OPINIÃO

Não falar sobre suicídio nunca salvou ninguém

Não é impossível que um jovem cometa suicídio após assistir a série, mas a probabilidade é a mesma de alguém pular de um prédio para o outro depois de ver o Homem-Aranha

Acabei de assistir a "13 Reasons Why", e estou bastante comovido. Acho que é um tema que realmente precisava ser discutido, e o formato série nos obriga a conviver com o desconforto do assunto por mais tempo do que um filme ou uma reportagem de TV.

Foto: Divulgação

Falta de empatia cansa, vai se convertendo em indiferença

Não sou psicólogo e nem pai, mas fico um pouco impressionado (e triste) pelas críticas à série, indo por aquele velho viés de que o programa pode ser maléfico ou induzir os jovens ao suicídio caso encontrem ressonância na dor da protagonista. Se você me perguntar se acho impossível que isso aconteça, vou responder que não. Mas acredito que a probabilidade de acontecer seja a mesma de alguém sair atirando nas pessoas porque viu num filme, ou pular de um prédio ao outro porque viu o Homem-Aranha fazer.

Não há na série uma apologia ao suicídio, mas há, sim, o detalhamento de um compêndio de circunstâncias que levam a protagonista a acreditar que essa é a única saída. (Isso não é spoiler)

Por algumas vezes me peguei questionando a série por ser muito forte em dados momentos. E de fato é.

A cada episódio a coisa fica mais tensa, e o drama juvenil dos primeiros capítulos se converte numa reflexão mais densa e universal. Percebi, contudo, que isso era necessário, pois o erro mais constante hoje é tratar nossos jovens como crianças. Sim, eles precisam entender o impacto de um estupro, do bullying, do suicídio. E, principalmente, eles (nós) precisam aprender a sentir culpa por suas omissões. Aprender a se perguntar "em que posso estar falhando?".

Todos nos encontramos muitas vezes gritando a plenos pulmões sem ninguém para nos ouvir. Ouvir sem julgamento, com amor. Mas a falta de empatia cansa, vai se convertendo em indiferença. Hanna Baker representa esse grito, que pode não ser explícito, barulhento ou fácil de ouvir. Sob esse aspecto, eu sou Hanna. Em contrapartida, seus amigos representam uma omissão ora clara, ora involuntária, e também têm seus próprios dramas​ e complexos. Sob esse aspecto, eu também matei Hanna.

Em épocas de baleia azul e toda sorte de atrocidades levando um sem-número de pessoas a atentar contra a própria vida, que bom que estamos falando sobre isso. Pois, pelo que eu saiba, não falar sobre suicídio nunca salvou ninguém.

(*) Vitor Donofrio é editor de livros formado pela ECA-USP.

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