#ESCOLADEMOCRÁTICA

Roberto da Silva: ‘Escola Sem Partido quer transformar professores em máquinas de ensinar sem paixão e motivação’

“Se retirarmos a dimensão informativa dos cursos de formação de professores, o que sobra?”, pergunta o professor da Faculdade de Educação da USP que está no 19º vídeo da série produzida pelo Painel Acadêmico

“Em síntese, a proposta denominada Escola Sem Partido retiraria dos cursos de formação de professores toda a capacidade crítica e analítica em relação à História da Educação para tornar os futuros professores apenas máquinas de ensinar, sem gostos, sem preferências, sem paixões e sem motivações pessoais. Dá para imaginar que tipo de professores estaríamos formando no futuro?”

Professor Livre Docente da Faculdade de Educação da USP, Roberto da Silva dá aulas sobre políticas educacionais para os cursos de Pedagogia, onde também orienta projetos de mestrado, doutorado e pós-doutorado. Sua trajetória de vida, pessoal e profissional, foi tema da reportagem “O Estado destruiu minha família”, publicada em setembro do ano passado (leia aqui).

Personagem do 19º vídeo da #EscolaDemocrática, série produzida pelo Painel Acadêmico, Silva trabalha na linha de frente da formação de professores e explica que, durante as aulas, é comum dar maior atenção ao estudo da estrutura, organização e funcionamento da Educação Básica no Brasil, uma vez que este é o setor onde a maioria dos formandos atuará profissionalmente.

“Eu particularmente, privilegio três abordagens no trato com as políticas educacionais. Primeiro, tratar da dimensão histórica; segundo, tratar da dimensão legal, legislativa, que contempla a estrutura organização e funcionamento; e em terceiro lugar, estudar a questão do acesso, da permanência e do rendimento escolar”, explica Silva.

De acordo com o professor, nenhuma destas três abordagens poderia ser desenvolvida sem a contextualização dos períodos históricos atravessados pelo Brasil, que por sua vez remetem às correlações de forças que em dado momento assumiram o Poder no país.

“A abordagem disso na formação de professores é importante, para que tenhamos noção de onde partimos, onde estamos e onde queremos chegar, como também historiar os avanços e os retrocessos na Educação e os desafios que deverão ser enfrentados. Se subtrairmos essa dimensão informativa dos cursos de formação de professores, como quer a proposta do Escola Sem Partido, o que sobra?”, pergunta o professor. “No meu ponto de vista, sobra uma abordagem predominantemente tecnicista, com ênfase em métodos e técnicas de ensino que não dá conta de cumprir as finalidades da Educação estabelecidas no artigo 206 da Constituição Federal de 1988, que é buscar e proporcionar o pleno desenvolvimento da pessoa, seu preparo para o exercício da cidadania e o sua qualificação para o trabalho!”, completa.

Roberto da Silva afirma que uma escola livre da influência de partidos políticos é algo “altamente desejável”, mas acredita que o projeto Escola Sem Partido não vislumbra necessariamente este objetivo.

“Escola Sem Partido não é necessariamente a proposta de uma escola livre de influências de partidos políticos, o que seria altamente desejável. Mas de uma escola que ignora o país, que ignora o espaço das disputas político-ideológicas que é a Educação e que omite as lutas dos movimentos sociais e populares por uma Educação pública, laica, gratuita e de qualidade”, destaca.

#EscolaDemocrática

O site Painel Acadêmico acredita que o Escola Sem Partido – que mistura uma ação militante na sociedade com a apresentação por parlamentares em níveis municipais, estaduais e federal de projetos de lei com conteúdos semelhantes –, longe de trazer equilíbrio para a sala de aula, levará a um progressivo encolhimento do espaço de conhecer e aprender.

Foto: Laisa Beatris

Professor Roberto da Silva, Livre Docente na Faculdade de Educação da USP

Para explicar como isso pode acontecer, iniciamos no último dia 18 a publicação de depoimentos de diferentes atores do espaço escolar e acadêmico sobre o projeto.

Nos próximos dias, continuaremos com a divulgação dos vídeos, abordando diferentes posições. Como se poderá constatar, o contrário da Escola Sem Partido não é a “escola com partido”.  É a #EscolaDemocrática. Por ela pautamos nossa atuação e nossa cobertura jornalística. Ela é que garante que a escola seja o palco de um dos mais importantes aprendizados para o livre debate das ideias, o aprendizado do debate e da convivência – sem imposições, sem censura, sem terror.

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