#ESCOLADEMOCRÁTICA

Luiz Felipe de Alencastro: 'Escola Sem Partido é questão desprovida de sentido'

'Imbricação da interpretação política na história é fundamental. É por isso que a história'; professor emérito da Sorbonne, Alencastro abre campanha do Painel Acadêmico contra o Escola Sem Partido

Desde os primeiros anos na escola, todos nós aprendemos nas aulas de história que os quilombos eram os locais onde se abrigavam os escravos que conseguiam escapar dos grilhões e das torturas de seus senhores. Atualmente, inclusive, em 20 de novembro celebramos o Dia Nacional da Consciência Negra, marcado pela morte de Zumbi, líder do emblemático Quilombo dos Palmares e considerado um ícone da luta do povo negro pela liberdade e cidadania.

Mas nem sempre foi assim. Se hoje todos concordam que os quilombos eram espaços de resistência contra a opressão, houve o tempo em que estes locais eram tratados como caso de polícia pelos historiadores.

“No século XIX, quando a escravidão era legítima no Brasil, Varnhagen* (Francisco Adolfo de Varnhagen, historiador e diplomata, 1816-1878) escrevia que os quilombos eram caso de política, e que ele não iria tratar como um tema da história geral do Brasil. Isso pra ficar em um exemplo concreto”, explica o historiador Luiz Felipe de Alencastro, professor emérito da Universidade de Sorbonne, na França.

Considerado um dos maiores nomes da historiografia brasileira, Alencastro acredita que a interpretação política é fundamental na história e é contra o projeto Escola Sem Partido. Seu depoimento marca a abertura da #EscolaDemocrática, uma campanha promovida pelo Painel Acadêmico.

“O Escola Sem Partido é uma questão meio desprovida de sentido, porque a imbricação da interpretação política na história é fundamental. É por isso que a história muda, aliás”, explica Alencastro. 

#EscolaDemocrática

O site Painel Acadêmico acredita que o Escola Sem Partido – que mistura uma ação militante na sociedade com a apresentação por parlamentares em níveis municipais, estaduais e federal de projetos de lei com conteúdos semelhantes –, longe de trazer equilíbrio para a sala de aula, levará a um progressivo encolhimento do espaço de conhecer e aprender.

Para explicar como isso pode acontecer, o Painel Acadêmico inicia hoje a publicação de depoimentos de diferentes atores do espaço escolar e acadêmico sobre o projeto.

Nos próximos dias, continuaremos com a divulgação dos depoimentos, abordando diferentes posições. Como se poderá constatar, o contrário da Escola Sem Partido não é a “escola com partido”.  É a #EscolaDemocrática. Por ela pautamos nossa atuação e nossa cobertura jornalística. Ela é que garante que a escola seja o palco de um dos mais importantes aprendizados para o livre debate das ideias, o aprendizado do debate e da convivência – sem imposições, sem censura, sem terror.

(*) Autor de História Geral do Brasil, Francisco de Adolfo Varnhagem integrou o IHGB (Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro) e é considerado um dos fundadores da historiografia brasileira.

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