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'Paris — Buenos Aires, intelectuais no Monde Diplomatique'

Entrevista com a jornalista e historiadora Juliana Sayuri sobre livro que investiga passagem de pensadores pela redação do veículo de imprensa francês

No livro “Paris - Buenos Aires: Intelectuais no Monde Diplomatique”, a jornalista e historiadora Juliana Sayuri apresenta um estudo da trajetória de intelectuais que passaram pelo periódico Le Monde Diplomatique. O órgão de imprensa surgiu em Paris, no ano de 1954, em seus mais de 60 anos, o periódico assumiu perspectivas políticas bastante definidas com críticas ao colonialismo, ao imperialismo e ao neoliberalismo. A visão alternativa do veículo é tida como um reflexo da passagem de pensadores de diversas nacionalidades. Juliana Sayuri indaga sobre as funções dos intelectuais e dos jornalistas na criação de conteúdo, informação e crítica através da divulgação de suas ideias na imprensa. Colocando em pauta questões éticas e políticas, espírito crítico e independência de ideias, bem como o poder da imprensa, e os limites da objetividade e da imparcialidade. 

Confira nossa entrevista completa com a autora:

Painel Acadêmico: Para começarmos, de onde surgiu sua ideia de investigar a trajetória dos intelectuais que passaram pelo Le Monde Diplomatique?

Juliana: Há dez anos (2008-2018) pesquiso o periódico francês. No mestrado na USP, pesquisei a consolidação da edição de Le Monde Diplomatique no Brasil. No doutorado, também na USP, busquei analisar as articulações de Le Monde Diplomatique na América Latina, tendo como ponto de partida a edição empreendida na Argentina. No pós-doutorado na UFSC, investigo a perspectiva dos intelectuais franceses de Le Monde Diplomatique acerca do Oriente Médio. Isso porque Le Monde Diplomatique desperta diversas discussões sobre o papel dos intelectuais e suas intervenções no tempo presente. Entre seus autores estão intelectuais de diferentes horizontes teóricos e diferentes sensibilidades à esquerda, de Pierre Bourdieu a Eric Hobsbawm, de Edward Said a Jacques Derrida, de Antonio Negri a Jürgen Habermas, entre muitos outros. Além de acadêmicos renomados, a redação francesa de Le Monde Diplomatique é/foi composta por profissionais que desempenham o papel de jornalistas e intelectuais --por exemplo, Ignacio Ramonet, Bernard Cassen, Alain Gresh, Dominique Vidal, Serge Halimi. Assim, a ideia de investigar a trajetória do periódico foi motivada pela diversidade temática de interesse internacional, pela densidade analítica e crítica de Le Monde Diplomatique. 

Painel: Você acredita que possa ou, ainda, que deva existir imparcialidade ideológica na mídia? Por que?

Juliana: Não há neutralidade na mídia, nem à direita nem à esquerda (muito embora ambos os lados reivindiquem para si o papel de baluarte da informação "imparcial"). É impossível alcançar ideais inatingíveis de imparcialidade, isenção ou neutralidade, pois jornalismo é feito por jornalistas, que têm seus próprios interesses e posições políticas, culturas e crenças. Não importa se estamos tratando do Monde Diplomatique, do New York Times ou da Economist, jornalismo é feito por jornalistas --e jornalista nenhum é paladino da palavra final, de uma "verdade" nua e crua sem "manipulação midiática". Mais do que apontar acriticamente que um veículo de direita "manipula" e um veículo de esquerda não, interessa investigar a fundo as características de cada produção midiática: seu contexto histórico, seus interesses, suas linhas editoriais e posições políticas. Assim, não é surpresa que Le Monde Diplomatique também tenha interesses, linha editorial e posição política. Em tempo, porém: o fato de ser impossível alcançar imparcialidade ou isenção não significa carta-branca para a veiculação de informações inventadas ou sabidamente incorretas. Veículos à direita e à esquerda editam, erram e, infelizmente, às vezes mentem. Cabe aos analistas o olhar crítico a respeito da mídia que se pretende pesquisar --e cabe aos jornalistas a autocrítica de seu próprio ofício.

Painel: Qual a importância de ter os maiores intelectuais de uma geração escrevendo periodicamente em veículos de imprensa? 

Juliana: Considero intelectuais no quadro de uma longa tradição teórica da história dos intelectuais iniciada na França. Isto é: intelectuais não se definem por uma ocupação, um ofício ou uma titulação acadêmica, mas por suas intervenções na esfera pública acerca das questões relevantes. Assim, considero essenciais as intervenções de intelectuais em veículos de imprensa --e Le Monde Diplomatique é um ótimo exemplo para pensar esse papel. Para pensar especialmente o caso do Diplô, gosto de lembrar as palavras de Marx: "Os filósofos apenas interpretaram o mundo de diferentes maneiras; a questão, porém, é transformá-lo", como resgata Eric Hobsbawm nas próprias páginas de Le Monde Diplomatique. 

Livro:  Paris — Buenos Aires Intelectuais no Monde Diplomatique (1999- 2011)

Autora: Juliana Sayuri 

Edição: Alameda (tel. 11 3862-0850)

Preço e número de páginas: 74,00 (350págs.)

ISBN:  978-85-7939-494-2

Formato: 16x23cm

Sobre a autora: Juliana Sayuri é jornalista e historiadora. Doutora em História Social pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (FFLCH-USP), com temporada de pesquisa na École des Hautes Études en Sciences Sociales (EHESS), em Paris. Foi visiting scholar na Columbia University, em Nova York. É autora de Diplô: Paris – Porto Alegre (Com-Arte), finalista do Prêmio Jabuti de 2017. 

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