SUPERAÇÃO

Brasileira de 17 anos é destaque na Olimpíada Internacional de Neurociências

Moradora da Favela do Camarista, no subúrbio do Rio, Lorrayne Isidoro é a primeira aluna de escola pública a representar o Brasil na competição; a primeira estudante negra a ficar entre os finalistas e a primeira moradora de uma comunidade a representar o país

Estudante do 3º ano do ensino médio do Colégio Pedro II, Lorrayne Isidoro, de 17 anos, representou o Brasil na Olimpíada Internacional de Neurociências, entre os dias 30 de junho e 4 de julho, onde conquistou a 18ª colocação na classificação geral.

Foto: Arquivo Pessoal

Aluna do Colégio Pedro II, Lorrayne brilhou na competição internacional realizada na Dinamarca

Filha da professora particular Estela Meireles Isidoro e do vendedor ambulante Jorge Gonçalves, Lorrayne é a mais velha de quatro irmãs. Ela e a família moram no subúrbio do Rio de Janeiro, na favela do Camarista, no Méier.

Lorrayne é a primeira estudante de escola pública a representar o Brasil na competição internacional. É também a primeira estudante negra a ficar entre os finalistas, e a primeira moradora de uma comunidade a representar o País.

O interesse por neurociências surgiu por acaso, quando viu um cartaz no mural do colégio anunciando o curso de verão em neurociências e o convite para a competição. “Sempre tive interesse por diversas áreas e por ciências de forma geral, em me dedicar e fazer atividades diferentes. Acredito que as atividades extracurriculares são muito importantes, pois podemos ir além da sala de aula, desenvolver novas habilidades e descobrir do que gostamos ou não.”

A trajetória não foi fácil, e Lorrayne teve que superar diversos obstáculos para competir. O primeiro foi conciliar a escola com o conteúdo extra, já que neurociências não faz parte da grade curricular do ensino médio. A competição, que tem etapas de seleção regional e nacional, aborda questões de morfologia, farmacologia, linguística, biologia e química avançadas.

Preparação

“Eu separava momentos para estudar. No início, pesquisei matérias na Internet e depois comecei a estudar livros de graduação e pós-graduação. Tentava identificar meus pontos fortes e fracos nos conteúdos a serem estudados”, aponta a estudante. Ela diz que adorou estudar para a competição e destacou a importância de sua supervisora nesta etapa, a professora Camila Marra, que forneceu material para estudo e apoio.

Lorrayne se preparou por dois anos, participou de cursos de férias organizados pelo Ciência e Cognição – Núcleo de Divulgação Científica e Ensino de Neurociências (CeC-NuDCEN), da Universidade Federal Fluminense (UFF), e do grupo de estudo e incentivo à pesquisa científica do Programa de Vocação Científica (Provoc), da Fiocruz, além da sua rotina de estudos regular. Em 2015, competiu pela primeira vez na etapa nacional, conquistando o segundo lugar. Este ano, conquistou o primeiro lugar e foi convidada a representar o Brasil na etapa internacional, em Copenhague, capital da Dinamarca.

Mobilização

Seu próximo desafio foi custear a sua viagem e de sua orientadora.  O comitê organizador da etapa nacional, a Brazillian Brain Bee, organizou uma campanha de financiamento coletivo, que arrecadou 54 mil reais. “Felizmente, o valor pedido foi ultrapassado. Pude levar minha mãe comigo e foi uma das partes mais legais”, contou a jovem. A mãe, que a acompanhou na viagem, é a sua maior inspiração. “Ela sempre me ouve e me incentiva a refletir.”

O Fundo de Assistência Estudantil do Colégio Pedro II também ajudou com os custos da viagem. Com o dinheiro extra, também foi possível comprar um computador e um tablet, além de roupas de frio, para garantir que pudesse competir nas mesmas condições de seus concorrentes.

Lorrayne teve problemas com a emissão do seu passaporte e de sua mãe, que quase não ficaram prontos a tempo da viagem. Uma campanha na internet tentou mobilizar autoridades para a emissão de um passaporte de emergência, que com muito custo foi conseguido. Depois de todo o sufoco, seu passaporte comum ficou pronto na véspera da viagem e, por fim, Lorrayne pôde viajar.

Apesar de tudo, Lorrayne relata que a experiência foi enriquecedora. “Pude ter acesso a novas informações e conhecimento, e tive a oportunidade de fazer novas amizades. Tive enriquecimento cultural excepcional. Pude conhecer um pouquinho da capital da Dinamarca, Copenhague, que é uma cidade linda e que vou guardar em meu coração”, contou a jovem.

A competição, que durou 3 dias, consistia de provas totalizando 100 questões de neuroanatomia, neurohistologia, neurofisiologia e neurociências clínicas. Seu principal destaque foi na prova de diagnóstico de doenças, onde conquistou o segundo lugar. Isso a animou em relação a sua futura carreira: Lorrayne pretende cursar medicina e irá prestar vestibular este ano.

Suas expectativas para o futuro são boas, e a jovem está confiante. “Torço que na universidade haja vários projetos, e que, principalmente, eu faça a escolha certa de minha profissão e que com ela possa ajudar outras pessoas a se desenvolverem”, concluiu. Se for aprovada, ela será a primeira de sua família a cursar uma universidade.

Para os jovens que já buscam seguir a carreira científica, Lorrayne diz para que não desistam. “Sigam seus sonhos. Não importa o quanto difícil e improvável pareçam seus objetivos, nunca desistam de tentar e de avançar. Lutem com determinação e coragem e corram atrás de seus reais objetivos.”

 

(*) Texto originalmente publicado na edição 770 do Jornal da Ciência.

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