FOTOGRAFIA

Militão, 180

Fotógrafo pioneiro de São Paulo produziu álbum comparando as imagens de regiões da cidade registradas em 1862 e 1887, para demonstrar o 'progresso' da capital paulista

Tenho a mania involuntária de, nos começos de ano, me recordar dos aniversários de momentos da minha mitologia pessoal. Mentalizo algo como, “fazem X anos que fui para a escola, Y que arrumei meu primeiro trabalho, Z que viajei de avião pela primeira vez”.

Em 2017, os 18 anos que entrei na USP. A despeito de só ser o que sou pelos anos que lá permaneci, o que importa mesmo nesse caso é que foi a partir da universidade que passei a compor uma rede de afetos a qual, desde então, estou enredada.

Essa espécie de maioridade vem acompanhada de outra data curiosa: os 180 anos de Militão Augusto de Azevedo (1837-1905). O fotógrafo pioneiro de São Paulo foi alvo da minha primeira pesquisa acadêmica, realizada ao longo de Iniciação Científica e Mestrado, e que resultou no livro Militão Augusto de Azevedo: fotografia, história e antropologia (São Paulo: Alameda, 2010).

De fato, não é tão certo assim que Militão nasceu em 1837. Nos documentos disponíveis sobre sua vida figuram ao menos duas datas, 1837 e 1840. Contudo, por uma série de evidências a primeira se estabeleceu como a mais provável para o natalício do fotógrafo. E assim se constituiu a convenção.

Militão tornou-se famoso por ter feito o Álbum comparativo da cidade de São Paulo (1862-1887). Ele dispunha de fotografias de São Paulo feitas em 1862, data em que tinha 25 anos, e fez novas imagens em 1887, quando fez meio século, para mostrar o “progresso” da cidade. No meu íntimo, sempre tendi a achar que essa simetria entre quartéis de século – 1837, 1862 e 1887 – teve algum peso para que o trato sobre o nascimento do fotógrafo se firmasse.

Veja algumas imagens do Álbum comparativo de Militão:


Rua da Cruz Preta, 1862


Rua da Cruz Preta, 1887


Rua do Rosário, 1862


Rua do Rosário, 1887

Entre 18 e 180, simetrias e projeções, inicio o ano na torcida por bons dias, e alguma comemoração.

(*) Íris Morais de Araújo é cientista social, antropóloga e professora do Instituto de Saúde da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo).

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