DEMOCRACIA

Eleições na França: tiros na reta de chegada

Atentado torna ainda mais imprevisível cenário de disputa política acirrada entre candidatos das mais diferentes tendências

No próximo domingo, dia 23 de abril, mais de 40 milhões de franceses estão inscritos para comparecer, a uma das mais de 67 mil urnas espalhadas por todo o país, para escolher os dois nomes que se enfrentarão no segundo turno, marcadas para o dia 7 de maio e que definirá o nome do novo presidente da Republica Francesa, para o quinquênio 2017-2022.

Ao todo, são 11 os candidatos que disputam o maior cargo da República, nesse primeiro turno, numa corrida frenética no Héxagon (como se denomina a Françca continental) e nos territórios além-mar (Guiana Francesa, Martinica, Guadaloupe, Ille de Reunion, Polinéisa Francesa, Nova Caledônia). Em torno de 30% de eleitores não declaram nas pesquisas a sua preferência, que será crucial na definição dos dois principais vencedores. A imprensa francesa está tratando as eleições presidenciais desse ano como uma das mais indefinidas dos últimos 25 anos. Além do mais, ainda segundo a imprensa, o grande fantasma que ronda as eleições, é que se repita o ocorrido em 2002, quando o índice de abstenções atingiu cerca de 30%. Em 2002, esta alta taxa de abstenção foi determinante para que os dois nomes escolhidos para o segundo turno fossem o do então presidente Jaques Chirac que disputava sua reeleição e o do líder da extrema direita Jean Marie Le Pen, pai da atual candidata Marine Le Pen. Configurou-se então a ameaça de um partido da extrema direita assumir o poder pela primeira vez, na história francesa após a II Guerra Mundial, provocando a união entre a tradicional direita republicana e os partidos de esquerda, inclusive o Partido Socialista, na votação do segundo turno, o que possibilitou a Chirac ganhar as eleições de forma estrondosa com 82,2% dos votos válidos. 

Essa alta taxa de abstenção, em 2002, foi motivo da derrota, no primeiro turno, do então candidato pelo Partido Socialista à presidência Lionel Jospin, tido, até então, como um dos melhores quadros do partido. A derrota humilhante para Le Pen, no primeiro turno, fez com que Lionel Jospin anunciasse, logo após o anuncio dos resultados eleitorais, que abandonaria a vida política.

Na campanha presidencial desse ano de 2017, ao longo dos últimos meses, dois nomes, apareciam disputando cabeça a cabeça na linha de chegada, com larga vantagem junto aos demais candidatos. Marine Le Pen representante da extrema direita pelo Front Nacional (Frente Nacional) e Emmanuel Macron, político de centro direita -  ex-ministro de Economia de François Holande, até o final de 2016 - pelo movimento, criado por ele mesmo intitulado En Marche (Em Marcha).

Atrás deles, três nomes completava o cenário: Benoît Hamon, candidato oficial do Partido Socialista, do atual presidente em final de gestão François Hollande, François Fillon, candidato da direita republicana católica pelo Les Republicans (Os Republicanos), e Jean Luc Mélenchon, candidato da esquerda e ex-trotskista, pelo Front de Gauche (Frente de Esquerda).

Nefelomancia e ciência

Na Grécia antiga quando um governante queria saber qual era o futuro que lhe aguardava ele consultava um especialista em Nefelomancia, palavra de origem grega (nefelo significa nuvem, e mancia, adivinhar) ou seja, a arte de adivinhar o futuro observando a forma das nuvens.

Durante muito tempo era assim que muitos acreditavam que esse ou aquele candidato teria chance para ganhar a eleição. Exemplos de candidatos, principalmente, a vereador que tiveram apenas um voto fazendo parte de família extensa, nem as nuvens explicam. Mas essa é uma verdade no Brasil e em qualquer país onde a escolha é através do voto direto na urna.

Óbvio que a margem de erro era imensa quando só se observavam as nuvens ou não existia um método mais científico para analisar as pesquisas de opinião. Nos dias atuais os institutos de pesquisa proliferam e estão presentes no cotidiano dos indivíduos e das tomadas de decisão, sejam as de um pequeno proprietário de um Lava Jato, até as de um CEO da Exxon mundial. Esses institutos utilizam várias ferramentas sofisticadíssimas para chegar a seus diagnósticos.

Essas porém, passaram a ser vistas com ceticismo, após a eleição de Donald Trump para a presidência dos Estados Unidos, em novembro do ano passado, contrariando mais de 95% das pesquisas de opinião que informavam aos eleitores norte americanos que ele não ganharia. E as dúvidas crescem mais ainda quando a eleição, como dissemos, conta com quase um terço de indecisos, como é o caso aqui na França, principalmente entre os jovens. Além do mais, a taxa de abstenção esse ano pode ser chegar a 30% do numero total dentre os 43 milhões de eleitores inscritos.

Apesar das muitas dúvidas, as pesquisas servem para nortear a expectativa de um resultado. E elas continuam a serem mostradas semanalmente, pelos diferentes órgãos de imprensa, com algumas diferenças desprezíveis entre elas.  

Se utilizássemos a photo finish, aquela máquina fotográfica de precisão, utilizada em esportes de alto desempenho, para analisar a posição dos candidatos hoje, antevéspera de eleição aqui na França, a imagem está totalmente diferente daquela revelada pelas fotos tiradas nas três ultimas semanas. Se levarmos em conta a margem de erro das pesquisas (em torno de 2% a 3%) a foto tirada ontem, tendo como base os dados da pesquisa de opinião realizada pela respeitadíssima SciencePo, em parceria com o matutino Le Monde[1], mostra que estão emparelhados cabeça a cabeça, corpo a corpo,  quatro candidatos.

(E, quando os cavalos já estavam todos emparelhados, ainda veio uma explosão – um atentado a tiros às portas do Arco do Triunfo – para atiçar a sensibilidade dos eleitores, criando ainda mais confusão.)

Em primeiro aparece Emmanuel Macron,   centro direita,  do partido Em Marcha (En Marche) com 23% e a pesquisa aponta que ele perdeu 2% nos últimos dias, tomando por base a última pesquisa da mesma fonte divulgada há 10 dias atrás. A segunda colocada continua sendo a candidata da ultra direita, Marine Le Pen, pela Frente Nacional (Front National) com 22,5%, tendo sofrido perda de 2,5%. Em terceiro aparece Jean Luc Mélenchon da Frente de Esquerda (Front de Gauche) com 19%, candidato que mais ganhou voto nos últimos dias, num total de 4%. Nesse  batalhão de chegada está em último lugar François Fillon pelo partido Os Republicanos (Les Republican) com 19,5% e que também se beneficiou com ganho de 2% nas intenções de voto, nos últimos dias.

(Da esquerda para a extrema-direita: Mélenchon, Hamon, Macron, Fillon e Le Pen)

Aparecendo em quinto lugar, e muito distante do primeiro pelotão, está Benoît Hamon o candidato oficial do atual presidente François Hollande, que caiu de 10% para 8%. Dos demais candidatos o mais próximo de Benoît Hamon é o gaullista de direita Nicolas Dupont-Aigan do partido França de Pé (Debut la France) com 4%. Dai para baixo aparecem os demais candidatos como Phillipe Poutu, do Nova Partido Anticapitalista (Noveau Parti  Anticapitaliste) com 1,5% das intenções de votos. O auto nomeado pastor de ovelhas Jean Lasssale do movimento Chegou a Hora (Le Temps est Venu) está com 1% assim como, com os mesmos 1%, se encontra François Asselineau da União Popular Republicana (Union Populaire Republicaine). Nas duas últimas colocações estão Nathalie Arthaud do partido Luta Operária (Lutte Ovrière) com 0,5% e o lanterninha da competição é Jacques Cheminade do Sodaliritè e Progrès (Solidariedade e Progresso) com 0,5%.

Todos se odeiam

Desde o ultimo domingo, dia 16 de abril, os quatro primeiros colocados começaram campanha intensa de acusação pública uns contra os outros. Uma espécie do poema Quadrilha, de Carlos Drumond de Andrade só que ao contrário do poema, ninguém se ama, todos se odeiam.

Le Pen acusa Macron, que acusa Fillon, que por sua vez acusa Mélenchon. Mélenchon acusa Le Pen, que acusa Fillon, que acusa Macron. Só que aqui ainda não dá para saber, como no poema, quem vai para o convento, quem vai embora para os EUA, que se mata e quais os dois que ficarão para disputar o segundo turno.

A tensão também tem aumentado com as denuncias na imprensa sobre o mau uso do dinheiro público, ou esquentando velhas notícias ou  trazendo novas. Num dos casos, o candidato atingido é François Fillon que, no inicio do ano, foi alvo de longa reportagem do jornal “Le Canard Enchaîne” na qual mostrava que sua esposa Penelope era assalariada do seu gabinete parlamentar durante décadas. O caso é conhecido como Penelopegate. Outra denuncia contra Fillon diz respeito ao fato de ter ganhado de presente dois ternos de alta grife.

Marine Le Pen também foi acusada, pelo Parlamento Europeu, por usar verba de gabinete para pagar salários a vários membros do Front National que nunca apareceram para trabalhar. Le Pen também está envolvida em denuncias de subavaliação de seus bens imobiliários, na declaração do Imposto de Renda.

Já o jovem Emmanuel Macron,  ex-aluno da prestigiosa Escola Nacional de Administração (ENA), é acusado de apresentar ao Imposto de Renda subavaliação dos rendimentos que teria recebido do grupo Rotschild, quando de sua passagem pelo banco há quatro anos.  

Jean Luc Mélenchon é o único, desse bloco de chegada, que, até o momento, não tem nenhuma acusação de enriquecimento pessoal ou de desvio de recursos públicos. Porém, como contrapartida, a imprensa de direita vem dando destaque ao risco de que a economia  entrará em caos, nos primeiros três meses de sua gestão.

Acusações à parte a pesquisa da SciencePo divulgada hoje faz  simulações para o segundo turno com os quatro possíveis candidatos como se pode ver no quadro abaixo:

Emmanuel Macron

61%

39%

Marine Le Pen

Emmanuel Macron

64%

36%

François Fillon

François Fillon

55%

45%

Marine Le Pen

Jean Luc Mélenchon

43%

57%

Emmanuel Macron

Jean Luc Mélenchon

57%

43%

Marine Le Pen

Jean Luc Mélenchon

58%

42%

François Fillon

 

Se fizermos uma leitura apressada dos dados da pesquisa tudo nos leva a crer que Macron vence em todas. Não é bem assim. Se nos atentarmos à leitura completa da pesquisa ela aponta que, a percentagem das pessoas consultadas que não exprimiram seu voto para a disputa do segundo turno foi, na menor hipótese de 18% quando a opção é entre Macron e Le Pen.

Já na simulação da disputa entre Fillon e Le Pen cuja diferença é de 10%,  36% dos eleitores ouvidos não declararam voto. Se a disputa fosse entre Mélenchon da esquerda contra a ultra direitista Le Pen um total de 24% dos entrevistados não declararam voto.

Portanto, há muita incerteza até o domingo a noite, quando deverá ser anunciado os nomes dos dois candidatos eleitos para disputar o segundo turno. Só na semana que vem, quando entrarão em cena as negociações de apoio e alianças para o segundo turno, poderá se ter um quadro mais claro, seja na convergência da esquerda para derrotar Le Pen, seja no improvável apoio dos eleitores de François Fillon a ela.

Ou outra pergunta: os eleitores de Emmanuel Macron apoiarão o candidato da esquerda Jean Luc Mélenchon se este vier disputar o segundo turno com Marine Le Pen do Front National? Se a disputa ficar entre os dois candidatos da extrema direita François Fillon e Marine Le Pen, quem vai se aliar com quem?

Os possíveis cenários estão montados, agora depende, como se diria na gíria futebolística, na galera que enche a geral fazer a sua escolha.

 


[1] O jornal Le Monde, fundado em 1944, é um dos últimos jornais matutinos em circulação na França. Ele sai após o meio dia com data do dia seguinte e a primeira edição é distribuída em Paris e grande Paris. Nas demais regiões no país ele é distrbuido no dia seguinte. Podemos chamar o Le Monde como o jornal do dia seguinte. 

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