OPINIÃO

Nas correntes de ódio, Trump navega

Se há poucos anos, todas as campanhas políticas da esquerda pregavam que o amor, ou a esperança, que ia vencer o medo, hoje esse amor se esgotou e a esperança parece ter tirado umas férias

No último episódio da quarta temporada do seriado americano House of Cards, o casal de presidente e vice, Frank e Claire Underwood, perceberam, no meio de um escândalo político, que o sentimento da população americana podia ser uma saída para evitar a queda do Poder. Apostaram no ódio mais puro e simples. No alto da Casa Branca, anunciaram e começaram a incitar a população para a guerra e para a intolerância.

Reprodução

'Se Hillary Clinton não consegue satisfazer seu marido, o que a faz pensar ser capaz de satisfazer a América?'; Muito ativo nas redes sociais, Trump conquistou muitos seguidores com mensagens de ódio durante campanha que se sagrou vencedora

Aquele não era apenas mais um episódio profético de um dos muitos seriados americanos disponíveis na tevê e na internet. Aquele episódio mostrava mais do que os bastidores da política de Washington. Mostrava o que realmente está acontecendo: a ascensão da direita mais reacionária e fascista em nível mundial. A mesma direita que hoje, por mais estranho que pareça, de alguma forma representa o novo. Uma nova/velha política, que conseguiu catalisar dois sentimentos simples, mas de profundas implicações, o ódio e a raiva. E, com eles, vêm a mentira, a intolerância, a misoginia, o racismo.

Se há poucos anos, todas as campanhas políticas da esquerda pregavam que o amor, ou a esperança, que ia vencer o medo, hoje esse amor se esgotou e a esperança parece ter tirado umas férias. A festa acabou. As pessoas passaram a entender o ódio, a viver de ódio, frustrados com uma vida que parece não ter sentido, baseada no consumo de coisas muitas vezes inúteis. A intolerância permeia as relações mais simples. Hoje, não existe amor que vença o ódio, como bem lembrou a campanha de Haddad no último mês. O ódio venceu.

E é esse mesmo ódio que está nos comentários da internet, destilando e remoendo venenos cotidianos. Esse ódio que é alimentado por pauta individualista e liberal, que aprendeu rapidamente a usar a internet para catalisá-lo.

Creative Commons

Com discurso racista, xenófobo, nacionalista, protecionista e machista, Donald Trump conquistou expressiva vítoria e se tornou o 45º presidente eleito dos Estados Unidos

O uso desses sentimentos pela direita não é algo novo. Mussolini soube usá-los em benefício próprio na Itália dos anos 1920 e 1930.  O todo poderoso ministro da propaganda de Hitler, Joseph Goebbels, usou a mais moderna máquina de propaganda da época, o cinema – com imagens que até hoje mostram de forma visualmente impactante o nazismo e os discursos de Hitler.

No mundo virtual circulam boatos, mentiras de toda espécie, informações falsas que ajudam a pôr lenha na fogueira cotidiana do ódio e do ressentimento. São correntes em grupos de WhatsApp, memes no Facebook, manchetes caluniosas – que muitas vezes têm origem em agências de publicidade. Pensar que são os imigrantes, os negros, as mulheres ou o vizinho o responsável pela sua desgraça e falta de perspectiva é uma maneira fácil de tentar pensar o mundo pela ótica do “salve-se quem puder”.  Ao saber usar essas ferramentas de informação de massa, catalisando ódio e a raiva, a direita mais uma vez coloca-se como o novo na política.

(*) Joana Monteleone é historiadora. 

Destaques

Últimas notícias