CRÍTICA

As muitas leituras e os muito leitores de Machado de Assis

Na sugestiva análise que Hélio Guimarães faz em seu novo livro do número considerável de textos sobre Machado, por tabela o leitor também percorre diferentes tendências dos estudos literários que inspiraram críticas, artigos e livros

O livro recém-lançado por Hélio Guimarães, “Machado de Assis, o escritor que nos lê” ( Ed. Unesp) é interessantíssimo e precioso. 

O tema – como indica o título – é Machado de Assis, escritor de quem, faz tempo, Hélio vem se ocupando. Nesta nova leitura que faz do velho bruxo, ele conduz seus leitores por uma galeria de “machados” construídos, descontruídos e reconstruídos ao longo dos quase cento e cinquenta anos que sua pesquisa recobre. 

Em livro de 2004 (“Os leitores de Machado de Assis – o romance machadiano e o público da literatura no século XIX”, com nova edição em 2012), Hélio Guimarães ocupou-se dos leitores machadianos, articulando de forma bastante original e fundamentada, a “virada” de “Memórias póstumas...” à tomada de consciência de Machado da exiguidade e precariedade do público leitor brasileiro da época.

Desta vez, Hélio Guimarães continua discutindo leitores machadianos, mas se trata agora de leitores muito especiais: leitores com nome e sobrenome, que tornam públicas suas leituras. Protagonistas deste livro de agora são tipos especiais de profissionais das letras, como professores, críticos, pesquisadores, jornalistas. Time no qual o próprio Hélio se inscreve, logo ali, no além Pinheiros do campus da USP.

Penso que os profissionais das letras de que Hélio se ocupa leem-se uns aos outros e funcionam todos como mestres-educadores. Alguns por conta do ofício, outros porque seus textos são às vezes lidos como fonte de informações, de orientação, de avaliação.

Uma das delícias deste “Machado de Assis, o escritor que nos lê” é nos levar pela mão – a nós leitores- por entre o coro de todas estas vozes menos ou mais canônicas, e nos propor relações entre elas. Ou seja: lendo Hélio Guimarães, a gente se pergunta se depois de José Rufino Rodrigues Vasconcelos ( do Conservatório Dramático Brasileiro ), que em 1857 ocupou-se de Machado, algum comentário sobre Machado teria sido virgem da leitura de outros comentários.

Teria ?

Sei não ... sei não . 

Na sugestiva e bem fundamentada análise que Hélio faz de número considerável de textos sobre Machado, por tabela o leitor também percorre diferentes tendências dos estudos literários ( eu ia escrevendo “teorias literárias”, vejam só ... ) que – digamos – inspiraram críticas, artigos e livros.

Podemos identificar tendências e olhares que ora privilegiam a biografia de Machado, ora seu modo de usar a língua portuguesa, ora traços de sua psicologia, ora a relação de suas obras com processos sociais e históricos contemporâneos de sua época, e daí por diante. No coro de vozes que Hélio Guimarães orquestra, penso que podemos delinear o traçado de um “sistema literário” já maduro , na acepção que em 1959 Antonio Cândido conferiu a esta expressão.

Várias das tendências das leituras machadianas reunidas em “ Machado de Assis, o escritor que nos lê” articulam-se, na análise de Hélio Guimarães, a certas perspectivas sócio-históricas contemporâneas de seus autores, e por eles (supõe-se ? ) assumidas. A sagração de Machado pelo Estado Novo, as reticências do modernismo paulistano face a ele e a descriminalização (?) feminista de Capitu são as minhas preferidas. Me encantaram!

Mas – deixa “meus“ encantos pra lá ... o livro tem encantos para todo tipo de leitor, figura à qual –ia me esquecendo de apontar ! - Hélio Guimarães dedica a parte final de seu livro.

Machado de Assis, o escritor que nos lê (Editora Unesp)
Páginas: 308
Preço: R$ 56
ISBN: 9788539306497
Mais informações neste link.

 

(*) Marisa Lajolo é professora da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas) e da Universidade Presbiteriana Mackenzie, e foi curadora do prêmio Jabuti entre os anos de 2014 e 2016.

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