#ESCOLADEMOCRÁTICA

Tadeu Chiarelli: ‘conhecimento não se dá apenas pela informação, mas pela capacidade de discussão’

Livre-docente na ECA-USP e um dos principais especialistas em História da Arte no país, diretor-geral da Pinacoteca de São Paulo está no quarto vídeo da série produzida pelo Painel Acadêmico

Arthur Timótheo da Costa, Estêvão Silva, Antonio Bandeira. Praticamente desconhecidos para a maioria dos brasileiros, este são nomes de artistas muito importantes para a história das artes plásticas no país. A invisibilidade, no entanto, pode ser relacionada a um fator comum entre eles: todos são negros.

Muitas vezes ignorados pela crítica especializada, estes artistas evidenciam como o racismo ainda está presente no Brasil, inclusive no campo das artes.

Apesar de sua importância, este tema, que remonta ao passado escravista do país, poderá ter de deixar de ser discutido dentro das salas de aulas brasileiras. Isto porque, de acordo com o movimento Escola Sem Partido, além de não poderem emitir opiniões sobre política, ideologia e religião, ao tratar de questões sócio-culturais, os professores teriam de apresentar versões, teorias, opiniões e perspectivas “concorrentes” – ou seja, opostas - a respeito da matéria.

“Como ensinar história da arte, ou como ensinar história da arte no Brasil no século XIX, quando você tem que abordar a condição do artista negro naquele contexto e não levar em consideração, não se posicionar sobre a situação da escravidão naquele momento e os efeitos que nós percebemos até hoje dentro da sociedade brasileira, com uma invisibilidade do profissional negro dentro dessa área?”, indaga Tadeu Chiarelli, professor Livre-Docente da ECA-USP (Escola de Comunicações e Artes da USP).

Considerado um dos maiores especialistas em História da Arte no Brasil, Chiarelli também é diretor-geral da Pinacoteca do Estado de São Paulo e está no terceiro vídeo da #EscolaDemocrática, série produzida pelo Painel Acadêmico.

“Se você não puder discutir e se posicionar perante uma grande parcela da população brasileira que desenvolveu trabalhos significativos no campo das artes plásticas porque você não pode problematizar esse fato, o que vai acontecer com o país?”, questiona Chiarelli. “Acredito que o conhecimento não se dá apenas pela informação. Ele se dá justamente pela capacidade de discussão, pela capacidade de problematizar as questões que são trazidas pela história”, completa.

O diretor da Pinacoteca ressaltou também que o problema pode ser ainda maior, uma vez que as medidas propostas pelo Escola Sem Partido são voltadas para toda a educação nacional.


Tadeu Chiarelli, diretor-geral da Pinacoteca do Estado de São Paulo

“Tenho muita clareza que estou falando no âmbito da Universidade, de um curso muito específico. Se isso é um problema na minha área, eu fico imaginando em todo o processo de formação dos estudantes brasileiros se esta proposta vier a ser de alguma maneira homologada no país. É uma questão que preocupa a todos”, afirma.

#EscolaDemocrática

O site Painel Acadêmico acredita que o Escola Sem Partido – que mistura uma ação militante na sociedade com a apresentação por parlamentares em níveis municipais, estaduais e federal de projetos de lei com conteúdos semelhantes –, longe de trazer equilíbrio para a sala de aula, levará a um progressivo encolhimento do espaço de conhecer e aprender.

Para explicar como isso pode acontecer, iniciamos na última quinta-feira (18/8) a publicação de depoimentos de diferentes atores do espaço escolar e acadêmico sobre o projeto.

Nos próximos dias, continuaremos com a divulgação dos vídeos, abordando diferentes posições. Como se poderá constatar, o contrário da Escola Sem Partido não é a “escola com partido”.  É a #EscolaDemocrática. Por ela pautamos nossa atuação e nossa cobertura jornalística. Ela é que garante que a escola seja o palco de um dos mais importantes aprendizados para o livre debate das ideias, o aprendizado do debate e da convivência – sem imposições, sem censura, sem terror.

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