EDUCAÇÃO

As novas 'mães da escola pública'

A escola pública está se transformando desde as ocupações dos estudantes. Novos estudantes, novas e velhas demandas

A crise econômica tem levado muitas famílias da classe média a colocar seus filhos nas escola pública. Esse movimento é muito interessante e pode trazer mudanças muito importantes na relação dessas famílias com o Estado. Mas há quem resista a ele, como se fosse ilegítimo e como se os novos estudantes estivessem ocupando um lugar que não lhes pertence.

Agência Brasil

Nessa reação, é frequente a crítica à participação das "mães de classe média" nas discussões sobre os rumos das escolas em que estão seus filhos. Um texto que circula por aí chama inclusive de "frescura" algumas das demandas das "mães", que teriam ocupado "conselhos de escolas" e "se apropriado do discurso de 'escola pública para todos'".

Então vamos lá: conheço várias "mães" (e pais) que não caíram na escola pública por falta de grana. Foi uma opção política, assim como foi uma opção política participar dos conselhos e fóruns das escolas. Colaborou muito nesse processo a força do movimento dos secundaristas em 2015 e 2016, mostrando uma escola pública viva, ativa e questionadora.

Ainda que a questão principal seja a falta de dinheiro, ela só mostra que a classe média também é formada por trabalhadores que não estão imunes às oscilações econômicas do país. Nesse sentido, a escola pública pode ser um espaço formador politicamente para crianças e pais e mães, pois aproxima faixas diferentes de uma mesma classe social, a dos trabalhadores, que passam a ter um interesse comum muito claro: a qualidade do serviço público.

Mas vamos a algumas das questões que foram classificadas como "frescura": a criança tem alergia alimentar ou ainda mama. É frescura pedir uma dieta diferenciada? Ou a administração do leite materno? A mãe não quer apressar o dresfralde segundo recomendação de pediatras ou psicólogos: é frescura da mãe? As mães querem acompanhar a adaptação na escola e não deixar o filho com um desconhecido no portão: frescura? privilégio? As mães querem saber em que escola o filho vai estudar ANTES de começarem as aulas: também é frescura? As mães querem uniformes melhores e que os filhos não fiquem jogados no pátio ou na sala porque três professores faltaram aquele dia: certamente isso é frescura!

As mães querem banheiros limpos, com assentos e tampas, papel higiênico e portas que fecham: privilégio! As mães querem laboratórios que funcionem e que tenham professores. E bibliotecas circulantes, e bibliotecários nas escolas: frescura completa!!!

As mães querem período integral. Insano... As mães querem mais professores e menos alunos em sala de aula. Porque ninguém quer um professor estressado e mal valorizado. As mães não querem que seus filhos comam ração: mas aí já é demais, frescura demais! As mães querem leite e transporte escolar: que frescas! As mães querem saber o que acontece na escola e querem um diálogo com professores e a direção. São loucas de classe média essas mães... As mães querem tudo isso pra todos: umas comunistas radicais.

Por muitos anos, dizia-se que era importante que a classe média colocasse seus filhos na escola pública. Um senador cujo nome não merece ser lembrado fez um projeto exigindo que os filhos de políticos estudassem apenas na escola pública... "porque é isso o que vai melhorar a escola".

Agora está acontecendo. Mas isso incomoda. Porque as mães cobram direitos que vinham sendo negados de forma naturalizada aos filhos dos trabalhadores que já frequentavam essas escolas.  

Entendo que o cotidiano de professor de escola pública é complicado. Vejo isso no dia a dia da universidade pública. Acredito piamente que os funcionários e professores são em sua maioria comprometidos e engajados no trabalho. Que muitos trabalham em situação precária e que, num ambiente de precariedade, demandas como as descritas acima possam parecer fora do lugar.

Mas velhas formas de fazer podem ser revistas. Novas posturas têm ser colocadas. Questionamentos incomodam, mas podem ser uma força para transformações profundas e democratizantes da escola pública.

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