BIBLIODIVERSIDADE

Um livro não é apenas um livro

Por trás de cada livro, há um sistema muito maior: que me perdoem os escritores, mas um livro é resultado, sempre, de muito mais gente


(Foto: O impacto de um livro/Blog Enrique Muriel)

Tem gente que acha que um livro é um monte de frases encadeadas – seja na forma de poesia, seja na de prosa. E tem razão: um livro é uma pequena organização de ideias, traduzidas em palavras escritas e, eventualmente, números e imagens.

Mas o livro não é só isso. Por trás de cada livro, há um sistema muito maior: que me perdoem os escritores, mas um livro é resultado, sempre, de muito mais gente.

Quando você, talvez preguiçosamente deitado antes de dormir, talvez dentro de uma biblioteca deliciosamente silenciosa, quiçá no meio da praça enquanto passa um ônibus freando ou ainda no meio de uma dura reunião de trabalho, certamente não vai pensar em quanta gente deu um duro danado pra que essas ideias escritas chegassem a você.

Mas admita que é bastante interessante pensar narcisicamente numa corrente de pessoas que, sem que você sequer imaginasse que um dia precisaria tanto do desse ou daquele livro, pensaram em você. Ou seja, para elas, você já existia antes de o livro existir para você.

Primeiro, há uma pessoa jurídica dedicada a pensar na melhor forma de fazer os livros existirem, que é chamada “editora”. Evidentemente, uma editora é feita de pessoas físicas, que executam cotidianamente as tarefas que lhe dão vida.

E quando o livro começa a existir? Primeiro, o arquivo de texto que o escritor manda à editora é avaliado, e muitos dos textos enviados não são escolhidos; depois de avaliado e aceito, o texto é preparado (com frequência, ele é reescrito, leve ou radicalmente, sempre com concordância do escritor); após a preparação, ele é diagramado, ou seja, o livro é “desenhado”. Nesse “desenho”, os editores e designers têm de escolher a melhor fonte, a melhor distância entre as letras, onde vão os títulos, em que lugar começa o texto, qual o tamanho da página e como será feita a numeração, se as fotos serão coloridas ou em preto e branco etc… E a capa, que é a cara do livro: os editores tentam, sempre, dar a melhor capa para o livro, aquela que o torne atrativo, mas que também o represente.

O livro feito e impresso na gráfica precisa chegar aos leitores. Os livros são vendidos por livrarias virtuais e físicas, mas às vezes chegam às pessoas com vendedores porta a porta ou ainda vão parar nas bancas de jornal. Como o livro é também uma mercadoria, dá-se a essa operação o mesmo nome que recebe o trabalho de distribuir carros, televisores, xampus: logística.

Mas o livro tem algumas peculiaridades: são dezenas de milhares de novos livros, cada um diferente do outro, editados, todos os anos, apenas no Brasil. Não há nenhum outro produto no mercado capitalista que conte com tamanha variedade de conteúdo – os livros podem até se parecer por fora, porém acabam dizendo coisas completamente diferentes por dentro…

Esse processo de desenvolvimento de cada título faz com que o trabalho do editor seja, ao mesmo tempo, industrial e artesanal: há gráficas, equipamentos e organização de uma indústria, mas, ao mesmo tempo, mesmo o livro mais banal é feito de forma única.

O livro é, com todo esse trabalho envolvido, portanto, uma coisa muito valiosa. Uma coisa valiosa que a gente lê por prazer ou necessidade. São duas formas igualmente legítimas e necessárias de fruir o conhecimento. Os editores sabem disso, e trabalham sempre para que, se possível, as leituras sejam prazerosas mesmo que necessárias, e necessárias porque prazerosas.

Tem mais uma coisa que precisamos dizer: em cada estante desta feira, você vai encontrar o que a gente chama de projeto editorial. Uma editora não se constrói, nunca, com apenas um livro. As editoras vão construindo seu catálogo, que é ao mesmo tempo uma coleção de livros e uma história da própria editora. Quando você se deparar com aquele monte de livros à sua frente em qualquer desses estandes, tente por um momento imaginar o projeto editorial que aqueles livros que você está selecionando contam.

A Primavera Literária nasceu da ideia de expor os projetos editoriais diferentes, de empresas que se preocupavam a fundo com seus catálogos e com a coerência de seus livros. A gente luta para preservar esses projetos, porque eles são a essência do que a gente chama de bibliodiversidade. A bibliodiversidade, portanto, não se expressa só quantos títulos diferentes você encontra no mercado, mas quantos desses projetos diferentes podem sobreviver num ambiente econômico, cultural e político hostil para com a cultura e a diferença.

Leitores que reconhecem a importância de cada livro publicado são fundamentais para defendermos a diversidade, a liberdade e a igualdade de expressão. Em resumo, para defendermos a democracia.

*Haroldo Ceravolo Sereza é editor da Alameda e jornalista. Foi Presidente da Libre por dois mandatos, de 2011-2015.

 

Destaques