ENTREVISTA | JULIANA CUNHA

Kazuo Ishiguro faz “investigações profundas sobre nosso papel no mundo”, diz pesquisadora

Juliana Cunha fala ao Painel Acadêmico sobre do escritor britânico Kazuo Ishiguro, ganhador do Nobel de Literatura

Nesta quinta-feira (05/10), a Academia Sueca anunciou o ganhador do Prêmio Nobel de Literatura, Kazuo Ishiguro, de 62 anos. Nascido no Japão, Ishiguro tem nacionalidade britânica e escreve em inglês. É autor de sete romances e uma coletânea de contos. Suas obras mais famosas são Não me abandones jamais e Vestígios de um dia, adaptadas para o cinema em 2010 e 1993, respectivamente.

O anúncio do ganhador do Nobel de Literatura desse ano era aguardado, principalmente devido à ousada escolha da edição anterior, em que o cantor e compositor Bob Dylan foi laureado.

Apesar de ser bastante conhecido no cenário internacional, Ishiguro não era um dos favoritos das apostas. A Academia Sueca tem recebido críticas nos últimos anos pela falta de diversidade no rol de ganhadores, que são em sua maioria homens do continente europeu. Entre os favoritos ao prêmio estavam o japonês Haruki Murakami e o queniano Ngugi wa Thiong'o.

A escolha de um escritor britânico com nome e origem japonesa – Ishiguro nasceu em Nagazaki e se mudou para o Reino Unido aos 5 anos de idade – foi vista como uma tentativa de diversificar a lista de ganhadores.

O Painel Acadêmico entrevistou Juliana Cunha, jornalista e mestranda do departamento de Teoria Literária da USP (Universidade de São Paulo), que se dedica a estudar a obra de Kazuo Ishiguro. “A informação de que ele nasceu no Japão figura em quase todas as resenhas de estreia, uma insistência parcialmente justificada pelo fato de seus dois primeiros livros terem narradores japoneses e serem largamente ambientados naquele país”, explica a pesquisadora. “No Brasil, as fichas catalográficas de todos os seus livros publicados até hoje trazem gafes como classificá-lo como um ‘escritor japonês’.” 

Confira abaixo a entrevista com a pesquisadora:

Painel Acadêmico: Kazuo Ishiguro é um escritor pouco conhecido no Brasil, apesar de ter sido publicado por grandes editoras como Companhia das Letras e Rocco. Qual de seus títulos você recomendaria para quem não conhece seu trabalho?

Juliana Cunha - Acho que Ishiguro é relativamente conhecido aqui no Brasil sobretudo por conta das adaptações cinematográficas de Os Vestígios do Dia e de Não Me Abandone Jamais, feitas em 1993 e em 2010, ambas com atores famosos, estreia no circuito comercial brasileiro e transmissão pela televisão. O filme Vestígios do Dia, estrelado por Anthony Hopkins e Emma Thompson, foi indicado a oito Oscars, incluindo o de melhor roteiro adaptado, que perdeu para A Lista de Schindler (Steven Spielberg, 1993).

Fora isso, já havia algum interesse pelo autor, ainda que não fosse nada como um fenômeno Elena Ferrante. Seu livro mais recente, O Gigante Enterrado, teve tiragem de 22 mil cópias até o momento, uma quantidade bastante considerável para o mercado editorial brasileiro.

A obra-prima de Ishiguro sem dúvidas é Os Vestígios do Dia. Pessoalmente, eu considero Não Me Abandone Jamais tão bom quanto, são os dois livros dele que indico para quem ainda não o conhece.

Qual a importância do ganhador do prêmio mais relevante do mercado ser um imigrante nipobritânico? Essa origem influencia seu trabalho de alguma forma?

A questão da sua nacionalidade permeia boa parte da recepção inicial da obra de Ishiguro. A informação de que ele nasceu no Japão figura em quase todas as resenhas de estreia, uma insistência parcialmente justificada pelo fato de seus dois primeiros livros terem narradores japoneses e serem largamente ambientados naquele país. No Brasil, as fichas catalográficas de todos os seus livros publicados até hoje trazem gafes como classificá-lo como um "escritor japonês", ou ao próprio livro como um "romance japonês" ou, talvez a melhor de todas, como "literatura japonesa em inglês". O próprio autor atribui parte de sua repercussão inicial ao fato de ter "uma cara japonesa e um nome japonês" em um momento em que havia interesse por uma literatura de cunho multicultural e em que a crítica britânica buscava ativamente por "um novo Salman Rushdie" — ou seja, por um novo escritor britânico de origem estrangeira que escrevesse sobre sua terra natal, fornecendo material para a crítica multiculturalista em voga na época.

De sua parte, Ishiguro sempre buscou minimizar a influência japonesa tanto em sua formação quanto em sua literatura e situa sua obra como a de um "escritor internacional". Como romancista, diz ele, o que lhe interessa são temas universais. De fato, os romances de Ishiguro pouco ou nada ressoam da tradição narrativa nipônica. Mesmo Uma Pálida Visão dos Montes eUm Artista do Mundo Flutuante, que têm narradores japoneses, são livros fortemente baseados em enredo e em personagens individualizadas e tridimensionais. Mesmo assim, me parece exagerada e contraproducente a forma como relacionar o trabalho do autor a qualquer aspecto da cultura japonesa (exceto ao cinema) se tornou uma espécie de gafe acadêmica, e todo livro sobre Kazuo Ishiguro dedica algumas páginas a desdenhar de críticos e resenhistas que enveredaram por esse caminho.

Segundo Sara Danius, Secretária Permanente da Academia Sueca, Ishiguro demonstra interesse pelo tema da memória e da passagem do tempo. Qual o apelo dessas temáticas para o leitor em 2017?

Acho que são temas de interesse constante, sempre repostos. Um tema importante para ele e que acho que fala especialmente ao leitor atual é sobre um certo desconforto em estar do lado errado da história, como disse lindamente o crítico indiano Amit Chaudhuri. Muitos de seus personagens, a exemplo de Stevens, de Os Vestígios do Dia, precisam lidar com o fato de que, diante de momentos decisivos, não tiveram uma postura condizente. O personagem mais importante de Ishiguro é um mordomo que se sente culpado por ter servido a um lorde nazista durante a guerra. Quer dizer, são livros que falam muito sobre a responsabilidade individual, sobre a ética. Nem de longe são livros de tese ou panfletários, mas investigações profundas sobre o nosso papel no mundo. 

 

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