insegurança dos cidadãos eram dissipadas com o consumo da droga, sem efeito colateral aparente, chamada "soma".

Neste ‘Admirável Mundo Novo’ a reprodução humana estava inteiramente baseada na reprodução artificial. Dependendo da classe genética a que determinado grupo pertencia (Alfa+, Alfa, Beta+, Beta, Gama, Delta ou Épsilon), eram tratados com substâncias diferentes durante a gestação. 

No ano seguinte à publicação do livro de Huxley, em 1933, o austríaco Adolf Hitler, depois de uma série de golpes e manobras violentas, conquista o cargo de Chanceler do Reich alemão estabiliza a fragilizada economia alemã e imediatamente passa, sob os olhar de atônito dos países que haviam assinado o armistício em 1918, a rearmar a Alemanha e a contestar as fronteiras traçadas no final da Grande Guerra (1914-1918).

No dia primeiro de setembro de 1939, exatos vinte anos e oito meses desde o final da Grande Guerra, tropas nazistas invadiram a fronteira da Polônia e Europa entrou numa guerra fraticida que consumaria a vida de mais de 50 milhões de vidas ao redor de todo o planeta, ao longo de seis anos.

O mundo nunca mais seria o mesmo.

Terceira revolução industrial

Com o armistício final, conquistado após o bombardeio nuclear do Hiroshima e Nagasaki, em agosto de 1945, inicia-se uma nova fase de processos tecnológicos, decorrentes de uma integração física entre ciência e produção, denominada Terceira Revolução Industrial ou revolução tecnocientífica. Como resultado, temos a aplicação quase imediata das descobertas científicas no processo produtivo.

Esse fato proporcionou a ascensão das atividades que empregam alta tecnologia na linha de produção. Como exemplos dessa Revolução Industrial, temos: a informática, que produz computadores e softwares; a microeletrônica, que fabrica chips, transistores e produtos eletrônicos; a robótica, que cria robôs para uso industrial; as telecomunicações, que viabilizam as transmissões de rádio e televisão, telefonia fixa e móvel e a Internet; a indústria aeroespacial, que fabrica satélites artificiais e aviões; e a biotecnologia, que produz medicamentos, plantas e animais manipulados geneticamente.

Na década de 1980, em um processo autônomo de reestruturação do sistema capitalista (neoliberalismo), o nível tecnológico alcançado exerceu papel fundamental na reestruturação econômica-organizacional. O desenvolvimento dessas tecnologias contribuiu para a formação de meios de inovação, dentro dos quais as aplicações interagem em processo de "tentativa e erro", exigindo a concentração espacial dos núcleos tecnológicos de empresas e instituições, com uma rede auxiliar de fornecedores e capital de risco como apoio. Assim, fica consolidado o sistema das transnacionais/multinacionais.


(Air Way/Reprodução)

Quarta Revolução Industrial

Todos nós, terráqueos, fazemos parte da mesma aldeia global e vivemos juntos a chamada Quarta Revolução Industrial. É óbvio que essa Quarta Revolução não foi decretada por lei: “A partir de hoje a humanidade vive uma nova era”. Não estamos no cenário do filme do grupo Monty Python “Em busca do Cálice Perdido” quando o Sir Lancelot anuncia a plenos pulmões: “Acabou a Idade Média (...)Acabou a Idade Médiaaaa”. No nosso caso também não veremos Kenu Reeves, no papel de Neo, em Matrix Reloaded gritar “vivemos a 4ª Revolução Industrial”.

Não devemos, contudo, nos iludir com os exemplos desenvolvimentistas alcançados pelo estágio atual do chamado ‘primeiro mundo’.  Ao mesmo tempo em que se anuncia a substituição de grande parte da mão-de-obra humana por robôs e plataformas coordenadas através, de IA (Inteligência Artificial), nesse mesmo ano de 2018 a chamada Segunda Revolução Industrial ainda não chegou a 17% da população humana. Cerca de 1,3 bilhão de seres humanos ainda não tem acesso à eletricidade. Isso também é válido para a terceira revolução industrial que ainda não chegou a quase três bilhões de pessoas que vivem nos países nomeados pela literatura econômica como ‘em desenvolvimento’.

Porém, é preciso constatar que muito mudou nos últimos sessenta anos. Se o tear mecanizado - símbolo máximo da primeira revolução industrial – levou 120 anos para se espalhar para fora da Europa, em contraste, a internet comercial que nasceu nos EUA, em 1992, espalhou-se pelo Globo em menos de uma década.

A impressão que temos é que vivemos numa imensa Belíndia um país fictício, ambíguo e contraditório, que resultaria da conjunção da Bélgica com a Índia, com leis e impostos do primeiro, pequeno e rico, e com a realidade social do segundo, imenso e pobre.

Esse termo foi popularizado, em 1974, pelo economista brasileiro Edmar Bacha, em sua fábula "O Rei da Belíndia", na qual argumentava que o regime militar brasileiro estava criando um país dividido entre os que moravam em condições similares à Bélgica e aqueles que tinham o padrão de vida da Índia[1].

Vivenciamos um novo horizonte no campo das mediações pessoais e interpessoais possibilitados pelas novas tecnologias da comunicação e informação.

A Quarta Revolução Industrial se baseia na revolução digital que permite a criação de ‘fábricas inteligentes’ que cria um mundo onde os sistemas físicos e virtuais de fabricação cooperam de forma global e flexível. Isso permite a total personalização de produtos e criação de novos modelos operacionais.

O que muda

O que torna a Quarta Revolução Industrial diferente das anteriores é a fusão de novas descobertas que vão das áreas de sequenciamento genético até a nanotecnologia; das energias renováveis à computação quântica. Essa fusão de tecnologias e interação dos domínios físicos, digitais e biológicos irão mudar profundamente o mundo e o modo que vivemos.

Com o advento da era da informação, muita coisa mudou e até mesmo a forma de nós, humanos, nos relacionarmos. A rápida revolução no modo de vida, provocada por essas novas ferramentas, possibilitou que inventássemos novas formas de fazer amigos, reencontrarmos antigas amizades, parentes distantes, enfim. O mundo, de certa forma, ficou “menor”, pois, dá a falsa impressão que ele cabe no nosso celular.

Se somos afetados em nossas relações pessoais por esses meios de comunicação, as relações profissionais foram e serão profundamente afetadas. Empresas trocaram as antigas formas de comunicação e o telefone foi aposentado pelo Skype, o uso de e-mails substitui as cartas, as teleconferências dispensaram a presença física do palestrante. Boa parte das soluções corporativas e, mesmo pessoais, são resolvidas sem que precisemos sair das nossas salas de visita.

Se por um lado este dado é positivo, não podemos deixar de compreender as esferas negativas desse fenômeno.

A imprensa, de maneira geral, vem insistindo cotidianamente nessa transição. A era da informação, da informática, da liquidez de relações permitiu que certezas desaparecessem e dessem lugar a construções cada vez mais dinâmicas.

 O professor de política e administração da Universidade de Genebra e fundador e presidente executivo do Fórum Econômico Mundial, que reúne os presidentes dos países mais ricos do mundo e os CEOs das maiores empresas do planeta, Klaus Schwab, é autor de importante livro sobre a Quarta Revolução Industrial.

Ele afirma que há uma certeza: “as novas tecnologias mudarão drasticamente a natureza do trabalho em todos os setores e ocupações. A incerteza fundamental tem a ver com a quantidade de postos de trabalho que serão substituídos pela automação. Quanto tempo isso vai levar e aonde chegará?”.

Ele mesmo tenta responder a essa questão comparando que a destruição de um modo de trabalho já ocorreu antes na história e esse efeito destrutivo ocorre quando as rupturas alimentadas pela tecnologia e a automação substituem o trabalho por capital, forçando os trabalhadores a ficar desempregados ou realocar suas habilidades em outros lugares.

Schawb destaca que o efeito destrutivo vem acompanhado por um efeito capitalizador, em que a demanda por novos bens e serviços aumenta e leva à criação de novas profissões, empresas e até mesmo indústrias. Muito embora saibamos que os seres humanos têm muita facilidade em se adaptar a questão que se coloca é “o tempo e o alcance em que o efeito capitalizador consegue suplantar o efeito destruidor e a velocidade dessa substituição”.

Ele prossegue: “Diferentes categorias de trabalho, particularmente aquelas que envolvem o trabalho mecânico repetitivo e o trabalho manual de precisão, já estão sendo automatizadas (...). Antes do previsto pela maioria, o trabalho de diversos profissionais diferentes poderá ser parcial ou completamente automatizado a saber, advogados, analistas financeiros, médicos, jornalistas, contadores, corretor de seguros ou bibliotecários”. E em tom mais dramático ele termina a frase: “Até o momento, a evidência é a seguinte: a quarta revolução industrial parece estar criando menos postos de trabalho nas novas indústrias do que as revoluções anteriores”.

Quando falamos acima sobre a natureza profética do livro de Aldous Huxley podemos afirmar que nos dias de hoje já é realidade, por exemplo, a plataforma Watson, gerenciada pelo supercomputador da IBM, que consegue recomendar, em poucos minutos, tratamentos personalizados para pacientes com câncer, comparando os históricos das doenças e dos tratamentos. Em breve Watson poderá substituir milhares de médicos que atendem planos de saúde. Além de custar mais barato, provavelmente fará a anamnese dos pacientes melhor que os médicos, sujeitos às intempéries da vida cotidiana. O hospital Einstein, na capital paulista, já utiliza essa plataforma para atender os pacientes na UTI. Nessa primeira etapa o Watson substituiu a maior parte dos empregos da equipe de enfermagem.

Outro ponto que revolucionará em breve é que os pesquisadores já começaram a reescrever os genomas dos porcos para que tenham órgãos adequados para o transplante humano. Além do mais, muito em breve, a manipulação do genoma humano de embriões significa que no futuro poderemos presenciar uma geração de bebês projetados com características especiais ou resistentes a uma ou várias doenças. Aliás, isso já ocorre hoje na agricultura com a manipulação genética das sementes.

A impressão em 3D possibilitará que em breve não precisemos mais de grandes parques industriais para reposição de peças. Elas poderão ser feitas uma a uma de acordo com a necessidade e essas impressoras estarão à disposição de todos por custo reduzido.

As entregas realizadas das compras através da internet serão entregues por drones. Aliás, nesse exato momento em que escrevo a Amazon, a gigante do comércio on-line, já está testando entregas de produtos que será feito por drones, em todo o território norte-americano.

Isso sem falar que os maiores dispêndios, como sempre, são os gastos militares. Já temos e teremos em breve mais “guerras limpas”. Isto é, países como EUA, Inglaterra, França, Alemanha, China e alguns outros de restrito grupo dos mais ricos não necessitarão mais de exércitos com grande contingente humano.

Os drones e as armas dirigidas por satélite estão substituindo os humanos nas frentes de batalha. Só países pouco desenvolvidos tecnologicamente continuarão a desperdiçar vidas humanas nas ‘guerras sujas’. A maior batalha que teremos pela frente será, sem dúvida, a guerra digital.

Nas próximas décadas as empresas que sobreviverem e as que prosperarem precisarão manter e aprimorar continuamente sua vantagem inovadora. Isso sugere que o número de inovadores irá aumentar. Pequenas e médias empresas terão a vantagem da velocidade e a agilidade necessária para lidar com as rupturas e disrupturas que caracterizarão o futuro próximo.

Se, por um lado, o barateamento das tecnologias de comunicação possibilitou que a maior parte da população mundial tenha acesso ao smart phone e o conecta com o mundo, esse indivíduo passa a emitir opiniões a se sentir pertencente a esse ‘novo mundo’. O semiólogo e romancista italiano Umberto Eco afirmou, pouco antes de partir desse mundo em 2016, que “as redes sociais deram voz aos imbecis”. E isso é uma grande verdade. Para tanto basta abrir a mídia social que você utiliza e já se depara com um bando de idiotas postando um monte de idiotices sem sentido, sentindo-se gênios da comédia humana não compreendidos.

Estado e Vigilância

Por outro lado, as tecnologias de vigilância podem dar origem a autoridades públicas com excesso de poder em suas mãos.

O romance futurista distópico ‘1984’, de autoria do escritor inglês George Orwell, foi publicado pela primeira vez em 1949 é ambientado na "Pista de Pouso Número 1" (anteriormente conhecida como Grã-Bretanha), uma província do superestado da Oceania, em um mundo de guerra perpétua, vigilância governamental onipresente e manipulação pública e histórica.

O Grande Irmão, ou melhor, o Big Brother, a todos observa como um Deus onipresente. Orwell tingiu as páginas do seu texto com a realidade do seu país, num pós Segunda Guerra que deu início à corrida nuclear e trouxe no seu bojo o aumento dos esforços para vigilância e controle pelos Estados vencedores, a partir do momento que o mapa mundi foi dividido entre capitalistas e comunistas e a Alemanha, derrotada, foi dividida ao meio.

A obsessão pela segurança é caraterística dos ingleses, desde os guardas de quarteirão, na idade média e, nos dias atuais, os Bobs que costumam andar em dupla pelas ruas das cidades. A Inglaterra é o país mais vigiado do mundo com câmaras de vídeos espalhadas pelo país. Londres é de longe a cidade mais vigiada com uma câmara para menos de 10 habitantes.  Praticamente todas as atitudes suspeitas são registradas nos vídeos e os responsáveis por crimes são rastreados em segundos pelos softwares de reconhecimento de imagem.

A verdade é que nós, cidadãos comuns, somos vigiados 24 horas por dia como já apontou o ex-analista e programador da CIA, Edward Snowden, quando resolveu, em 2013, fugir dos EUA e se refugiar em Hong Kong e decidiu conceder entrevista ao jornalista Glenn Greenwald e a cineasta brasileira Laura Poitras. Snowden entregou a esses dois jornalistas os documentos que comprovavam as suas afirmações da existência dos programas de vigilância em massa que a Agência Nacional de Segurança dos EUA, a poderosa NSA, utiliza para escafunchar a vida pessoal de cada habitante desse planeta que utiliza um smart phone, um tablete, um lap top ou um computador de mesa.

Em 2016 a fuga e perseguição a Snowden foi transformado em filme de suspense dirigido pelo renomado e premiado diretor hollywoodiano Oliver Stone.

No mundo atual, o país que está na frente do pensamento mundial é aquele que tem massa crítica e científica para analisar e gigantesco banco de informações, contidos no universo virtual. Vivemos o tempo do Big Data. Todos nós, inquilinos temporários desse planeta, não temos face nem nomes. Somos definidos por um algoritmo e fazemos parte desse imenso teatro humano.

E como formar os jovens para esse Admirável Velho Mundo Novo?


(Who's Tanny/Reprodução)

Em função dessas mudanças, a motivação dos alunos se tornou o grande desafio para professores em sala de aula. O giz e a lousa ainda persistem em algumas escolas, mas os alunos são cada vez mais atraídos por redes sociais como Facebook, Twiter, LinkedIn, entre centenas de outras.

Como devemos agir para preparar nossos jovens para os novos tempos. Quais as ferramentas que temos que ensinar e despertar neles sua criatividade e inovação?

É inegável o efeito que essas tecnologias exercem sobre as pessoas, sejam elas jovens, adultas, crianças ou idosas. Todos, em seu tempo, têm que aprender a lidar com elas para realizar exercícios simples da convivência e sobrevivência cotidiana.  Sacar dinheiro no caixa eletrônico, comprar café em máquina, ligar a nova TV etc. Cada vez mais somos bombardeados e dependentes das novas tecnologias.

No campo educacional, faz-se necessário o contato e a utilização das TIC’s por parte de professores, alunos e toda a comunidade escolar, tendo em vista a sua importância para a melhoria do processo de ensino e da aprendizagem.

A seleção da informação tornou-se um dos pontos mais sensíveis de nossa sociedade. Não basta ter a informação, é preciso saber se ela é factível, verossímil e, sobretudo, como devemos usá-la na formação e informação das pessoas. Ao mesmo tempo em que isso se consolida como um modo inovador a ser aproveitado pela educação, a seleção da informação também se transformou em mais uma forma de exclusão, tendo em vista o acesso das pessoas às novas tecnologias e, sobretudo, a formação do profissional da educação no uso das TICs.

Assim, os temas transversais de educação se tornaram ponto importante na aprendizagem, pois farão a conexão dos conteúdos formais de aprendizagem com as novas necessidades de discussão presentes na vida não só das pessoas em geral, mas especialmente dos jovens e crianças na sala de aula.

Temos que planejar o futuro

Há décadas atrás ouvíamos dos nossos pais que bastava estudar para conseguir um bom emprego.  Nos dias de hoje todo pai e todo jovem pensa em estudar, competir e lutar para conseguir uma vaga no mercado internacional. Para tanto é preciso falar pelo menos uma língua além do inglês. Nos dias atuais não há espaço para nacionalismos. A inovação, não tem pátria, a inovação é filha direta do conhecimento aplicado.

Mas ainda restam inúmeras perguntas para pais, gestores, professores e estudantes.

Haverá vagas de emprego para todos bem formados? Qual será a natureza do emprego daqui uma década?  Centenas profissões deixarão de existir e surgirão novas oportunidades de empregabilidade.

Vivemos a era da internet das coisas. Hoje máquinas são programadas para se comunicarem com outras máquinas, sem intervenção humana.  O mundo será, dentro em breve, um imenso wi-fi. Um mundo de homens e máquinas conectados ininterruptamente.

A pergunta que devemos tentar responder é: como entender e como sobreviver nesse mundo conectado?

Até o momento não existe uma única resposta para essas questões. Nem mesmo os mais renomados pesquisadores - que passam suas vidas se dedicando à produção de conhecimento inovador - sabem como será o mundo dentro de dez anos e como a escola deve se adaptar para enfrentar esses novos tempos.

O que temos certeza, enquanto terráqueos, é que o conhecimento se transmite entre humanos. É o contato, o carinho e o ato de ensinar a falar e compreender o mundo que nos torna humanos e nos capacita a entender e compreender as relações humanas.

E sempre aprendemos com os mais velhos, com aqueles que têm experiência. Num mundo em ebulição que enfrentamos nos dias de hoje, a troca de experiências entre gerações nunca se faz tão necessária. Existe um debate mundial sobre a questão da alfabetização e do aprendizado da fala e da escrita. O que se sabe para a boa alfabetização é a interação do adulto e da criança através da língua como aprendizado para se constituir ‘humano’. O uso descontrolado, pelas crianças, de celulares e tablets, mesmo antes de aprenderem a falar preocupa os pedagogos e alfabetizadores. A falta de dialogo pode ser fatal para a formação das novas gerações.

Ensinamos nossas crianças a andar, a falar, a ler, a escrever. E elas, que nasceram com celular no dedo, nos ensinam como dominar esse Admirável Velho Mundo Novo.

As máquinas estão entre nós desde a primeira Revolução Industrial, mas a grande realidade é que não estamos tratando a automação de forma correta. Não se trata de uma guerra homem versus máquina e sim de nos preparar para utilizar essa força aliada a uma preparação intelectual diferenciada.

A partir do conhecimento é que a integração homem/máquina será possível para realizar o sonho de um futuro grandioso. Precisamos retomar a ideia de um projeto para o Futuro onde toda a humanidade seja incluida.

[1] Com essa fábula, Edmar Bacha ganhou notoriedade bem antes de participar da equipe que instituiu o Plano Real na década de 1990

 

Marcus Vinicius é jornalista, pesquisador do Núcleo de Estudos de Políticas Públicas da Unicamp, foi assessor de imprensa da Unicamp e apresenta o programa Palavras Cruzadas, produzido pela Rádio e Televisão – Unicamp (RTV).