OPINIÃO

Nunca mais canções forçadas

O deprimente 31 de março é data não para esquecer, mas para lembrar que nunca devemos abrir mão de nossa liberdade: ditadura nunca mais!

Escrevi o texto abaixo no dia 31/03/2014, ano passado republiquei, faço o mesmo esse ano.

Vivi na alienação da infância e da adolescência o regime militar. Mas foram marcantes os cinzentos anos 70.

Muito por dores íntimas e dramas familiares, mas hoje tenho consciência que o outro tanto era devido à conjuntura.

Na lembrança de menino ficaram marcados alguns símbolos: o camburão laranja e preto, os hinos escolares e as noites frias que nunca deixarão de incomodar.

Nunca mais 31 de março.

---------------------------------------------------

As manhãs eram frias na cidade pé de serra nos anos 70. Eu entrava às 7 de manhã na escola. As mais nítidas lembranças são o guarda pó (avental) branco e os hinos de apologia à ditadura civil militar cantados nas filas antes da entrada nas salas, um deles ficou nítido apesar dos anos passados: “trinta e um de março consagrou lá, lá, lá, lá…”

E seguiu o tempo, já não há mais na grade curricular a cavernosa “Educação Moral e Cívica” e também os estudantes de hoje não são obrigados a cantar canções compulsórias e mentirosas para dar início aos seus dias.

Por outro lado, o entulho autoritário, o legado deixado pela era dos hinos e das morais e cívicas, persistem em nossa sociedade. O Estado e a Sociedade atravessam e não superam uma longa transição onde supostamente abandonamos o período autoritário e consolidamos a democracia, mas não há quebra de vínculo.

Sabemos todos que o autoritarismo nunca cessou, ele sempre resistiu na violência e arbitrariedade estatal com a população negra da periferia, com a mulher, com o homossexual, com o pobre e se fragmenta em outros autoritarismos menos evidentes, mas igualmente contundentes.

A ditadura ainda está expressa e atua muito além das palavras e dos atos de saudosos, reforçados por aqueles que não a viveram, mas insistem em evocá-la.

Não é apenas simbólica esta evocação, ela é real e afeta as nossas vidas.

Portanto, o deprimente 31 de março é data não para esquecer, mas para lembrar que nunca devemos abrir mão de nossa liberdade.

Nunca mais canções forçadas, ditadura nunca mais!

(*) Ricardo Queiroz é bibliotecário, pesquisador e assistente parlamentar. 

Destaques

Últimas notícias