OPINIÃO

Sobre bailarinas e historiadores

Em função da História, as escolhas que parecem pequenas, revelam enormes contextos e, às vezes, espúrios interesses

Já tive uma namorada bailarina. Namoramos no início dos nossos 20, e ela já tinha 15 anos dedicados ao ballet. Desde o ato de caminhar, secar-se ao tomar banho ou postar copos sobre a mesa, todos os seus movimentos eram de uma candura e controle impressionantes. A posição dos dedos, o peso do corpo sobre os pés, a forma de postar o tronco, tudo tinha graça e leveza. Quando caminhava, não se ouvia, por exemplo, o barulho dos passos ou do corpo.

Reprodução/ Facebook

Cabe a você decidir se enche os copos, se caminha com leveza ou se janta com juízes

Existem outros saberes que quando adquiridos se tornam parte integral do indivíduo. Conheci, certa vez, um professor cujos pais eram ingleses. Ele nascera no Brasil, mas a educação dos "lordes" lhe acompanhava até na hora de comer "xis". Comia com garfo e faca e muito guardanapo, que eram usados de forma quase imperceptível. Uma coisa que me impressionava era que todas as vezes que estávamos comendo algo, meu copo nunca ficava vazio. A educação dele fazia com que sempre antes de se servir (fosse água, vinho ou qualquer outra coisa) ele completasse primeiro os copos de quem lhe acompanhava o momento. Era tão parte dele a educação que não lhe parecia pedantismo ou ofensa a quem quer que fosse.

A História é um desses saberes. Uma vez que você obtém, seu olhar sobre as coisas insufla-se de temporalidade e contexto. Desde um mendigo a lhe abordar na rua, até um jantar na casa de juízes, tudo passa a ter outras cores, outros cheiros. Você passa a reconhecer intencionalidades, tanto as abertas como as veladas. Os silêncios e os "não ditos" passam a ser tão eloquentes quanto as letras garrafais. As derivações contextuais se diferenciam das consequências inadvertidas como água e óleo. A História, quando adquirida para além de uma recoleção erudita de datas, números ou citações, passa a compor uma moldura sobre a qual o mundo se desvela.

Tal como o ballet, a História te permite um movimento natural, quase imperceptível pelo mundo dos interesses ou a percepção da falta de leveza do interesse dos mundos. Tal como a educação inglesa, a História te permite ver objetivamente os que estão com seus copos vazios.

É claro que de posse de todo este saber, cabe a você decidir se enche os copos, se caminha com leveza ou se janta com juízes. Mas aqui a História, de novo, te permite compreender o que acontece quando não se tem um comportamento retilíneo. Permite que você saiba o que acontecerá quando uns têm seus copos sempre cheios e outros sempre vazios. A História te permite entender o que acontecerá se você usar um guardanapo, de forma quase imperceptível, a limpar uns ou pisar de forma bruta e constante sobre outros.

No fim, de posse deste saber, é você que escolhe com quem janta e para quem enche os copos. Mas, em função da História, estas escolhas que parecem pequenas, revelam enormes contextos e, às vezes, espúrios interesses.

(*) Fernando Horta é professor, historiador e doutorando da UnB (Universidade de Brasília).

Destaques

Últimas notícias