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Histórias sobre o Brasil no oitocentos

Resultado de seminário internacional realizado na Universidade Federal do Espírito Santo, livro traz novas perspectivas e horizontes de pesquisa da crise do sistema colonial até o final da chamada Primeira República

Leia abaixo o prefácio da obra Histórias sobre o Brasil no oitocentos, que reúne os principais artigos apresentados no I Seminário Internacional SEO: Brasil no Século XIX, realizado em agosto de 2014. Para baixar gratuitamente a versão digital do livro, clique AQUI.

Em maio de 2013, em um evento comemorativo dos 10 anos do Centro de Estudos do Oitocentos (CEO - UFF), fundou-se a Sociedade Brasileira de Estudos do Oitocentos (SEO), com sede na Universidade Federal Fluminense. O CEO, núcleo propulsor desta fundação, tem sede no Departamento de História da UFF. Ao longo desses anos, abrigou 3 projetos de excelência (PRONEX - FAPERJ / de 2004 a 2014)[1] e foi responsável pela publicação de cinco livros, cujos artigos elaborados por seus pesquisadores e convidados procuraram refletir sobre as dimensões da cidadania, da nação e do Estado no Oitocentos.

Com capacidade de nuclear outros grupos e a responsabilidade de disseminar e consolidar análises sobre o período imperial, promoveu também simpósios temáticos nos seminários nacionais e regionais da Associação Nacional de História (ANPUH), bem como organizou seminários internacionais que reuniram pesquisadores estrangeiros, do PRONEX e convidados de outros núcleos de pesquisa e universidades para profícuo debate acadêmico. Ainda dentro de suas atividades, organizou dois seminários regionais, um em 2003 e outro em 2008, com o mesmo intuito de ampliar o debate sobre novos temas e perspectivas de análise do longo século XIX e realizou um concurso de teses e dissertações sobre a mesma temporalidade.


 

A SEO nasceu, portanto, na tradição das ações encetadas pelo CEO-UFF, mas  com amplo apoio da historiografia. Cento e setenta e três pesquisadores e sete grupos de pesquisa assinaram uma carta de apoio à sua criação, que foi chamada de Carta de Niterói.  Nela mencionava-se o cenário da fundação da sociedade: "o processo de expansão quantitativa e qualitativa"[2] que passavam as universidades brasileiras e a necessidade de se criar um novo modelo de integração que reunisse pesquisadores, professores, alunos de pós-graduação, de graduação, projetos coletivos, linhas e grupos de pesquisa. Assim, o documento traçou como objetivo princial "servir de fórum de debates e representação dos diversos pesquisadores e grupos, nacionais e estrangeiros, comprometidos com a pesquisa, o ensino e a divulgação científica das histórias desse longo século XIX - período que se estende desde meados do século XVIII até 1930, ou, para o caso brasileiro, desde o que se conhece como a crise do sistema colonial até o final da chamada Primeira República".

Ao seguir o modelo de outras sociedades científicas, a SEO procurou se constituir como um espaço autônomo e integrador de iniciativas de reflexão e análise sobre os diferentes recortes temáticos, objetos e abordagens sobre o período. Constituiu-se "aberta a todas as vertentes interpretativas e de livre associação, sem interferir nos processos internos e na autonomia dessas entidades associadas" e tomou por norte acreditar na diversidade para potencializar a "emergência de identidades e interesses comuns na relação com os diferentes setores da sociedade, do Estado e do mundo acadêmico-científico".

O caráter nacional e internacional da SEO levou à eleição de uma diretoria, conselho fiscal e científico plurais, que contemplou pesquisadores brasileiros e internacionais de universidades diferentes. Com relação ao Brasil, cuidou-se de que a gestão estivesse regionalmente representada.

Esse esforço resultou no I Seminário Internacional da SEO: Brasil no século XIX, que aconteceu entre os dias 25 e 29 de agosto, nas dependências do Departamento de História da Universidade Federal do Espírito Santo. Ao longo desses três dias foram apresentadas 209 comunicações e 86 foram enviadas para avaliação de um Comitê Editorial e de um Comitê Assessor, coordenados por Adriana Pereira Campos. Desses, 77 trabalhos obtiveram pareceres favoráveis e foram publicados na forma de Anais eletrônicos na página da SEO.

Os treze artigos que compõem este livro foram selecionados entre essas 77 comunicações. Expressam novas perspectivas e novos horizontes de pesquisa e foram agrupados em cinco seções.

A primeira delas trata de aspectos econômicos e conjuga-os com posições e opções políticas. Mostra que a economia, a política e características culturais e sociais caminham lado a lado. Assim, os capítulos abordam políticas relativas ao tesouro nacional, com liames estreitos com os partidos políticos; a importância das ferrovias para a configuração das cidades e suas morfologias como Bocas do Sertão em diferentes províncias e o desenvolvimento do Sul do Espírito Santo por meio de sua ocupação feita por imigrantes.

Livros e literatura, segunda seção, do livro, aborda a leitura, como as pessoas liam, viviam e até tinham ganhos pecunários com o livros.  Prossegue com análises instigantes sobre aspectos da literatura no século XIX ao tematizar a identidades regionais do Sul e ao recuperar um tipo literário original marcado pela tradição poética da gauchesca, que idealizava um passado que foi sendo destruído pelos novos tempos trazidos pela “civilização”. De forma instigante, trata igualmente da ironia de Martins Guimarães no periódico carioca Semana Ilustrada. Procura articular aspectos linguísticos, literários e culturais da crítica literária da segunda metade do século XIX e discutir textos que fugiram aos padrões da crítica literária tradicional devido ao humor, à ironia, ao elogio exagerado aos autores e a produções medíocres.

A seção Imprensa revela uma riqueza ímpar ao se debruçar sobre jornais, tipografias e ao desnudar a importância da circulação de ideias entre Parlamento e imprensa. Recupera a instalação da Tipografia Nacional do Maranhão, no contexto de instituição da liberdade de imprensa pelo constitucionalismo português, e abre uma importante janela para se perceber os impactos provocados nas disputas políticas. Já a circularidade de ideias entre Parlamento e imprensa é tratada em relação a um assunto específico: o tráfico. A hipótese, ao abordar um político pernambucano, é defender que os grupos políticos nasciam de alianças tecidas por líderes de partidos por meio das falas que proferiam. Esses homens eram grandes oradores que arregimentavam parlamentares ao seu redor e traçavam-lhes as diretrizes.

Historiografia e escravidão é a penúltima seção, composta de três artigos. A historiografia sergipana e a sua importância é tema pouquíssimo frequentado. O autor recupera os primeiros estudos de história da historiografia sergipana sobre o Oitocentos, nascida na década de 1970. Os dois últimos capítulos tratam da escravidão. Com base em levantamento original das sociedades abolicionistas francesas no século XIX, um dos estudos contempla o Comitê pela abolição do tráfico de escravos da Sociedade da Moral Cristã, fundada em 1821, e discute a retórica abolicionista dos franceses principalmente por meio da denúncia das condições das viagens nos navios negreiros. Esse estudo dá subsídios para se comparar os discursos francês e brasileiro, no período tratado, e permite verificar e comparar os argumentos usados lá e cá. O último capítulo dá um tratamento novo às questões relativas ao tráfico ilegal e negreiro por dimensionar o reerguimento da escravidão no Brasil oitocentista, em sua dimensão Atlântica e no seio da chamada segunda escravidão. Enfatiza os vínculos entre os negócios do café e os do tráfico ilegal de africanos, seus agentes e suas estruturas.

A última seção do livro analisa os militares no período imperial, com distintos enfoques. Mostram-se as tensões políticas entre as instituições do Comando das Armas e da Junta Provisória de Governo do Espírito Santo, com suas estruturas administrativas e políticas, frutos das determinações das Cortes Lisboetas. Também nesta parte se deslinda o surgimento de uma imprensa militar no Brasil, analisando os temas em pauta a partir do exame da Revista Marítima Brasileira publicada entre 1851 e 1855.

Ao situar o livro em seu contexto de produção e ao resenhar brevemente os conteúdos de cada parte, esperamos contribuir para o debate acadêmico nas áreas específicas abordadas e atribuir a SEO a tradição de debates acadêmicos que tragam sempre novos caminhos de interpretação para os anos de 1750 a 1930, o longo século XIX.



[1] Entre 2004 e 2010, os projetos  Nação e cidania no Império: novos horizontes e Dimensões da cidadania no século XIX estiveram sob coordenação acadêmica de José Murilo de Carvalho e coordenação executiva de Gladys Sabina Ribeiro. Entre 2011 e 2014, fez parceria com o REDES- UERJ,  para a execução do projeto Dimensões e fronteiras do Estado brasileiro no século XIX, proposto por Lúcia Maria Pereira das Neves e com a coordenação acadêmica de José Murilo de Carvalho.

[2] Carta Aberta de Niterói.  maio de 2013. As citações pertencem a este documento. htt.p://www.seo.uff.br/index.php/home/carta-de-niteroi. Acesso em 23/11/2015.

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