LITERATURA INFANTIL

‘Pode abrir precedente muito sério para outros’, diz autor de livro recolhido pelo MEC

Ministério da Educação anunciou recolhimento de obra com conto inspirado em histórias populares que aborda o incesto; autor do livro, José Mauro Brandt diz que cultura está sendo negada

José Mauro Brandt, autor do livro “Enquanto o sono não vem”, afirmou que o Brasil atravessa uma “crise de inteligência” após o MEC (Ministério da Educação) anunciar que 93 mil exemplares da obra, distribuídos para alunos dos três primeiros anos do ensino fundamental, serão recolhidos de escolas públicas de todo país.

“Eu acho lamentável. Só posso achar lamentável esta discussão ter ficado tão superficial e ter chegado a este resultado. Pode abrir um precedente muito sério para qualquer outro livro”, afirmou.

Um dos contos que compõem o livro, “A triste história de Eredegalda” é o que motivou a recolha. Na história, uma princesa é assediada por seu próprio pai, o qual sugere que ela se case com ele. Ao se negar, ela é castigada, presa em uma torre e, privada de água, acaba morrendo de sede.

“A gente está lendo no país? Por que hoje em dia isto está acontecendo? Esta é a discussão”, afirma. “Vivemos uma crise de inteligência. A gente sabe que há um abismo e que tem lugares que precisam de capacitação. Um juiz fala o que a criança vai sentir? Temos que discutir se vamos começar a judicializar o que se conta para a criança”, completa.

“Enquanto o sono não vem” faz parte de uma coleção com nove outros títulos, chamada “E quem quiser que conte outra”, que reúne ‘recontos’ de histórias populares. Segundo explicação presente na própria obra, histórias sobre princesas assediadas pelo pai são contadas em vários lugares do país com nomes diferentes, como “Silvaninha”, “Valdomira” e “Faustina”.

No caso de “A triste história de Eredegalda”, o conto é inspirado em uma versão ouvida em Barbacena, Minas Gerais.

Foto: Divulgação

Livro traz explicação sobre origem do conto questionado, que foi inspirado em histórias populares

“Fiquei chocado, sou um artista tão amoroso e trabalho com isso a tanto tempo. Estou recebendo muito apoio de pessoas da área que conhecem meu trabalho. É muito louco isso, que não se ouça as pessoas que tem ciência sobre o assunto” disse o autor do livro.

Para Brandt, as reações ao conto pela temática abordada, que já incluíram inclusive ameaças de morte contra ele, revelam a necessidade de melhor capacitação dos professores e de mais atenção com as políticas de leitura do país.

“Faz 25 anos que eu sou contador de história. Não tenho medo de abordar estes assuntos. Eu não inventei essa história. Quando ela é negada, é a cultura popular que está sendo negada. Ao invés de ser entendida, é limada. Parte dos professores não tem capacidade de trabalhar com ela e a enxergam deturpada”, destacou.

Entenda o caso

Em decisão anunciada nesta quinta-feira (8/8), o ministro da Educação, Mendonça Filho, determinou o recolhimento dos 93 mil exemplares do livro “Enquanto o sono não vem” (Editora Rocco, 2003) distribuídos para alunos do primeiro, segundo e terceiros ano do ensino fundamental de escolas públicas por meio do Pnaic (Programa de Alfabetização na Idade Certa).

Segundo o MEC, a medida atende segue parecer técnico da SEB (Secretaria de Educação Básica) do Ministério, que considerou o livro inadequado para crianças de sete a oito anos pela abordagem do tema incesto.  De acordo com a avaliação, os textos não devem ser apenas adequados às competências linguísticas do estudante, mas também à sua experiência de vida e aos sentidos que a obra vai produzir no leitor.

“As crianças no ciclo de alfabetização, por serem leitores em formação e com vivências limitadas, ainda não adquiriram autonomia, maturidade e senso crítico para problematizar determinados temas com alta densidade, como é o caso da história em questão”, diz o parecer da SEB.

Em razão do conto que aborda o incesto, os livros já haviam sido recolhidos, desde meados de maio, das escolas municipais das cidades de Vitória, Serra e Cariacica, todas no estado do Espírito Santo. A determinação de recolhimento, nestes casos, foi das prefeituras locais.

A obra foi distribuída nas escolas públicas via Pnaic, que selecionou, em novembro de 2014, 210 títulos. Os livros foram avaliados pela equipe de especialistas do Ceale (Centro de Alfabetização, Leitura e Escrita), ligado à Faculdade de Educação da UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais).

Segundo o MEC, por conta do redesenho do Pnaic em 2016 e com base nos pareceres do Ceale, o Ministério comprou 19 milhões exemplares dos livros selecionados para os distribuir em escolas de todo país. Do total, 93 mil unidades foram a obra “Enquanto o sono não vem”.

No início do mês, o Ceale-UFMG enviou uma nota técnica sobre o livro ao MEC, na qual defende a escolha da obra e afirma que o conto “A triste história de Eredegalda” aborda, mas não faz apologia incesto.

“Não é o tema que aborda, mas a maneira como o faz que deve ser considerado pelo leitor. Nesse sentido, é importante lembrar que temas como estupro, pedofilia, fratricídios, violência, alcoolismo, sequestro e incesto, por exemplo, estão tematicamente presentes até na Bíblia”, diz o texto.

No parecer, o Ceale explica que o incesto não se consuma no conto e que a história revela, ao final, o drama da princesa, que poderia ter sido vítima da prática.

“É preciso entender que um dos efeitos do texto literário sobre os leitores é o que desde os gregos antigos se chama de catarse. Trata-se de um fenômeno peculiar que hoje se diria de transferência psicológica, isto é, a leitura de uma cena violenta serve para purgar o impulso de violência. Dizendo com outras palavras, todo ser humano possui raiva, medo, angústia, inveja e outros tantos sentimentos tidos como negativos ao lado dos positivos. Ao vê-los representados no texto, o leitor os vivencia vicariamente, ou seja, por empréstimo, e assim também se liberta deles. É porque o leitor vivencia esses sentimentos negativos nos livros, nos filmes, nas telenovelas que não precisa trazê-los para a vida real”, diz outro trecho da nota, que pode ser lida na íntegra neste link.

Segundo o MEC, após serem recolhidas, as publicações serão redistribuídas para bibliotecas públicas de todo país. O Ministério afirmou ainda que está revendo todo o processo de seleção dos livros didáticos e paradidáticos. 

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