#ESCOLADEMOCRÁTICA

Rafael Marquese: 'desconsiderar Marx é como, em Biologia, jogar Darwin de lado'

'É possível falar sobre mundo social sem falar sobre Marx? Evidentemente que não'; professor e livre-docente pelo Departamento de História da USP, historiador está no sexto vídeo da série produzida pelo Painel Acadêmico

Criticado por alguns, elogiado por outros. Apesar de ter morrido há 133 anos, o filósofo alemão Karl Marx (1818-1883) ainda desperta as mais variadas paixões.

Opiniões pessoais colocadas de lado, no entanto, é difícil deixar de reconhecer a qualidade de sua produção científica e sua importância para o pensamento ocidental. Autor de O Capital, uma das obras acadêmicas mais influentes da história, Marx é responsável por uma análise robusta do sistema econômico global, marcada, por exemplo, pela definição de conceitos como ‘mais-valia’, resultado da exploração da força de trabalho dos assalariados pelas classes sociais dominantes proprietárias dos meios de produção.

Apesar disso, o intelectual é apontado como um dos grandes vilões da educação brasileira pelo movimento Escola Sem Partido. Tratada pelos militantes do projeto, que defendem a neutralidade do ensino, como uma teoria que tem apenas “fins políticos”, o marxismo é destacado como um dos responsáveis pela doutrinação dos alunos por professores influenciados pelas ideias do socialismo.  

“É possível falar sobre mundo social sem falar sobre Marx? Evidentemente que não. Jogar Marx de lado é mais ou menos como, em Biologia, jogar Darwin de lado”, afirma Rafael de Bivar Marquese, professor do Departamento de História da USP (Universidade de São Paulo).

Livre-docente em História da América Colonial e pós-doutor pela Binghamton University, nos Estados Unidos, Marquese é coordenador do Lab-Mundi (Laboratório de Estudos sobre o Brasil e o Sistema Mundial), da USP. O historiador, especializado em História Econômica, está no sexto vídeo da série #EscolaDemocrática, produzida pelo Painel Acadêmico.

“Este projeto da Escola Sem Partido, do meu ponto de vista, é um dos projetos mais desmiolados que existem na atual conjuntura brasileira. Por uma razão muito simples: é possível falar sobre o mundo social, sobre o mundo econômico, sobre o mundo político, sem dialogar com toda a tradição de pensamento social elaborado pelo ocidente, desde o século 19 até os dias presentes? A resposta é, claramente, não”, ressalta Marquese.

#EscolaDemocrática

O site Painel Acadêmico acredita que o Escola Sem Partido – que mistura uma ação militante na sociedade com a apresentação por parlamentares em níveis municipais, estaduais e federal de projetos de lei com conteúdos semelhantes –, longe de trazer equilíbrio para a sala de aula, levará a um progressivo encolhimento do espaço de conhecer e aprender.


Rafael de Bivar Marquese, professor do Departamento de História da USP

Para explicar como isso pode acontecer, iniciamos na última quinta-feira (18/8) a publicação de depoimentos de diferentes atores do espaço escolar e acadêmico sobre o projeto.

Nos próximos dias, continuaremos com a divulgação dos vídeos, abordando diferentes posições. Como se poderá constatar, o contrário da Escola Sem Partido não é a “escola com partido”.  É a #EscolaDemocrática. Por ela pautamos nossa atuação e nossa cobertura jornalística. Ela é que garante que a escola seja o palco de um dos mais importantes aprendizados para o livre debate das ideias, o aprendizado do debate e da convivência – sem imposições, sem censura, sem terror.

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