EUROPA

Nas eleições francesas deste domingo, o futuro em jogo

Marine Le Pen não deverá ganhar as eleições desse domingo mas ela e seu partido podem se transformar na grande força de oposição ao governo do jovem Macron

Nesse domingo, dia 7 de maio de 2017, os franceses retornam às urnas para escolher, entre a candidata ultradireitista Marine Le Pen do Front National e o centrista Emmanuel Macron do En Marche!, o nome do futuro presidente que dirigirá a França nos próximos cinco anos.

Essas duas ultimas semanas, que separaram o primeiro do segundo turno das eleições, os dois candidatos atravessaram o país numa caçada desenfreada pelos votos dos eleitores que votaram à direita e à esquerda no primeiro turno. Se, por um lado, o candidato da direita François Fillon, do Les Republicains, e o candidato do Partido Socialista, do atual presidente François Hollande, Hammon Benoît, declararam apoio incondicional à Emmanuel Macron no segundo turno, o mesmo não ocorreu nas fileiras dos partidos da união das esquerdas, liderados por  Jean Luc Mélenchon.

O novo líder das esquerdas voltou a declarar, em várias ocasiões ao longo dessa semana, que não dará seu voto a Marine Le Pen, porém, condicionou o apoio à candidatura de Emmanuel Macron a ele, ao assumir o Palácio do Eliseu, rever as mudanças trabalhistas promulgadas durante o governo de François Hollande - de quem Macron foi ministro da Economia até final do ano passado. Na falta de resposta positiva por parte de Macron, Mélenchon preferiu não proferir nenhum depoimento público pedindo, aos seus eleitores, voto útil em Emmanuel Macron. Mesmo caminho seguiram as lideranças de outros dois partidos de extrema-esquerda.

Por outro lado, tem crescido muito entre os jovens das periferias das grandes cidades franceses o movimento Ni-Ni, isto é, nem Le Pen, nem Macron.

Macron tem vantagem

As pesquisas de opinião, divulgadas nesta sexta-feira, dia 5 de maio, apontam que, após o debate televisivo ocorrido entre os dois candidatos na última quarta, dia 3, o candidato do En Marche! Emmanuel Macron teve aumento das intenções de voto em 2,5 pontos percentuais e agora detém 61,5%.

Devemos destacar, porém, que na votação do primeiro turno, ocorrida dia 23 de abril, o comparecimento dos eleitores inscritos (aqui o voto não é obrigatório) foi de 77,77% e a soma dos votos brancos e nulos foi de 2,56%. Numa breve comparação com o Brasil, o primeiro turno das eleições presidenciais brasileiras de 2014, onde o voto é obrigatório, a abstenção foi 19,39% e a soma dos votos brancos e nulos atingiu a marca de 11,11%.

Aqui, os dois candidatos vem insistindo, nos discursos e nas entrevistas a jornais e revistas e em depoimentos às redes de televisão e mídias sociais, para que a população francesa compareça em massa às urnas nesse domingo. Marine Le Pen e Emmanuel Macron – que somados tiveram 43,41% dos votos no dia 23 de abril - disputam voto a voto, e, muitas vezes, seguindo os mesmos itinerários de visitas, com intervalo de poucas horas, os 55,1% dos votos que foram dados aos outros nove candidatos e dos eleitores que votaram branco ou nulo.

Analistas políticos têm se debruçado ante a possibilidade que, no domingo, cresça o número de abstenções e de votos brancos e nulos acabem favorecendo a candidata ultradireitista que sairá do pleito, mesmo que em segundo lugar, mas com forte representação política no país. O script das eleições presidências desse ano é completamente diferentemente do que ocorreu em 2002 quando, pela primeira vez na história da França pós Segunda Guerra, um partido de extrema-direita com tendências nazistas, liderado à época pelo pai de Marine Le Pen, o velho marechal Jean Marie Le Pen, disputou o segundo turno das eleições com Jacques Chirac. Naquela ocasião Chirac recebeu o apoio de todos os partidos e obteve vitória arrebatadora com 82,2% dos votos.

Mundo em movimento

Nesses quinze anos muita coisa mudou na França e na Europa. O cientista político Yves Sintomer, professor de ciência política na universidade Paris-VIII, afirmou, em entrevista ao semário Télérama que “nós estamos hoje frente a uma fratura entre uma França que ganha, que se insere de maneira positiva na mundialização, e uma outra França que não se sente representada. Essa situação é grande e perigosa”.

Para ressaltar essa mudança perigosa, Sintomer salienta ainda que o “Front National (FN) representa hoje na França uma força importante e, no segundo turno, Marine Le Pen terá uma votação largamente superior a seu pai em 2002”. Ao falar sobre Macron afirma que ele “não tem no momento um partido verdadeiro, mas uma máquina eleitoral. Nós entramos numa época em que os partidos eleitorais se transformaram em máquinas eleitorais, ao modo norte-americano”.

Após destacar que o Front National continua sendo um partido pequeno, se comparado com o Partido Comunista, o Partido Gaullista e mesmo o Partido Socialista nos seus apogeus, ele conclui sua entrevista com um alerta: “A única coisa certa é que o sistema político francês não está perto de se estabilizar. Podemos aguardar novas surpresas nas próximas semanas e nos anos que virão”.

Show de maus modos

Na noite da última quarta feira, dia 3 de maio, quase 17 milhões de telespectadores acompanharam atentamente, na frente da tela da TV, o debate entre Emmanuel Macron e Marine Le Pen, transmitido ao vivo pelas redes France 1 e France 2 que organizaram juntas, os últimos debates presidências, desde 2007. Durante duas horas e meia, face a face,  Macron e Le Pen se enfrentaram e os telespectadores puderam assistir a uma verdadeira luta verbal com troca de acusações de ambos os lados. Os dois jornalistas que mediaram o debate, respectivamente Christophe Jakubyszyn e Nathalie Saint-Cricq, não conseguiram conter a troca de acusações entre os dois candidatos e insistiam que eles respondessem às questões formuladas por eles e pelos telespectadores. Palavras ao vento.

Diferente dos debates presidenciais que ocorrem no Brasil, onde as centenas de regras e bons costumes acabam por enfaixar os candidatos, que ficam à mercê dos diretores de imagem da Globo que estipula tempo de fala de cada candidato e cortam o som do microfone, aqui na França, nem de longe, os candidatos seguem as regras estipuladas pelos dois canais televisivos. Ao contrário, colocados frente a frente, a intervenção dos jornalistas se resumiu a apartar as falas quando a audição, para o público, chegava aos limites de inaudibilidade.

O que se viu foi uma troca de acusações entre os dois candidatos e a tentativa de cada um ao seu lado, se sobrepor  ao outro mesmo que, para tanto, elevassem o timbre da voz.  Em alguns momentos o debate se assemelhava mais a um  ringue de boxe que à exposição de ideias e de propostas para os próximos cinco anos de governo presidencial.

Mas, diferentemente do ringue a tensa troca de acusações não terminou num nocaute, mas numa luta de palavras e olhares. Os dois olhos azuis de Marine Le Pen miravam diretamente para os dois olhos azuis, do lado oposto, frente a frente, cara a cara de Emmannuel Macron. Impossível não lembrar, nesse momento, do saudoso sambista paulista Adoniran Barbosa na letra precisa de ‘Tiro ao Álvaro’, cuja letra pode ser usada para descrever o debate: "Teu olhar mata mais/ que atropelamento/ de automóvel/ mata mais/ que bala de revólver”.

Parecia que os dois candidatos também combinaram as roupas para o encontro. Ambos de azul, talvez como complemento das cores dos respectivos olhos. Ele de terno azul, camisa branca e gravata azul. Ela de terninho azul, camisa branca e salto alto.

A candidata do Front National ao invés de utilizar argumentos persuasivos do seu programa de governo para convencer os telespectadores a votarem nela, optou pelo ataque verborrágico acusando seu opositor de ser “o filho querido do sistema e das elites, o candidato da mundialização selvagem e representante dos banqueiros”. Chegou a nomear Emmanuel Macron como ‘Hollande junior’ numa referência clara que ele, Macron, é o sucessor do “desastroso governo de François Hollande, de quem você foi ministro até outro dia”.

Por seu lado, o jovem Macron, com seus 39 anos, o ex-aluno brilhante e, considerando por muitos dos seus pares, como um gênio, fez uso de todo o aprendizado que obteve na École National de Administration (ENA), na administração pública e na inciativa privada, e taxou madame Le Pen como ‘mentirosa’. Subiu o tom ao afirmar que Marine Le Pen é “parasita do sistema e que joga com o medo das pessoas de um futuro terrível para conseguir seus votos”.

Em vários momentos, com a intervenção dos jornalistas a calma retornava ao ringue dos debates e Macron tentava, apesar das sucessivas intervenções da sua oponente, explicar aos 17 milhões de telespectadores, seu programa de governo e a defesa incondicional do euro e da União Européia.  

Madame Le Pen, ao contrário, cada vez mais passava a fazer uso da ironia e, a cada resposta que Macron às questões colocadas pelos jornalistas, tentava, a todo custo, tirá-lo do seu eixo e leva-lo para o canto do ringue de modo que pudesse nocauteá-lo na busca de uma palavra mal colocada e tentando minar seu controle emocional, técnica aprendida durante anos nas cortes e tribunais franceses como advogada do Front National, na época presidido por seu pai.

Le Pen não conseguiu seu intento e Macron não caiu no jogo da adversária. Nem mesmo em dois momentos difíceis para ele.

O primeiro foi quando madame Le Pen afirmou: “Eu vejo que você quer jogar comigo como um aluno e sua professora, mas esse não é meu jogo”, numa alusão a vida privada de Macron. Na sua juventude, aos 15 anos, Macron se apaixonou pela sua professora de latim e teatro, no liceu La Providence, na sua cidade natal, em Amiens. Essa paixão juvenil, e uma diferença de 24 anos idade entre eles, não impediu Macron acabasse casando-se com Brigite, ou Bibi, como é mais conhecida, quando ela obteve o divórcio e em 2007. Nessa época Bibi já tinha cinco netos e os seus três filhos formados.

No final do debate, insinuou ainda que o jovem Macron, que durante quatro anos trabalhou no banco Rotschild, tem conta secreta em uma offshore nas Bahamas. 

A atitude agressiva da candidata da ultradireita, diante as telas das televisões de todo o país causou, no dia seguinte ao debate, um profundo mal estar em parte da liderança do Front National. Essa atitude pode ser medida na pesquisa divulgada nessa sexta, antevéspera das eleições do segundo turno, que apontam que ela perdeu 2,5% das intenções de voto.

E agora?

Provavelmente a França não voltará a ser a mesma, como bem disse o professor Yves Sintomer, após o resultado dessas eleições presidenciais. O país mudou e o mundo mudou nesses últimos quinze anos quando ‘nasceu o euro’ e o ano que o Front National, pela primeira vez, foi guindado para o segundo turno.

Marine Le Pen não deverá ganhar as eleições desse domingo mas ela e seu partido podem se transformar na grande força de oposição ao governo do jovem Macron.

Por outro lado, Macron presidente da República Francesa não terá maioria na nova Assembléia Legislativa que será escolhida, dentro de dois meses, embora sua aposta é que este ano surgirão em, todo o país, candidatos independentes, que, assim como ele, que em um ano criou um movimento político, a partir do toque do dedo na tela do computador, para dar apoio ao seu En Marche!.

As mídias tradicionais como jornais, redes de TV, rádios, em sua grande maioria, sediadas ou editadas na capital francesa, tomaram posição pública contra a ascensão de Marine Le Pen.

A revista quinzenal, Marianne, na sua edição antes segundo turno, chega a afirmar em seu editorial que “somos todos loucos? Como 7,5 milhões de franceses votaram na candidata da extrema direita”. Adiante conclama aos cidadãos franceses a votarem em Emmanuel Macron e afirma que os sindicatos se dividiram e mesmo o clero se dividiu e critica duramente Jean Luc Mélenchon por não declarar voto em Macron. Termina o editorial pedindo os votos “por adesão ou por necessidade, para tudo mudar ou para salvar o essencial, pouco importa”.

Domingo, após as eleições os franceses poderão ser perguntar, parodiando nosso grande poeta Carlos Drummond de Andrade: “E agora Macron?”.

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