#ESCOLADEMOCRÁTICA

Lisete Arelaro: 'Escola Sem Partido quer calar professores preocupados com formação crítica dos jovens'

Professora titular e ex-diretora da Faculdade de Educação da USP, Lisete integrou equipe de Paulo Freire na passagem do educador pela Secretaria Municipal de Educação de São Paulo

Terceiro pensador mais citado em trabalhos acadêmicos de todo planeta; dono de 29 títulos de Doutor Honoris Causas em universidades de Europa e América; vencedor do prêmio Educação Para a Paz, da Unesco (Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura); autor de A Pedagogia do Oprimido, único representante brasileiro na lista dos 100 livros mais pedidos por universidades de língua inglesa no mundo.

Nenhum destes feitos foi suficiente para tirar o pedagogo pernambucano Paulo Freire (1921-1997) da mira dos militantes do Escola Sem Partido. Apontado pelo movimento como o “Pedagogo do PT”, o educador, que atualmente é reconhecido pelo MEC (Ministério da Educação) como o Patrono da Educação Brasileira, é um dos alvos preferidos do movimento.

“Estou bastante preocupada com este movimento [Escola Sem Partido] que, neste momento político, se apresenta de uma forma descarada, cínica”, afirma a pedagoga Lisete Arelaro, em depoimento para o quinto vídeo da série #EscolaDemocrática, produzida pelo Painel Acadêmico.

Professora titular sênior da Feusp (Faculdade de Educação da USP), instituição da qual fora diretora entre os anos de 2010 e 2014, Lisete já foi secretária da Educação do município de Diadema (SP) por duas oportunidades (1993-1996 e 2001-2002). Atual presidente da Fineduca (Associação Nacional de Pesquisa em Financiamento da Educação), a pedagoga integrou a equipe técnica e trabalhou como assistente direta de Paulo Freire durante sua gestão na Secretaria Municipal de Educação de São Paulo (1989/1992).

“É importante que cada professor e professora saibam que o que está se propondo com este movimento [Escola Sem Partido] é calar os professores que estão trabalhando com a preocupação de formação crítica de nossos jovens”, destaca Lisete.

Entre as propostas do Escola Sem Partido está a criação de um canal de comunicação nas secretarias de Educação exclusivo para o recebimento de reclamações de pais e alunos sobre professores que emitam opiniões sobre política, religião ou ideologia na escola. O projeto determina, inclusive, que todas as queixas sejam encaminhadas para o Ministério Público.

“Não tenho dúvida que, se você quer ver um país emancipado, uma educação crítica, solidária, que possa realmente defender e formar com valores éticos, você tem que ser contra este movimento. Não deixem que eles calem vocês, não deixem que a ideia de um currículo único se instale no Brasil e que você só possa trabalhar com os conteúdos que eles definirem que são os melhores para sua disciplina e para seus alunos”, ressalta Lisete.

#EscolaDemocrática

O site Painel Acadêmico acredita que o Escola Sem Partido – que mistura uma ação militante na sociedade com a apresentação por parlamentares em níveis municipais, estaduais e federal de projetos de lei com conteúdos semelhantes –, longe de trazer equilíbrio para a sala de aula, levará a um progressivo encolhimento do espaço de conhecer e aprender.


Lisete Arelaro, professora titular e ex-diretora da Faculdade de Educação da USP

Para explicar como isso pode acontecer, iniciamos na última quinta-feira (18/8) a publicação de depoimentos de diferentes atores do espaço escolar e acadêmico sobre o projeto.

Nos próximos dias, continuaremos com a divulgação dos vídeos, abordando diferentes posições. Como se poderá constatar, o contrário da Escola Sem Partido não é a “escola com partido”.  É a #EscolaDemocrática. Por ela pautamos nossa atuação e nossa cobertura jornalística. Ela é que garante que a escola seja o palco de um dos mais importantes aprendizados para o livre debate das ideias, o aprendizado do debate e da convivência – sem imposições, sem censura, sem terror.

Destaques