OPINIÃO

Como o movimento feminista se tornou um servo do capitalismo – e como recuperá-lo

O movimento que começou como uma crítica contra a exploração capitalista acabou contribuindo para as ideias centrais do neoliberalismo

Tradução: Clarissa Bongiovanni

Por ser uma feminista, eu sempre tive como pressuposto que lutar pela emancipação das mulheres era construir um mundo melhor – mais igualitário, justo e livre. Porém, recentemente, comecei a me dar conta de que os ideais pioneiros do feminismo estariam servindo a outros fins. Preocupo-me, especificamente, que nossa crítica ao machismo estaria servindo como justificativa para novas formas de desigualdade e exploração.


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Temo que o movimento pela liberdade das mulheres tenha, em uma guinada cruel e inesperada, se envolvido em uma ligação perigosa com valores neoliberais para a construção de um livre-mercado. Isso explicaria porque os ideais feministas que apontavam para uma visão do coletivo têm sido expressos em termos cada vez mais individualistas. Feministas que criticavam a sociedade “carreirista”, hoje aconselham mulheres a mergulharem fundo. O movimento que priorizava solidariedade social, agora celebra empreendedoras. A perspectiva que antes valorizava o “cuidado” e a interdependência, agora encoraja o avanço do individualismo e da meritocracia. 


Guinada do feminismo para as questões de identidade de gênero encaixa perfeitamente com a ascensão do neocapitalismo

O que está por trás dessa transformação é a mudança das características do próprio capitalismo. A era do capitalismo pós-guerra, organizado pelo Estado deu lugar a uma nova forma de acumulo de capital- “desorganizado”, globalizado e neoliberal. A segunda onda do feminismo nasceu como uma crítica ao primeiro tipo de capitalismo, mas se tornou uma serva do segundo.

A partir de uma visão retrospectiva, podemos ver que o movimento pela liberdade das mulheres apontava simultaneamente para duas possibilidades diferentes de futuro. Em um primeiro cenário, ele prefigurava um mundo em que a emancipação de gênero caminharia lado a lado da democracia participativa e da solidariedade social; em um segundo cenário, o feminismo prometia uma nova forma de neoliberalismo, capaz de garantir tanto às mulheres quanto aos homens as benesses da autonomia individual, do aumento das escolhas e do avanço da meritocracia. A segunda onda do feminismo foi de certa forma ambivalente, compatível com essas duas visões da sociedade, e suscetível a diferentes elaborações históricas.

Do meu ponto de vista, a ambivalência do feminismo foi resolvida nos últimos anos favorecendo o segundo cenário, liberal e individualista – mas não porque fomos vítimas passivas das seduções neoliberais; nós mesmas contribuímos com três ideias importantes para esse desenvolvimento.

Uma das contribuições foi a nossa crítica ao “salário familiar”: o ideal do homem provedor e da mulher dona de casa era central para o capitalismo organizado pelo estado. A crítica feminista desse ideal agora funciona para legitimar o “capitalismo flexível”. Afinal de contas, esse tipo de capitalismo depende do trabalho da mulher assalariada, especialmente do trabalho precário em serviços e manufaturas, feito não só por jovens solteiras, mas também por mulheres casadas e por mães; mulheres de todas as etnias e nacionalidades. Com o aumento do ingresso das mulheres no mercado de trabalho pelo mundo todo, o ideal capitalista de salário familiar vem sendo substituído por uma nova norma, aparentemente sancionada pelo feminismo, a norma dos dois provedores. 

Esqueça que a realidade subjacente a esse novo ideal é, na verdade, a redução dos salários, a diminuição dos vínculos empregatícios, o declínio do padrão de vida, o aumento das horas de trabalho por residência e da jornada dupla – muitas vezes tripla ou quadrupla- , e a elevação dos níveis de pobreza em famílias chefiadas por mulheres. O neoliberalismo transforma água em vinho, elaborando a narrativa do empoderamento feminino. Ao invocar as críticas feministas ao salário familiar como justificativa para essa exploração, ele se aproveita do sonho da emancipação feminina a favor da máquina de acumulação de capital. 


Neoliberalismo transforma água em vinho, elaborando a narrativa do empoderamento feminino

O feminismo fez uma segunda contribuição para o ethos neoliberal. Na era do capital organizado pelo estado, nós criticávamos, com razão, a visão política que focava tão estritamente na desigualdade de classes que não via outras injustiças “não-econômicas”, como violência doméstica, assédio sexual e opressão reprodutiva. Ao rejeitarem o “economismo” para politizar o “pessoal”, as feministas alargaram a agenda política para desafiar a hierarquia baseada na construção social da diferença entre gêneros. O resultado dessa discussão deveria ter sido a expansão da luta por justiça, abarcando tanto o aspecto econômico quanto o cultural. Mas o resultado real foi o foco unilateral na “identidade de gênero” à custa de questões mais básicas. Pior ainda, a guinada do feminismo para as questões de identidade de gênero encaixa perfeitamente com a ascensão do neocapitalismo, que deseja reprimir a todo custo qualquer memória de igualdade social. Na verdade, nós focamos na crítica do machismo cultural justamente no momento em que as circunstancias pediam atenção redobrada à crítica da política econômica.

Por fim, o feminismo contribuiu para o neoliberalismo com uma terceira ideia: a crítica ao estado paternalista de bem-estar social. Muito comum em áreas em que o capital é organizado pelo estado, essa crítica converge com a luta neoliberal contra “o estado babá” e no seu cinismo em relação às ONGs (Organizações não governamentais). Um exemplo didático é o microcrédito, o programa em que pequenos bancos cedem empréstimos a mulheres do hemisfério sul. Considerado como uma alternativa empoderadora às burocracias de projetos governamentais, o microcrédito é apresentado como o antidoto para a pobreza e submissão feminina. O que foi esquecido, entretanto, é esta estranha coincidência: o microcrédito prosperou no momento em que os governos abandonaram esforços macroestruturais para a diminuição da pobreza, esforços que pequenas ações não podem substituir. Nesse caso, também, o neoliberalismo recupera uma ideia do feminismo. O objetivo original, de democratizar o poder estatal para favorecer cidadãos, agora é usado para legitimar a mercantilização e a diminuição do poder governamental.

Em todos esses casos, a ambivalência do feminismo se resolveu a favor do individualismo (neo) liberal. Mas, o outro cenário, mais solidário, ainda pode existir. A atual crise proporciona a chance de retomarmos o fio da meada, de reconectarmos o sonho da liberdade feminina com uma visão mais solidária da sociedade. Para isso, nós feministas devemos terminar nossa relação com o neoliberalismo e recuperar nossas três “contribuições” para nosso objetivo.

Primeiramente, devemos desvincular a crítica ao salário familiar e da flexibilização do capitalismo militando a favor de um estilo de vida que tire o foco do trabalho assalariado e que valorize outras atividades, incluindo – mas não somente- o trabalho doméstico. Em segundo lugar, podemos acabar com deturpação da nossa crítica ao economismo, que se transformou em uma política de identidade de gênero, integrando a luta pela mudança dos valores culturais machistas à luta por justiça econômica. For fim, podemos cortar o falso vínculo entre nossa crítica à burocracia e ao livre mercado reivindicando o poder da democracia participativa como uma forma de fortalecer os poderes públicos necessários para reprimir o capital a favor da justiça. 

Foto: Wikicommons

(*) A norte-americana Nancy Fraser (acima) é filósofa e uma das principais pensadoras feministas contemporâneas.  Presidente eleita da American Philosofical Association, é professora de Filosofia e Política na New School for Social Research, em Nova York.

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