OPINIÃO

A força da escrita de Evanilton Gonçalves

“Evanilton é espectador e agente da cidade, revelando a partir de um olhar filosófico e melancólico as contradições urbanas”

Porque a temperança me acompanha, minha vida, que é ruim, é boa. - Esse é o "pensamento supérfluo nº49", um dos contos do livro "Pensamentos Supérfluos | Coisas que Desaprendi com o Mundo" de Evanilton Gonçalves, publicado esse ano pelo selo baiano Paralelos13. A dialética compreendida nessa curta reflexão permeia o livro como uma espécie de linha guia, pontilhando o mapa da cidade de Salvador por onde o autor transita e de onde extrai a matéria prima de sua literatura. Evanilton é espectador e agente da cidade revelando a partir de um olhar filosófico e melancólico as contradições urbanas, suas vidas expostas, a realidade desigual dilatada pela poesia. Essa Salvador poderia ser São Paulo, poderia ser Belém, poderia ser o Rio de Janeiro.

Em "Pensamentos Supérfluos | Coisas que Desaprendi com o Mundo", Evanilton produz no leitor a sensação de testemunho de uma paisagem social e histórica soteropolitana que se universaliza na medida em que suas contradições são evocadas como reflexos políticos e poéticos da ação humana, do dinheiro ou da falta dele e, sobretudo, do poder em suas mínimas expressões materiais e metafísicas. Evanilton fala das coisas pelo lado de fora para falar das pessoas pelo lado de dentro.

Convidado para a mesa "Páginas Anônimas - A Literatura que o Brasil Faz e Você Desconhece" da 15ª edição da Festa Literária Internacional de Paraty, Evanilton teve seu trabalho apreciado por Conceição Evaristo que afirmou ter se sentido inspirada pelo texto do jovem escritor a produzir seus próprios "pensamentos supérfluos" como uma prática literária viva, lúdica e constante. De fato, o livro de Evanilton tem a pulsação de uma linguagem erigida fundamentalmente no tempo presente, sugerindo o efeito do lapso, do insight, da ruptura de uma reflexão clandestina e fugidia diante as normas sociais do pensamento objetivo. Nesse sentido, a ironia está dada no título do livro e na enumeração dos cinquenta "pensamentos supérfluos" que compõem a primeira parte da obra. As divagações "supérfluas", irrelevantes para o contexto da produtividade material urbana, são verdadeiros atos de resistência poética e filosófica. Evanilton faz caminhada pelas vielas físicas de Salvador e pelos labirintos do devaneio, crítico e quimérico, através dos quais ele é capaz de atribuir sentido à própria condição de escritor, sujeito periférico, universitário, negro, jovem, homem de ficção e de realidade, sem necessariamente lançar mão dos recentes métodos de afirmação do lugar de fala na criação literária que, se por um lado fortalecem o movimento negro, feminista e LGBTT politicamente, por outro muitas vezes  - quanto tomados por fórmula estética - acabam por esvaziar as potencialidades do processo criativo.

A segunda parte do livro, "Coisas que Desaprendi com o Mundo",  é narrada em terceira pessoa como se Evanilton se deslocasse para os bastidores da vida e lançasse sua lente especulativa sobre figuras do cotidiano também marcadas e cindidas por acontecimentos aparentemente normais, mas determinantes para a revelação de um estado crônico de inversões éticas que se tornam para nós leitores questões a serem vislumbradas sob uma perspectiva desnaturalizante.

 No conto "Hospício" Evanilton nos diz:

Ele recebeu antes um olhar de ódio, depois um braço estranho envolveu s eu pescoço. Cada vez mais forte o homem apertava o braço contra o pescoço dele. "Não fará nada?!", indagou o homem perplexo com a indiferença dele. "Não", ele tentou responder. "Por que não se defende?", questionou o pobre homem, com os dentes a ranger. "Porque a vida é ataque, somente ataque, que venha então a morte em minha defesa." (...)

Aquilo que foi desaprendido com o mundo, no final das contas, é o que interessa para que se possa desenhar alternativas simbólicas justas para que esse mesmo mundo possa por si mesmo ser reaprendido, recriado, redimensionado à luz de imaginários nutridos pela justiça social e pela liberdade criativa.

Por fim, é importante mencionar que Evanilton Gonçalves e os demais autores negros e descentralizados regionalmente envolvidos no contexto atual da escrita nacional demarcam os termos de uma urgente mudança do olhar histórico e social sobre nossa cultura literária: a criação negra e periférica produz e evoca sujeitos negros e periféricos como autores - posição essa antes reservada aos setores sociais prevalecidos -, mas além disso produz um contexto de literatura complexo que expande os horizontes estéticos nacionais e se amplifica também como discurso ilimitado, comum de todos, demasiadamente humano porque múltiplo, contraditório e dessemelhante. 

(*) Paloma Franca Amorim é professora de teatro, ilustradora, integrante de núcleos artísticos, colunista do jornal O Liberal e escritora. Recentemente, lançou pela Alameda Editorial o livro 'Eu preferia ter perdido um olho'.

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