DITADURA MILITAR

2016 versus 1964

Livro relata, passo a passo, o processo de construção civil do golpe militar que desabaria sua fúria sobre o Brasil em 31 de março de 1964

Não espere que a mídia industrial brasileira lhe conte esta historinha. Nestes mesmos dias em que a Câmara Federal brasileira se prepara para votar um estrambólico processo de golpe de estado ~constitucional~ contra a presidenta Dilma Rousseff, um livro ligeiro e certeiro dá a chance de contrastar o que está acontecendo agora mesmo com o que aconteceu quase exatos 52 anos atrás, quando outro golpe de estado depôs o presidente (não diretamente eleito) João Goulart.

Os dois processos guardam muitas diferenças. Mas havia um personagem não-humano central em 1964, que se mantém, sem tirar nem por, personagem não-humano central de 2016: a Fiesp, Federação das Indústrias do Estado de São Paulo. A dissimulada patrocinadora dos dois golpes é personagem central de À Espera da Verdade – Empresários, Juristas e Elite Transnacional – Histórias de Civis Que Fizeram a Ditadura Militar, da editora Alameda, lançado na cidade de São Paulo no último dia 30 de abril de 2016. Não espere que a mídia golpista brasileira sequer lhe conte da existência desse rápido e nada rasteiro livro.

Assinado coletivamente por uma equipe interdisciplinar ancorada na academia (formada por Felipe Amorim, Haroldo Ceravolo Sereza, Joana Monteleone, Rodolfo Machado e Vitor Sion), À Espera da Verdade é também um trabalho jornalístico, um livro-reportagem que apareceu primeiramente em forma de reportagens avulsas dos sites Última Instância e Opera Mundi e da revista Samuel, escritas em sincronia com os trabalhos da Comissão Nacional da Verdade, instalada em 2012 por, adivinhe quem, Dilma Rousseff.

(A propósito, os vínculos entre Dilma, Comissão da Verdade, impeachment fajuto e tentativa de novo golpe de estado clamam por ser estudados e esmiuçados, pelo jornalismo muito antes que pela academia, pela história ou pelos museus.)

O livro-estudo-reportagem de agora conta histórias inéditas entremeadas com histórias mais que conhecidas, ao menos por quem se interessa minimamente pela história do Brasil – o que exclui a quase totalidade da mídia comercial instalada no país, um mutirão de reacionários recém-convertidos aos movimentos de rua, um punhado raivoso de brasileiros de extrema direita e vários outros atores ocultos (ou não) dos dois processos golpistas, remanescentes do de 1964 e conspiradores ativos de 2016. Ler agora mesmo À Espera da Verdade elucida não só os anos de 1964 e 1961-1963 (o golpe e sua antessala), como oferece a preciosa oportunidade a(o) leitor(a) de estabelecer um chocante paralelo com seus equivalentes 2016 e 2013-2015.


O empresário dinamarquês Henning Albert Boilesen, que dirigiu a Ultragaz no Brasil, tornou-se figura destacada da ditadura civil-militar, foi assassinado e terminou retratado no documentário “Cidadão Boilesen” (assista abaixo)

A chave da caixa de Pandora se encontra no segundo subtítulo da obra, Histórias de Civis Que Fizeram a Ditadura Militar.

(Caímos entre 1964 e 1985 não numa ~revolução~ ~redentora~ditadura militar ou ditabranda, como muitos até hoje se empenham em nos impingir, mas sim numa ditadura civil-militar.)

Na ponta-cabeça dessa pirâmide encontraram-se em 1964 e se encontram hoje a Fiesp e uma galeria estrelada de injetadores de dinheiro e poder. Do passado, ouvimos no livro nomes como Volkswagen, Mercedes Benz, Siemens, Esso, Texaco, Ultragaz, Banco Mercantil do Brasil, Souza Cruz, Scania, Pfizer, O Estado de São Paulo, Moinhos Santista, Duratex e dezenas de etcs. Hoje, convivemos todo dia com a Rede Globo e seu elenco estelar de poderosíssimos anunciantes privados, superficialmente ilibados, civis acima de qualquer suspeita.

À Espera da Verdade relata passo a passo o processo de construção civil do golpe militar que desabaria sua fúria sobre o Brasil em 31 de março de 1964. Explica a avassaladora campanha de propaganda feita sobretudo pela Fiesp, pelo Ipês (Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais) e pelo Ibad (Instituto Brasileiro de Ação Democrática), todos interligados e contando com aporte ideológico e financeiro (no mínimo US$ 20 milhões, segundo o livro) do poder central dos Estados Unidos da América.

Em 2016, o jornalismo brasileiro está reduzido à condição de destroço, a ponto de não haver, até o momento, investigação e documentação equivalentes sobre o que se passa agora mesmo, nas diferenças e semelhanças com 1964, 1954, 1961, 1932, 1992… Em 2016, nos quedamos parvos à espera da verdade, à espera do À Espera da Verdade de 2066, aconteça o que acontecer nos próximos dias.

Os processos de 1964 e 2016 talvez sejam diferentes, mas a leitura de À Espera da Verdade assusta de cara pelas semelhanças. Pense, por exemplo, que a campanha eleitoral para o parlamento de 1963 contou com maciço investimento (inclusive estadunidense) para eleição de congressistas comprometidos com o ideário conservador, direitista, anticomunista, em última instância golpista. Pense, agora, em Eduardo Cunha e seus (no mínimo) 38 apóstolos.  Pense, então, em José Serra, Michel Temer, Geraldo Alckmim, Paulo Skaf, Marta Suplicy, todos eméritos paulistas comprometidos com a Fiesp – a dona do pato que todo mundo sabe quem estamos ameaçados de pagar.

Capítulo notável de 2016, e onde a história insinua se inverter, é aquele que se intitula “As mulheres golpistas”. Vale a transcrição de parte dos dois empolgantes parágrafos iniciais:

“Em 19 de março de 1964, foi realizada na cidade de São Paulo a ‘Marcha da Família com Deus pela Liberdade’. (…) Passaram à história como as genuínas idealizadoras e promotoras da marcha organizações femininas e mulheres da classe média paulistana. No entanto, por trás deste aparente protagonismo feminino às vésperas do golpe que deu lugar a 21 anos de regime ditatorial, esconde-se um poderoso aparato financeiro e logístico conduzido por civis e militares que tramavam contra Jango. Um detalhe: quase todos eram homens”.

Semelhanças e diferenças: em 2013-2016, a fórmula ~tradição, família, propriedade~ de promoção da comoção popular e do justiçamento volta repaginada e embebida numa barafunda de máscaras como Anonymous e Black Blocs e siglas como CBF, STF, MPL e MP, sob patrocínio e financiamento que à mídia golpista fiespista não interessa minimamente escarafunchar (sigamos 1964, estúpidos!?). O complexo Ipês/Ibad converte-se, quase caricatural (mas ainda desesperadoramente eficaz), numa garatuja chamada Instituto Millennium, a partir de onde a mídia industrial organiza as fofocas e mentiras que vai dimensionar.

Desta vez, as mulheres – e aí a diferença se faz loquaz – não aparecem fazendo escudo e blindagem para machos afeitos às trevas como Temer, Serra, Skaf, Cunha, Alckmin etc. Não. Desta vez é diferente.

O tropel de quase todos homens se move, desta vez, para demover do poder de facto (como diria o chefe ou vice-chefe ou vice-vice-chefe da conspiração) uma mulher. Desta vez, além de ser mulher, ela é direta e democraticamente eleita, como não havia sido o velho Jango. Eleita por brasileira(o)s em processo legítimo, Dilma Rousseff é protagonista de 2016 como as mães de família, tradição, propriedade e aparato jurídico nem sequer sonhavam ser em 1964. Mas é protagonista de fato (sem o “c” de conspiração), apesar de negada três mil vezes por homens de direita e por homens de esquerda, por empresários fiespistas e por jornalistas progressistas.

Se passaremos outros 52 anos à espera de um novo À Espera da Verdade, os próximos dias começarão (ou não) a definir. E, ao que tudo indica, a mídia industrial golpista seguirá sem contar essa épica e escabrosa historiona.

 

À Espera da Verdade – Empresários, juristas e elite transnacional – histórias de civis que fizeram a ditadura militar
Autores: Joana Monteleone, Haroldo Ceravolo, Vitor Sion, Felipe Amorim, Rodolfo Machado.
Preço: R$ 49.
Páginas: 302.
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Publicado originalmente pelo site Farofafá.

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