DESEMPENHO

PISA matemática 2015: outro olhar

É equivocado tomar a posição do Brasil no ranking geral do PISA (Programa Internacional de Avaliação de Estudantes) e julgá-lo apenas pela última edição. Se o critério de ranqueamento fosse por “ganhos acumulados nas edições do PISA”, ou seja, valor agregado, apareceríamos à frente dos Estados Unidos e da Austrália – que dizem ser modelos para o Brasil. Por que não é este o critério de ranqueamento?

O PISA é o oráculo dos investidores que procuram, no campo da qualificação da mão de obra, orientar-se quanto à preparação desta para gerar o retorno esperado de seus investimentos. Não é a única variável a ser considerada nos investimentos, mas é importante face às características da produção atual vinculada às grandes corporações, cujos métodos de produção necessitam ser constantemente revolucionados pela automatização, exigindo um reposicionamento da educação.

Neste cenário, até mesmo o exército de reserva (leia-se de desempregados) precisa estar em um estado de preparação superior ao que no passado o capitalismo lhe reservou, ou seja, ser “empregável” atendendo às novas exigências deste processo, caso o capital venha a necessitar deles. Junte-se a isso, as características de precarização contratual cada vez mais presentes na demanda do trabalho pelo capital. Mantidas as distâncias relativas, se a ponta superior da qualificação subiu, é preciso reajustar o valor da posição inferior. Eis o repentino interesse dos empresários na instrução da pobreza (gerada por eles mesmos).

Eis também porque a OCDE (Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico), meca de empresários e dona do PISA, monitora os países, indicando qual o nível de preparação de sua força de trabalho, de forma a evidenciar se estão ou não preparados para as novas demandas da produção, constituindo-se em palco seguro para os novos investimentos.

Além disso, constitui um poderoso instrumento de controle político e ideológico dos governos, a partir de um lugar central, a OCDE, com poder de conformação de suas políticas nacionais, retirando-lhes o poder de formular sua própria política local e constrangendo-os (pela mídia e suas formas de divulgação) a adotarem o receituário internacional que a OCDE considera necessário para atender aos interesses em jogo.

Para cumprir estas tarefas, a OCDE incentiva a adoção de um critério de medição da qualidade da educação baseado em avaliação por testes e passa a ser considerado qualidade a mera elevação das médias dos países nos testes e, por oposição, passa  a ser considerado não qualidade a redução das médias. O critério é estreito e baseado em três disciplinas dentre todas as que a escola trata: ciências, matemática e leitura.

Com esta redução, a OCDE incentiva também a eliminação do debate sobre “o que é uma boa educação” e impõe a aceitação das médias em testes como único critério de qualidade. Os efeitos que estas opções provocam nos países são variados, incluindo a “cópia” deste modelo em suas avaliações nacionais (p. ex. o IDEB) e a vinculação dos conteúdos e métodos das escolas à preparação para os testes, produzindo um estreitamento curricular que privilegia as disciplinas que caem nos testes e, ao mesmo tempo, restringindo, mesmo nestas disciplinas que caem nos testes, o âmbito e a extensão do que é ensinado, orientado por bases nacionais comuns regadas a “descritores” orientadores do que deve ser ensinada nas salas de aula, amarrando, de quebra, a formação de professores e a própria geração do material didático.

Estas decisões e implicações são esquecidas quando a mídia, num ato presentista, toma o último resultado do PISA para repercuti-lo. Sequer a sequência das notas do próprio PISA é trazida para análise. Apenas o último resultado (ou no máximo os mais recentes) é considerado. Se há uma queda, como no caso brasileiro houve no último PISA, em matemática, governos e mídia se divertem explorando seu significado à luz de seus interesses.

O momento particular que o Brasil vive, querendo apagar tudo que foi feito nos últimos 13 anos, para impor a “sanha salvacionista” que quer justificar o golpe, é propício para a repercussão de tais resultados.


Dados da NCES

O gráfico acima mostra outra perspectiva de análise para os mesmo resultados. Ele mostra os resultados do PISA para alguns países que selecionamos, em todas as edições do PISA de 2003 a 2015 – para matemática. Selecionamos matemática pois, é onde o Brasil mais caiu na última edição.

Na análise, incluimos a Austrália pois, ela é exemplo de política de reforma que o novo governo brasileiro vive dizendo que deveria ser referência para nós. Incluímos também os Estados Unidos já que é deste centro irradiador de políticas que as ideias da reforma empresarial da educação se difundiram para a Austrália e também para o Brasil. E incluímos também os países da América Latina para aqueles que há uma sequência mais longa de participação em matemática no PISA podendo, portanto, falar-se em uma “tendência de resultados nas avaliações”.

Vamos entender o gráfico. Para cada país, há um conjunto de barras que representam cada um dos exames do PISA que aquele país realizou entre 2003 e 2015. Note, por exemplo, no primeiro conjunto de barras da Austrália, que ela vem levando tombos sucessivos no PISA desde que ele foi criado – ladeira abaixo. Nunca melhorou. Há uma barra menorzinha, na base do gráfico onde se lê o número -30. Sim, é isso, entre 2003 e 2015 a Austrália perdeu 30 pontos no PISA. Os dados e os cálculos são do National Center for Education Statistics dos Estados Unidos, pois o nosso INEP ainda está deitado em berço esplêndido…

Note em seguida o conjunto de barras dos Estados Unidos. Está oscilando estagnado em torno do mesmo valor e nas três últimas edições do PISA, também levou tombos sucessivos, ladeira abaixo. Note, na base das barras, que os Estados Unidos perderam 13 pontos desde que o PISA começou.

Depois temos o Chile – filial americana na área educacional – que participou de quatro edições do PISA. Suas barras indicam que caminha para a estagnação, com reduções sucessivas nos avanços de seu desempenho. No entanto, na diferença global, ele ainda preserva 12 pontos positivos que acumulou.

Temos a seguir o Uruguay que apesar de ter melhorado na presente edição do PISA, não consegue ainda recuperar os pontos que perdeu durante as edições do exame, tendo uma queda moderada de 4 pontos.

Finalmente, vamos ter três países bem similares nos resultados: México, Colômbia e Brasil. Note que em todos estes três casos há ganhos positivos no conjunto das edições do PISA superiores a 20 pontos.

Ao contrário da Colômbia, México e Brasil caíram na última edição do PISA. Mas o Brasil tem sua primeira queda em matemática apenas nesta edição de 2015.

Claro que estes países têm níveis globais de desempenho diferenciados que também sofrem a influência de seu nível socioeconômico e cultural. No caso latino-americano, é sabido que a área andina ou de fala espanhola têm outra procedência cultural que se reflete na área educacional, fazendo com que problemas estruturais que o Brasil só agora tenta resolver tenham sido resolvidos antes nesta área. Este é outro dos problemas que se tem com o PISA – ele esquece os fatores culturais que marcam as diferenças entre os povos e afetam os resultados.

Pois bem, bastou esta primeira queda brasileira no PISA de matemática para que a educação brasileira seja vista como um “caos” por um governo que se considera literalmente “salvador da Pátria”. No entanto, como se pode ver no gráfico, nas próprias medidas imprecisas do PISA, o Brasil tem um acumulado positivo de 21 pontos, mesmo com a queda pontual na última edição. Isso é mérito dos últimos 13 anos, mesmo que não aprovemos tudo o que foi feito nestes anos. Ao contrário deste resultado, a Austrália cai seguidamente e junto com os Estados Unidos acumulam pontos negativos.

Cada país deve ser contrastado com suas próprias condições e forças, tendo como referência a origem inicial da série de medições. Isso dá uma melhor ideia do esforço feito por aquele país na superação de seus problemas – supondo-se que a medida seja boa, e já vimos que não é. Comparar a média de um país com a média dos outros é indevido, pois esta reflete condições diferenciadas cultural e economicamente.

Mudando o critério do ranqueamento, em matéria de esforço, estamos à frente dos Estados Unidos e da Austrália, mesmo que a média deles seja mais alta, respondendo a condições econômicas e culturais. Durante o período de queda nas médias destes países, eles tentaram aplicar as mesmas receitas que agora se quer aplicar no Brasil, ao que parece, sem resultados visíveis nas médias.

(*) Artigo publicado originalmente no Blog do Freitas

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