OPINIÃO

Lágrima verde

Façanha alviverde não comoveu apenas a 'torcida que canta e vibra', mas emocionou até mesmo os não palmeirenses; talvez seja esta a verdadeira grandeza: transpor limites e voar em busca do etéreo, como uma lágrima verde é capaz de fazer

Um turista que passasse pelo Estádio do Palmeiras no fim de tarde do último domingo e visse tantas lágrimas nas arquibancadas havia de anotar em seu caderninho: “O antigo Palestra Itália caiu mais uma vez para a segunda divisão”. Se ainda pudesse estar vivo e quisesse escrever sobre o campeão brasileiro de 2016, o genial Nelson Rodrigues poderia iniciar alguma de suas crônicas desta forma, aludindo à imagem do turista que, deslocado de seu tempo e espaço, demora a perceber aspectos dos fatos que o cercam (aquilo que os anglófonos sintetizam tão bem no verbo “to realize”).

Ao contrário dos turistas que povoam os textos rodrigueanos – os quais buscam apontar, de forma sempre irônica, os paradoxos da alma brasileira –, o nosso turista imaginário teria cometido um equívoco monumental se imaginasse que as lágrimas presentes nos milhares de rostos dos torcedores fossem de tristeza.

Foto: Cesar Greco/ Agência Palmeiras

Rebaixamentos recentes talvez não tenham provocado tanto choro da torcida palmeirense; semiadormecido, o clube volta a colocar seu nome no andar de cima do futebol brasileiro

Não, o Palmeiras não caiu para a segunda divisão, como aquele choro coletivo poderia ingenuamente denunciar; pelo contrário, o alviverde imponente sagrou-se campeão brasileiro de futebol, 22 anos após a última conquista no torneio. O velho Parque Antarctica, rebatizado há dois anos como Allianz Parque (bem poderia ser chamado também de “Allianz Porc”), assistia assim, pela segunda vez, aos festejos de um novo título na nova arena, após a conquista da Copa do Brasil no final de 2015.

Mas por que milhares de palmeirenses desmoronaram em prantos muito antes que a partida diante da Chapecoense se aproximasse do final, a despeito da vitória que se mantinha tranquila por 1 x 0? O crítico de teatro Anatol Rosenfeld, nascido na Alemanha, mas igualmente conhecedor das coisas do Brasil como Nelson Rodrigues, aponta-nos algumas possibilidades de compreensão para esse fenômeno.

Ele vislumbrou no futebol brasileiro uma manifestação moderna de caráter inteiramente profano, mas ao mesmo tempo uma prática profana que se tornou objeto de culto, fator de transcendência e de redenção. Numa atividade esportiva em que tanta coisa depende da sorte ou do acaso, entende-se melhor por que os times procuram apoio nas esferas sobrenaturais irradiadas pela imensa carga de paixão das torcidas de futebol. É como se essas forças manifestamente míticas trouxessem um estímulo benéfico à equipe e, ao mesmo tempo, ocasionassem um desfavor demoníaco ao adversário.

Em vez da festa ordinária que as demais torcidas costumam fazer em seus estádios, os palmeirenses deram novo significado ao fenômeno que o historiador holandês Johan Huizinga descreveu em sua obra como a prática do potlatch: “uma grande festa solene, durante a qual um de dois grupos, com grande pompa e cerimônia, faz ofertas em grande escala ao outro grupo, com a finalidade expressa de demonstrar sua superioridade”.

Ao lado do multicolorido das plateias de futebol, das charangas e evoluções coreográficas, dos coros e gritos de guerra, a plateia palmeirense no velho Parque Antarctica quis demonstrar sua superioridade perante os demais grupos e adicionou a lágrima a seus festejos, elemento indissociável das grandes derrotas do futebol brasileiro e, a partir de agora, também um elixir que passa a acompanhar as vitórias por décadas aguardadas.

O Palmeiras conquistou o título brasileiro de 2016 com méritos e justiça – se é que isto serve para alguma coisa no futebol. Foi a equipe mais consistente num campeonato de pontos corridos, sistema de disputa que serve justamente para premiar a consistência. Mostrou solidez e unidade na gestão dos elementos internos e externos, e permaneceu na liderança da tabela ao longo de meses.

Soube resistir, como poucos, a um dos principais problemas que aflige atualmente o futebol brasileiro (para além da corrupção e da má administração): o êxodo dos grandes jogadores e das grandes promessas, que se transferem para o mercado externo no meio da temporada. Pois, o “Palestra” conseguiu segurar o seu nome mais sonante, Gabriel Jesus, negociado há meses com o futebol europeu, mas que só agora, depois do triunfo, é que se irá juntar ao milionário Manchester City da Inglaterra.

Depois que se sagrou campeão brasileiro pela última vez em 1994, o Palmeiras venceu a Copa do Brasil em três oportunidades (1998, 2012 e 2015), o Campeonato Paulista duas vezes (1996 e 2008) e a Libertadores da América uma vez (1999), apenas para citar as competições mais importantes. O alviverde não viveu nenhum grande jejum de títulos como os que afetaram outros clubes num passado recente. Sua altivez, entretanto, moldou uma massa adepta e uma massa associativa que não se contentam com pouco.

Após 1994, os palmeirenses assistiram a dez conquistas de seus rivais paulistas no campeonato nacional: cinco títulos do Corinthians, três do São Paulo e outros dois do Santos. Fica mais fácil compreender, assim, a simbologia para a alma palestrina de um novo título no Brasileirão: trata-se de retomar a distinção e a imponência que o clube sempre possuiu desde o seu nascimento, em 1914.

Os rebaixamentos do time para a segunda divisão em 2002 e 2012 – e o quase rebaixamento em 2014 – talvez não tenham provocado tanto choro como no último domingo. “Semiadormecido” por duas décadas, o Palmeiras agora recoloca seu nome no andar de cima do futebol brasileiro. Logrou essa façanha emocionando a “torcida que canta e vibra”, como diz o hino do clube, e emocionando até os que nem palmeirenses são, como o meu caso. Talvez seja esta a verdadeira grandeza dos grandes clubes: transpor os limites de seus muros e voar em busca do etéreo, como uma lágrima verde é capaz de fazer.

(*) José Carlos Marques é integrante do LUDENS (Núcleo Interdisciplinar de Pesquisas sobre Futebol e Modalidades Lúdicas) do Departamento de História da FFLCH-USP e docente do Programa de Pós-Graduação em Comunicação da Unesp/Bauru. Este artigo foi publicado originalmente no Jornal da USP.

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