ESTUDOS DE GÊNERO

Recheados de estereótipos, sites unem alemães com esposas brasileiras

A busca de alemães por mulheres brasileiras para se casar é mercado para agências on-line especializadas. Com a visão ultrapassada de uma representação de feminilidade, muitos deles acreditam que não podem mais encontrar a companheira ideal na Alemanha, país que tem passado por grandes avanços sociais nas relações de gênero. A antropóloga da USP Thais Henriques Tiriba foi atrás de elementos para compreender este fenômeno contemporâneo. Em seu trajeto, porém, ela acabou percebendo que pode haver um descompasso nas expectativas dos parceiros que se conhecem pelas redes sociais.

Para Thais, se os estrangeiros já carregam representações do paraíso nos Trópicos, os sites as corroboram com a ilusão ao exibir paisagens exóticas, praias, coqueiros e mulheres sorridentes caminhando pela areia. Frases de efeito fazem promessas paradisíacas aos usuários que se propõem a pagar para viverem tais experiências. Questões como “por que devem se casar com mulheres europeias – arrogantes, orgulhosas, que só pensam em independência e carreiras – quando podem viver saudavelmente com uma atraente brasileira que está sempre de bom humor?” figuram nas páginas de abertura. Mais diretos, outros transacionam a brasileira como um produto e propõem que o usuário siga alguns passos para garantir que terá a mulher desejada. O escopo é variado: alguns oferecem relacionamentos estáveis ou casamento; outros são voltados para encontros casuais e até para o chamado “turismo sexual”.


Usuários buscam algo de melhor para suas vidas nestes sites

Em um dos depoimentos coletados durante a pesquisa, um próspero empresário alemão de 42 anos se gabava por ter conquistado tudo na vida material, mas reclamava que lhe faltava a realização pessoal. Por isso tinha o desejo de contrair matrimônio com uma mulher diferente das alemãs. Em sua visão sobre o papel feminino na sociedade, acreditava que ele deveria prover o ganho financeiro enquanto sua esposa deveria se ocupar dos cuidados da casa, das crianças e “de se fazer bonita para o marido”.

Na outra ponta da relação, certa incoerência se mostrava nas características desejadas e postadas pelas mulheres para o homem ideal: ter segurança financeira e caráter forte, ser honesto, educado, fiel e romântico. Em depoimentos, algumas mulheres consideravam os brasileiros machistas e infiéis e acreditavam que se casando com um alemão estariam livres deste padrão. Thais alerta, no entanto, que, além das barreiras culturais e da língua, quem se predispõe a viver um relacionamento como este precisa estar atenta às expectativas do homem estrangeiro, que “espera encontrar na mulher brasileira atributos, comportamentos e papéis que reforcem seus ideais de masculinidade”.

Contradições e expectativas à parte, a pesquisadora afirma que nas relações estabelecidas neste mercado, não havia vítimas nem algozes. Ou seja, cada um queria atender seus interesses particulares. No decorrer de sua pesquisa, ela compreendeu que as pessoas sobre as quais estava falando buscavam, antes de tudo, algo melhor para suas vidas. E concluiu que “mesmo em palcos entrecortados por diferenças e desigualdades sociais e culturais, muitos se encontravam e seguiam a vida juntos”.

A dissertação de mestrado Uma atraente esposa brasileira ou seu dinheiro de volta: uma análise de agências de casamento especializadas em unir mulheres brasileiras a homens alemães foi defendida por Thais Henriques Tiriba sob orientação de Laura Moutinho, do Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social da FFLCH (Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas) da USP. Os dados foram coletados em sites de relacionamentos como o Brazilcupid.com.

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