ARTIGO

Diante da democracia, talvez seja melhor esquecer a matemática

Fetiche pela matematização, que pode ser útil em muitos contextos, mas que também tende muitas vezes a chapar fenômenos complexos e reduzir a multicausalidade dos processos sociais

No próximo semestre letivo, vou oferecer uma disciplina de técnicas de pesquisa em Ciência Política. Para prepará-la, estou voltando a obras de filosofia da ciência, que não abria desde meu doutorado - Popper, Kuhn, Lakatos, Feyerabend. É curioso tentar decifrar, por meio dos sublinhados e das anotações à margem dos livros, o que se passava na mente desse completo estranho, o eu de vinte anos atrás.

Acho essas discussões importantes para tentar combater o positivismo "natural" de quando se começa a produzir conhecimento, mais grave ainda no caso da Ciência Política, cujo mainstream tem uma inegável quedinha por uma epistemologia simplista. E que leva, entre outras coisas, a um fetiche pela matematização, que pode ser útil em muitos contextos, mas que também tende muitas vezes a chapar fenômenos complexos e reduzir a multicausalidade dos processos sociais. É um uso da quantificação que, muitas vezes, trabalha contra o caráter compreensivo da ciência social.

Sua culminância é o "índice", visto como a grande realização científica. Lembro de uma banca da qual participei, há muitos anos. O candidato anunciou que a principal contribuição de seu trabalho era a criação de um novo índice, até então ausente da literatura. O outro avaliador, meu companheiro de banca, disse delicadamente: "Olha, esse índice que você criou na verdade já é conhecido, só que os valores são multiplicados por cem. O nome dele é porcentagem". (Pano rápido.)

O índice é a manobra que permite apreender uma realidade complexa numa escala de números e, a partir daí, abrir caminho para toda a sorte de "recreações matemáticas", como dizia acidamente Pierre Bourdieu. Muitas vezes, como os fenômenos são dificilmente quantificáveis, os índices trabalham com proxies em cima de proxies, a tal ponto que a referência inicial fica completamente diluída. É quase uma homeopatia aplicada à ciência social.

Isso pode gerar resultados muito elegantes, mas que falham num quesito que, a mim pelo menos, parece essencial: ajudar a compreender o mundo à nossa volta. Sempre lembro da nota de rodapé de Anthony Downs, em seu célebre Uma teoria econômica da democracia, dizendo que seu modelo não tinha intenção descritiva, nem normativa. Era simplesmente um modelo positivo, isto é, que funcionasse de acordo com seus próprios pressupostos. Não consigo ver o sentido de uma empreitada assim - fora o fato de que, a despeito do alerta, a obra de Downs foi apropriada pela Ciência Política posterior em chave tanto descritiva quanto normativa.

Voltando à questão dos índices: aqueles que são úteis são particularmente difíceis de produzir. Neles, todas as variáveis relevantes devem estar contempladas. Não adianta chegar a conclusões a partir das variáveis A, B e C, se a variável D, que pode ser determinante em uma quantidade razoável de situações, não é levada em conta. Além disso, as variáveis devem ter pesos que correspondam a seu impacto no resultado final. Eu não posso produzir um índice de preços ao consumidor, por exemplo, que dê pesos iguais ao combustível, aos aluguéis e às tulipas. As variáveis irrelevantes ou redundantes devem ser excluídas da formulação do índice. Além disso, se uma variável é fortemente influenciada por outra, o peso desta última estará sendo duplicado e isto precisa ser controlado. No final, caso todas essas condições tenham sido razoavelmente preenchidas, teremos uma aproximação válida com uma determinada realidade.

Um exemplo de como se produzem estes artefatos e de como eles adquirem influência é o índice de democracia da Freedom House. Trata-se de uma empreitada ideológica; nele, por exemplo, o livre-mercado entra como um dos elementos constitutivos da democracia, mas os direitos sociais ficam à sombra. Os critérios de controle e exclusão das redundâncias, de atribuição de pesos etc. basicamente não são contemplados. Em suma, o que temos é um número produzido de acordo com a metodologia da Freedom House e esse número passa a circular como se fosse um indicador de democracia. Graças à visibilidade que ela consegue (e que não é independente de seu alinhamento ideológico), a imprensa e mesmo parte da academia aceitam esse produto e o usam de forma acrítica.

Lembro de um congresso em que um dos trabalhos apresentados era todo baseado no índice da Freedom House. Diante das múltiplas críticas, a autora regia: "Tá bom, tem muitos problemas. Mas qual outro índice eu posso usar?" Era difícil entender que, diante de um fenômeno complexo como a democracia, talvez o melhor caminho seja desistir de encontrar um índice matemático.

Outro exemplo: a avaliação de periódicos acadêmicos, sobre a qual comentei faz uns meses e que recebeu uma resposta do coordenador da área de Ciência Política na CAPES, prof. André Marenco, que também reproduzi nessa página em benefício do debate. Ele defendeu a avaliação com base na objetividade do índice que a sustentou.

É um ganho inequívoco: uma medida objetiva reduz os vieses e inibe as pressões sobre a classificação (que possui impacto significativo na vida dos cursos de pós-graduação, no futuro dos periódicos e mesmo nas trajetórias dos pesquisadores). No entanto, uma vez que é um construto, não um fragmento intocado do mundo, essa medida deve passar no teste de aderência à realidade à qual remete. Posso querer acabar com as brigas de torcida criando um índice das maiores potências do futebol mundial, mas, por mais objetivo que ele seja, se no final Malawi e Andorra estão à frente de Argentina e Espanha, algo está errado.

Se vamos tentar mensurar algo tão inefável como, por exemplo, a influência de um periódico científico em uma determinada área disciplinar, como a Ciência Política, temos que balizar as nossas tentativas pelo conhecimento prático já estabelecido. Quando o índice faz cair a classificação da revista mais emblemática da área (a RBCS) e ao mesmo tempo coloca em posições de destaque revistas que não são da área (como periódicos de medicina neonatal) ou publicações que nem revistas são (como os anais de um congresso de biomecânica), então ele não está servindo a seus propósitos.

(*) Luis Felipe Miguel é professor titular do Instituto de Ciência Política da UnB (Universidade de Brasília) e coordenador do Demodê (Grupo de Pesquisa sobre Democracia e Desigualdades). Graduado em Ciência Social pela UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina), mestre em Ciência Política pela UnB e doutor em Ciências Sociais pela Unicamp (Universidade Estadual de Campinas), é um dos organizadores do livro Aborto e Democracia.

(**) Este texto foi publicado originalmente no perfil do autor no Facebook. 

Destaques