SÃO PAULO

Repressão não resolverá problemas da Cracolândia, explica pesquisador

Ação na semana passada gerou conflitos entre policiais e usuários; segundo especialista, autoridades desperdiçam tempo e recursos com pessoas de menor grau de periculosidade e não conseguem chegar aos chefes das organizações criminosas

Pesquisador do NEV (Núcleo de Estudos da Violência) da USP (Universidade de São Paulo), André Zanetic entende que a repressão não resolverá os problemas relacionados à região da Cracolândia, na capital paulista. “É usada uma prática repressiva com uma população que não tem praticamente como se defender”, afirmou em entrevista concedida à Agência Brasil.

Na semana passada, a Cracolândia foi notícia em diversos veículos da imprensa após ação policial que terminou com uso de bombas de gás lacrimogêneo, agressão com cassetetes e duas pessoas detidas.

As imagens registraram conflitos entre usuários de drogas, policiais militares e guardas-civis, e que também mostraram pessoas armadas e traficantes.  O governador paulista Geraldo Alckmin e o prefeito João Doria disseram que o problema na região vai acabar, mas não anunciaram as ações que serão tomadas.

Segundo o pesquisador, existe um foco bastante marcado e equivocado que se repete sempre que se utiliza a ação repressiva. Zanetic diz que a atenção do estado e da sociedade se volta para a questão do tráfico e não para a recuperação e tratamento dos usuários de drogas que vivem na região.

“A solução dessa questão não é uma solução que pode se dar de uma forma imediata: vai lá a polícia, vai lá um grupo, mesmo uma ação social, e vai resolver. Não vai. Tem que se entender que é uma ação de médio e longo prazo”, disse sobre uma solução do ponto de vista da assistência social. O programa municipal De Braços Abertos, lançado durante a gestão do ex-prefeito Fernando Haddad e que é baseado em redução de danos e integração de usuários em frentes de trabalho, foi a estratégia que teve mais êxito até o momento na região, na avaliação de Zanetic.

Sobre as declarações feitas pelos governantes, o pesquisador disse que a preocupação não deve ser o esvaziamento da região por meio de ações pontuais. “A polícia vai lá, faz umas operações, consegue esvaziar um pouco a área, porque essa na verdade é a principal preocupação. Esses dias foi divulgado pelo governador, pelo prefeito, de que vai ser resolvido [o problema], vai ser esvaziado [o local], e na verdade não vai. Se você tiver só a ação repressiva, você vai tirar as pessoas por um tempo e daqui a uma semana já voltou tudo como era”, avaliou.

Solução

Para o pesquisador, o único foco que faz sentido na solução dos problemas da Cracolândia é baseado na ação preventiva, na assistência social e no tratamento dos usuários de drogas. “A primeira coisa é que você tem que ter um investimento muito maior em assistência social. Não vai ser possível com o nível de investimento e de ação de assistência social e assistência psicológica que a gente tem hoje. Precisa aumentar muito isso”, disse.

Zanetic acredita que é preciso mudar a ação da polícia, investindo mais na inteligência e na captura dos grandes responsáveis pelo tráfico. “A parte de investigação é muito frágil em termos de inteligência. Você fica o tempo todo tratando de descobrir, de conseguir fazer aprisionamentos de pessoas que tem um grau muito pequeno de periculosidade ou que nem oferecem risco – na verdade, acabam só ampliando essa massa do sistema penitenciário –, em vez de você fazer operações que realmente conseguissem apreender pessoas que são mandantes de organizações criminosas relacionadas ao tráfico”.

Para o pesquisador, muitas vezes, as ações de repressão acabam atropelando os projetos sociais que estão sendo colocados em prática na região, porque acaba se perdendo o vínculo com os usuários, pois eles ficam assustados com algumas ações violentas que ocorrem contra muitos deles.

Outro lado

Procurada pela Agência Brasil, a prefeitura de São Paulo respondeu, em nota, que o Projeto Redenção está em fase de conclusão e começará a ser implementado até o final de junho, com o objetivo de que a região passe por uma grande transformação social. “O projeto tem como eixo fundamental o acolhimento e tratamento de dependentes químicos. O conceito básico é primeiro dar abrigo aos dependentes fora da região. O programa inclui também ações nas áreas de assistência social, zeladoria, segurança pública, com apoio à polícia no combate ao tráfico, e intervenções urbanísticas na região”, diz a nota.

A Secretaria de Segurança Pública disse, em nota, que a Polícia Militar reforçou o policiamento na Nova Luz, região conhecida como Cracolândia, com equipes da Companhia de Ações Especiais, Força Tática, além dos 150 PMs destacados diariamente para atuar na região. “A PM continua atuando em conjunto com a GCM [Guarda Civil Municipal] para apoiar a atuação de equipes de assistência social do estado e da prefeitura, que planejam ações para o completo esvaziamento da Cracolândia”, diz a nota.

Segundo a secretaria, a Polícia Civil faz o trabalho investigativo e de inteligência na busca por grandes traficantes que atuam no estado e que são responsáveis por abastecer a região.

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