ESPECIAL ESCOLA PÚBLICA

A EMEF Infante Dom Henrique/Carolina Maria de Jesus reforma ensino para integrar crianças imigrantes

A escola paulistana virou centro de referência após trabalho interdisciplinar desenvolvido com participação dos alunos


(Foto: Reinaldo Canato/UOL)

A escola paulistana EMEF Infante Dom Henrique/ Carolina Maria de Jesus passou por uma reforma para atender a demanda de acolher alunos imigrantes de diversas nacionalidades. O colégio, localizado no bairro do Canindé, na região central da Cidade de São Paulo, carregava um histórico de violência e indisciplina. A fim de resolver esta questão, o diretor Claudio Neto implementou um projeto chamado “Valores que não tem preço” contando com o protagonismo dos alunos em votações de novas normas em parceria com os professores e direção. 

GT Escola Integrada

A gestão democrática do colégio não poderia deixar de lado uma demanda também crescente de atenção aos alunos imigrantes. Crianças bolivianas, sírias, angolanas e descendentes de colombianos já somavam 94 de um total de 470 estudantes. As tensões e comentários xenofóbicos começaram a surgir e foram percebidos pela professora de história, Roseli M. Honório, como relata em vídeo do Projeto SEI (Sistemas Educacionais Inovadores). 


(Vídeo: Projeto SEI: Sistemas Educacionais Inovadores/Reprodução)
 

A partir desse momento, foram iniciadas atividades interdisciplinares relacionadas aos temas da imigração e do trabalho escravo.  Após o desenvolvimento desse trabalho, a escola foi convidada pela UNESCO (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura) a integrar uma rede de escolas associadas na promoção de direitos humanos.  

O empenho na inclusão dos alunos estrangeiros rendeu ainda uma indicação ao Prêmio Faz Diferença, uma iniciativa do GLOBO em parceria com a Firjan (Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro), na categoria Sociedade/Educação. A EMEF concorre com outros dois trabalhos em votação aberta ao público em geral. 

Si, yo te entiendo

Partindo de uma iniciativa dos alunos de origem hispânica, que percebiam a dificuldade de incluir os colegas brasileiros nas conversas em suas línguas nativas, surgiu o projeto “Si, yo te entiendo”.

"Foram as meninas que me procuraram para falar sobre essa idéia" declarou o diretor Claudio Neto.

A alunas se prontificaram a dar aulas para todas as turmas do colégio e as ensaiavam antes com uma professora orientadora. Pra elas, era injusto que seus colegas não compreendessem suas conversas, enquanto elas podiam aprender o portugês. Nas aulas,  focavam em disseminar aspectos culturais de suas nacionalidades, utilizando instrumentos como a música para atrair o interesse dos colegas.

A mudança no nome


(Foto: Instituto Geledés/Reprodução)

“Escrevo a miséria e a vida infausta dos favelados. Eu era revoltada, não acreditava em ninguém. Odiava os políticos e os patrões, porque o meu sonho era escrever e o pobre não pode ter ideal nobre. Eu sabia que ia angariar inimigos, porque ninguém está habituado a esse tipo de literatura. Seja o que Deus quiser. Eu escrevi a realidade.” 

Carolina Maria de Jesus foi escritora negra que residiu durante boa parte de sua vida no bairro do Canindé, local onde se encontra a escola e de onde são narradas as histórias de sua principal publicação, o Quarto de Despejo: o diário de uma favelada. A atualmente chamada EMEF Infante Dom Henrique luta mudar o nome para da escola em homenagem à poetisa.  E assim, carregar seu legado e ampliar a relação da escola com história do bairro ao qual pertence. 

Não é mero capricho. A comunidade escolar passou a reivindicar a adoção de novo nome, escolhido através de uma votação organizada no colégio, não apenas para homenagear a escritora, mas também para corrigir um erro histórico. O nome que carrega, Infante Dom Henrique, é de um navegador que foi pioneiro na exploração e tráfico de negros escravizados, durante o período dos Descobrimentos. 

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