OPINIÃO

Será que queremos ser iguais aos homens? Sobre feminismo e falocentrismo

O grande barato do feminismo é o acolhimento de mil vozes, é a solidariedade entre mulheres e o exercício da escuta, que situa a fala, mas jamais silencia ou cerceia

Não resisti: li os comentários no caso do menino que teve "eu sou ladrão e vacilão" tatuado na testa, ao supostamente tentar roubar uma bicicleta. Eram comentários sádicos, de quem quer ver sangue. Assim foi a atuação da polícia ontem ao jogar bombas em pessoas vulneráveis na Cracolândia: sangue nos olhos.

Quando vejo esse mesmo sangue nos olhos de gente que diz defender a liberdade e a equidade em chave feminista, eu penso que a chama da maldade tem um alcance muito mais capilar do que as instituições: as palavras podem ser tão violentas quanto os cacetetes. Os silenciamentos podem ser perniciosos, munidos com o mesmo sadismo dos opressores. No fulcro das arbitrariedades que circulam através da palavra está o poder: aquele falo gigante que se exalta imponente sobre um microfone, sobre um palanque, que se não for cuidadoso, flexível e polifônico, acaba seguindo a mesma linha de raciocínio do braço que segura o cacetete. O mastro silenciador, que dá voz em detrimento de outras, abafa as vozes dissonantes. O silenciamento é uma violência potencializada de quem tem o poder de eleger quem fala e quem se cala.

Foto: Creative Commons

Em poucas situações são as mulheres as agentes da violência

O poder tem um mecanismo próprio, uma lógica que se infiltra nas entranhas, que se dissemina nos pequenos e nos grandes gestos. Kafka foi o autor que melhor demonstrou a maquinaria do poder em "O Processo": começa nos primeiros guardiões da palavra, aqueles que decidem quem entra e quem fica de fora. Passamos pelo crivo de vários guardiões da palavra, um corredor escuro cheio de portas que nos conduzem a outros corredores escuros cheios de portas. Quando os pequenos guardiões da palavra enchem a boca pra dizer quem fala ou quem deve se calar, é daquele micro-falo que se trata. É como um micro-pinto esfregado na cara daquele que elegem para cercear. Desde que as feministas leram Freud e Lacan, esse mecanismo passou a se chamar de falocentrismo. O poder que silencia, que se impõe sobre os demais, que hierarquiza, que esmaga, machuca e mata. 

Como perguntou Angela Davis, em tom provocativo: "Por que nós feministas queremos agir iguais aos homens? Por que mulheres negras e latinas querem agir iguais às brancas?" O grande barato do feminismo é o acolhimento de mil vozes, é a solidariedade entre mulheres e o exercício da escuta, que situa a fala mas jamais silencia ou cerceia. Não é o poder falocêntrico igual ao dos homens o que almejamos, não queremos inverter papéis de gênero. Antes, é pela força dos nossos devires plurais, pela roda que se abre, que envolve braços, corações: um sincero amor pelas mulheres, a filogenia, para abrir caminhos para que as mulheres sigam seu caminho sem medo, que possam fazer uso da palavra e ser escutadas, por mais diversas que sejam. Polifonia, que se multipliquem em miríade os meios tons. 

Em poucas situações são as mulheres as agentes da violência. Quem, senão as mulheres, pode articular a não violência, desmantelar as estruturas do falocentrismo? Desde o feminismo da segunda onda, dizemos que o pessoal é político. Se queremos mudar o mundo, precisamos desfazer o poder nas suas minúcias, nas capilaridades que nos atravessam. Se queremos mudar o mundo, temos que começar por nós mesmas.

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