'ESTE É O RECADO'

Tite rejeita 'carona' de políticos no sucesso da seleção; em 70, técnico caiu após ironizar ditadura

Técnico afirmou que estará atento à tentativas de comparações políticas com momento de sucesso da seleção; em 1970, o então treinador João Saldanha foi demitido após ironizar o general Médici, presidente durante a ditadura

Uma das poucas “unanimidades” no Brasil de hoje, Tite mandou um recado para aqueles que pretendem pegar carona no momento de sucesso da seleção brasileira: não aceitará comparações entre em esporte e política.

Reprodução/ Twitter

A popularidade de Tite virou meme, mas instituto de pesquisa aponta que
treinador teria 15% dos votos para presidente

“Não quero que façam comparativos políticos ao esporte, porque eu também não vou fazer comparativo do esporte à política. Não coloquem no esporte momentos de sucesso para fazer comparativos com posicionamentos políticos. Este é o recado, este eu vou estar atento”, afirmou o técnico em entrevista concedida à rádio Jovem Pan.

Nesta sexta-feira (5/5), Tite participou do programa Brasil a Caminho da Rússia 2018, onde concedeu entrevista especial para a equipe de esportes da Jovem Pan.

Durante a sabatina, o técnico foi perguntado sobre como pretende blindar a equipe que disputará a Copa do Mundo do ano que vem do momento político atravessado pelo país, uma vez que o campeonato acontecerá pouco tempo antes das Eleições Gerais de 2018.

Veja a fala do técnico:

Em sua resposta, Tite afirmou que não pretende ser “oportunista” e ressaltou que o bom momento da seleção não o dá condições de apontar soluções sociais para os problemas brasileiros. O treinador, no entanto, destacou que ele e os atletas não são alienados, e defendeu que educação e punição contra corruptos são fundamentais para a melhora do país.

“No momento em que nós estamos bem na seleção [não vou] achar que a gente tem condições de dar soluções sociais para todos os problemas que a gente tem”, afirmou. “Agora eu vou falar eu individualmente como ser humano: Educação e punição é fundamental para que a gente tenha um Brasil melhor. E todo o acompanhamento que eu faço é para que as pessoas caminhem neste sentido. Ninguém é alienado. Tenho certeza que o que a gente quer é a punição para quem é corrupto e quer uma educação melhor, princípios melhores para todos nós”, completou.

Em março deste ano, uma pesquisa do Instituto Paraná apontou que, se eventualmente fosse um dos presidenciáveis no ano que vem, Tite seria um dos nomes mais fortes na corrida eleitoral. Segundo levantamento de março deste ano, que ouviu 2.230 pessoas com mais de 16 anos, 15% dos brasileiros votariam no treinador para a Presidência da República.

No último levantamento do Instituto Datafolha para as eleições de 2018, que ouviu 2781 pessoas no final de abril, nomes como Marina Silva e Jair Bolsonaro, que alternam o 2º e o 3º lugar em intenções de voto, registraram índices similares, que variaram entre 14% e 16%.

Política já derrubou técnico

Usar o sucesso da seleção brasileira de futebol para propaganda política não seria uma ação inédita no Brasil. No final dos anos 60 e início dos 70, um dos períodos mais violentos da ditadura militar, o presidente Emílio Gasrrastazu Médici era apresentado pelo regime como um “apaixonado por futebol”.

Na mesma época, Pelé, Tostão, Rivelino, Jairzinho e tantos outros craques formavam uma das melhores equipes de futebol de todos os tempos na seleção canarinho que levantou a taça da Copa de 1970 e sagrou o Brasil tricampeão mundial de futebol.

Foto: Wikicommons

Militante comunista e um dos maiores técnicos da história da seleção, Saldanha foi demitido após declaração irônica sobre Médici

Um dos eventos mais marcantes sobre a relação entre política e futebol neste período foi a queda do técnico João Saldanha.

Militante do Partido Comunista Brasileiro e crítico ao regime, ele foi o treinador da campanha nas eliminatórias sul-americanas que classificaram o Brasil para a copa de 1970. No entanto, pouco antes do início do Mundial, o técnico foi demitido do cargo.

O motivo apontado para a demissão foi uma declaração irônica de Saldanha ao presidente Médici.

Ao responder um questionamento de um jornalista sobre a vontade do presidente de ver o centroavante Dario, na época considerado um jogador limitado, convocado para a seleção canarinho, o treinador mandou o seguinte recado:

“Eu e o presidente temos muita coisa em comum. Somos gaúchos, somos gremistas, gostamos de futebol. E nem eu escalo o ministério e nem ele escala time. Você está vendo como nós nos entendemos muito bem”.

Duas semanas depois da declaração, Saldanha foi demitido.

Considerado o grande arquiteto da equipe que encantava o mundo, Saldanha é até hoje apontado como um dos maiores técnicos da seleção brasileira de todos os tempos. Uma de suas marcas foi superada apenas neste ano por Tite, também gaúcho, que em março chegou a oito vitórias seguidas e se tornou o técnico com mais sucessos consecutivos na competição. Até então, a marca era de João Saldanha, que conquistou um cartel de 6 vitórias nas eliminatórias de 1969.

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