#ESCOLADEMOCRÁTICA

Luis Felipe Miguel: ‘Escola não deve se curvar às crenças da família e sim oferecer instrumentos para questioná-las’

‘Exigência de neutralidade contribui para que injustiças sejam reproduzidas sem questionamento’; professor titular de Ciência Política da UnB está no 22º vídeo da série produzida pelo Painel Acadêmico

“O Escola Sem Partido nasceu defendendo uma educação neutra. Mas a gente sabe que essa neutralidade é uma besteira, porque não existe conhecimento que não seja socialmente situado. Se a exigência de neutralidade faz com que, por exemplo, a escola não possa apresentar visões críticas do mundo social, isso contribui para que as injustiças presentes neste mundo sejam reproduzidas sem questionamento.”

Professor titular do Instituto de Ciência Política da UnB (Universidade de Brasília), Luis Felipe Miguel é coordenador do Demodê (Grupo de Pesquisa sobre Democracia e Desigualdades). Graduado em Comunicação Social pela UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina), mestre em Ciência Política pela UnB e doutor em Ciências Sociais pela Unicamp (Universidade Estadual de Campinas), ele está no 22º vídeo da série #EscolaDemocrática, produzida pelo Painel Acadêmico.

“O Escola Sem Partido aderiu à pauta dos fundamentalistas religiosos e passou a pregar que a escola não pode, em hipótese alguma, apresentar conteúdos que contrariem as crenças e valores da família. Com isso, pretende sobretudo impedir que a escola faça sua parte no combate à desigualdade de gênero”, afirma o professor. “A desigualdade de gênero é a raiz de violências que levam, inclusive, ao assassinato de mulheres, gays, lésbicas e travestis. Querer impedir que a escola discuta as assimetrias de gênero é querer fazer com que a escola fique calada diante de uma forma de obscurantismo que tem uma incidência muito grave na vida de milhões de pessoas”, completa.

Segundo Miguel, a escola não só não tem de ter a obrigação de reproduzir os mesmos valores da família, mas deve fornecer os instrumentos necessários para que as crianças e jovens possam questioná-los.

“É absolutamente incorreto julgar que a escola deve se curvar desta maneira às crenças e valores da família. A escola é um espaço de socialização. É a inicialização de crianças e jovens na esfera pública. Na escola, crianças e jovens aprendem a conviver com visões de mundo diferentes. E ao mesmo tempo, na escola e nessa convivência, crianças e jovens recebem instrumentos para inclusive analisar criticamente a visão de mundo que receberam da família. É um passo fundamental para que se tornem adultos autônomos e cidadãos conscientes prontos para viver em uma sociedade democrática”, conclui o professor.

#EscolaDemocrática

O site Painel Acadêmico acredita que o Escola Sem Partido – que mistura uma ação militante na sociedade com a apresentação por parlamentares em níveis municipais, estaduais e federal de projetos de lei com conteúdos semelhantes –, longe de trazer equilíbrio para a sala de aula, levará a um progressivo encolhimento do espaço de conhecer e aprender.


Luis Felipe Miguel, professor titular da UnB e coordenador do grupo de pesquisa Demodê

Para explicar como isso pode acontecer, iniciamos no último dia 18 a publicação de depoimentos de diferentes atores do espaço escolar e acadêmico sobre o projeto.

Nos próximos dias, continuaremos com a divulgação dos vídeos, abordando diferentes posições. Como se poderá constatar, o contrário da Escola Sem Partido não é a “escola com partido”.  É a #EscolaDemocrática. Por ela pautamos nossa atuação e nossa cobertura jornalística. Ela é que garante que a escola seja o palco de um dos mais importantes aprendizados para o livre debate das ideias, o aprendizado do debate e da convivência – sem imposições, sem censura, sem terror.

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