MEMÓRIA

Darcy Ribeiro é lembrado como revolucionário em homenagem na USP

Darcy almejava erradicar o analfabetismo, multiplicar o número de universitários, além de criar o ensino em tempo integral e a dedicação exclusiva para docente universitário

Homenagem realizada nesta (12) ao mineiro Darcy Ribeiro na Faculdade de Direito da USP (Universidade de São Paulo) reuniu estudiosos e amigos do antropólogo e escritor, que viveu entre 1922 e 1997. O intelectual é visto como revolucionário nas áreas em que atuou, entre elas antropologia, educação e causa indígena e neste ano são lembrados os 20 anos de sua morte

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A cineasta Isa Grinspum Ferroz, que produziu os documentários O Povo BrasileiroO Valor do Amanhã e Intérpretes do Brasil, lembra que trabalhou com Darcy por mais de uma década. “Ele era brilhante, inquieto, engraçado, provocativo. Foi revolucionário nas várias áreas em que atuou, apesar de ter sido 'assassinado' várias vezes em vida. Pela ditadura, pela academia, pelo status quo”, disse.

Isa teve a oportunidade de ler originais de O Povo Brasileiro, antes do lançamento. “Fiquei encantada”, lembra. Na série de documentários Intérpretes do Brasil, a cineasta retrata como nasceu a obra, com gravações na cidade de Maricá, Rio de Janeiro, onde vivia o antropólogo. “Ele estava doente, mas eu falei que era para as escolas. Então, ele fez um esforço enorme. Levei a câmera a Maricá e filmei por quatro dias. Um processo muito sofrido, ele estava já muito doente”, disse.

A jornalista Rosa Freire d'Aguiar, presente à homenagem, disse ter conhecido Darcy no final dos anos 70, já que era esposa do economista Celso Furtado, grande amigo de Darcy. Os dois atuaram juntos na criação da UnB (Universidade de Brasília), no início dos anos 60. “Celso sugeriu criar uma universidade nos moldes europeus, errou o alvo. Darcy queria contribuir para formar o país novo, em formação, num processo revolucionário”, lembra Rosa.

No governo João Goulart, Darcy aceitou o cargo de ministro da Educação e Celso assumiu o Ministério do Planejamento. Segundo Rosa, seu marido se dedicou à elaboração do plano econômico e social do país, com objetivo de superar o quadro de subdesenvolvimento, e pediu sugestões aos ministros das outras áreas.

Darcy, lembra ela, entregou diretrizes e metas mínimas que superavam muito os recursos máximos estipulados por Celso. Num país com 40% de analfabetos adultos, Darcy almejava erradicar o analfabetismo em três anos e multiplicar por cinco o número de universitários num prazo de dois anos, além de criar o ensino em tempo integral e a dedicação exclusiva para docente universitário.

“Objetivos irrealistas, mas eram reflexo de todo o vigor do pensamento de Darcy, impregnado do sopro utópico que emanava dos seus sonhos”, avalia Rosa. O plano não seguiu adiante e o antropólogo acabou exonerado do governo. Com o Ato Institucional Número Um (AI-1), Darcy foi viver no exílio nos países da América Latina, como Uruguai, Venezuela, Chile e Peru.

Diagnosticado com tumor no pulmão enquanto estava na França, Darcy pediu ao seu médico mais tempo de vida, conta Rosa. “Estou com um novo livro prontinho na cabeça”, teria dito o antropólogo. Pouco depois, foi publicado, em 1976, o romance intitulado Maíra, história sobre uma tribo indígena fictícia. O tempo de vida foi bem além da publicação do livro: Darcy morreu de câncer, aos 74 anos, no dia 17 de fevereiro de 1997.

 

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