CULTURA

Peça vetada pela censura da ditadura ganha leitura dramática

Proibida em 1963, 'Os Caminhos de Deus', de Eudinyr Fraga, faz crítica irônica ao poder e à incoerência da Igreja Católica

Odila é uma menina doente e pobre que recebeu a graça da aparição de Nossa Senhora. A Igreja planeja espalhar a boa-nova com um espetáculo em praça pública. Um grupo de estrangeiros subversivos se esforça para revelar a farsa montada pela Igreja.

E a censura impede que você conheça o resto dessa história.


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Assim aconteceu em 1963 com Os Caminhos de Deus, texto de Eudinyr Fraga que ganha leitura dramática seguida de debate nesta quarta-feira, dia 28, às 19h30, na ECA (Escola de Comunicações e Artes) da USP. O evento é organizado pelo Obcom (Observatório de Comunicação, Liberdade de Expressão e Censura), grupo de pesquisa ligado à ECA. A leitura será realizada pelos estudantes do curso de Artes Cênicas da instituição.

Fraga, que foi estudante e depois diretor da EAD (Escola de Arte Dramática), escreveu Os Caminhos de Deus como trabalho de conclusão do curso de Dramaturgia e Crítica da EAD. Na peça, ele critica, através da ironia, o poder da Igreja Católica e a incoerência do seu discurso.

Foto: Marcos Santos/ USP Imagens

Os originais da peça Os Caminhos de Deus, de Eudinyr Fraga, censurada em 1963

Ao submeter o texto ao Serviço de Censura do Departamento de Diversões Públicas do Estado de São Paulo, em 1963, Fraga teve a exibição de Os Caminhos de Deus vetada. A liberação da montagem aconteceu apenas para o exame da EAD, no qual estiveram presentes os membros da banca e alguns estudantes. Só anos mais tarde a peça foi encenada por Alfredo Mesquita, ator, fundador e primeiro diretor da EAD.

A leitura de Os Caminhos de Deus, 54 anos depois do impedimento, é parte de uma série organizada pelo Obcom dedicada à apresentação de textos vetados encontrados no Arquivo Miroel Silveira. Com 6.137 processos de censura prévia ao teatro, originados do Serviço de Censura do Departamento de Diversões Públicas do Estado de São Paulo, o arquivo possui documentos que vão dos anos 1930 até 1970. Treze obras já fizeram parte da série, incluindo A Semente, de Gianfrancesco Guarnieri, Perdoa-me por me Traíres, de Nelson Rodrigues, e Filha Moça, texto inédito de Augusto Boal.

Foto: Marcos Santos/ USP Imagens

Processo de censura da peça 'Os Caminhos de Deus', vetada em 1963

De acordo com a coordenadora do Obcom, Maria Cristina Castilho Costa, a apresentação dos textos vetados não é apenas um resgate do passado. A reflexão sobre a censura oficial vem para ajudar na compreensão dos cerceamentos que permeiam a sociedade hoje. “Nosso objetivo é discutir a censura, porque ela ainda existe. Não a oficializada, mas a econômica, a das leis de incentivo, da classificação indicativa. Nós queremos promover o debate em torno disso e queremos ver se essas peças ainda fazem sentido hoje.”

Segundo Maria Cristina, o veto aos textos foi responsável por fazer muitas peças caírem no esquecimento. Até os trabalhos autorizados a serem encenados anos mais tarde tiveram de lidar com o comprometimento de sua mensagem e atualidade. “O veto acabava colocando as obras no limbo. Mesmo quando eram liberadas depois de alguns anos, elas ficavam com um estigma, desatualizadas, em outro contexto. Elas são pouco reapresentadas, não fazem parte da história do teatro, não aparecem nas antologias”, explica Maria Cristina.

Compreendendo quatro décadas e passando pelo Estado Novo, a redemocratização e a ditadura civil-militar, a documentação do Arquivo Miroel Silveira é registro das preocupações e tabus dos censores. Conforme aponta Maria Cristina, a análise das peças vetadas mostra que alguns temas atravessaram décadas e regimes de perseguição.

“Os temas tabus eram subversão, ideário socialista ou comunista, sexualidade, erotismo, temas religiosos e questões raciais”, elenca Maria Cristina. Exemplos da ação da censura são A Mulher Proibida, de Cassandra Rios, que fala de relações homossexuais, A Semente, de Guarnieri, que trata do movimento operário, e Sortilégio, de Abdias do Nascimento, do Teatro Experimental do Negro.

Documentos serão transferidos para o Arquivo do Estado

A leitura dramática desta quarta-feira, dia 28, acontece durante a transferência do Arquivo Miroel Silveira da ECA para o Arquivo do Estado. De acordo com informações do site do Obcom, as peças e os processos vão integrar um projeto sobre a história da censura no Brasil. Os documentos serão digitalizados e disponibilizados via web.

O Arquivo Miroel Silveira é fonte de pesquisas na ECA desde 2001. Sua origem remonta ao próprio Silveira, ex-professor da instituição, que em 1988 recolheu os documentos do Departamento de Diversões Públicas do Estado de São Paulo, destinados à destruição após o fim da censura oficial.

Após a morte do professor, em 1988, as peças e processos foram alocados na biblioteca da ECA, mas só começaram a receber tratamento para consulta em 2000.

A leitura dramática de Os Caminhos de Deus acontece nesta quarta-feira, dia 28 de junho, às 19h30, no auditório Paulo Emílio da ECA (Escola de Comunicações e Artes) da USP (Avenida Professor Lúcio Martins Rodrigues, 443, Cidade Universitária, São Paulo). Após a leitura haverá debate com a professora Maria Cristina Castilho Costa e o diretor do Tusp (Teatro da USP), Ferdinando Martins. O evento é gratuito.

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