OPINIÃO

A 'homofobia-padrão' na escola

Durante a idade escolar, a homofobia foi se tornando uma segunda pele, um hábito, um rito de passagem obrigatório que demorou anos para ser superado

Quando eu estava em idade escolar, a homofobia era um rito de passagem. Era obrigatório. Era parte indissociável do pacote que era "ser um garoto". Mostrar aversão aos gays, evitar proximidade com qualquer um acusado de ser gay, contar piadas homofóbicas e rir delas: quem não seguisse o padrão estava condenado ao ostracismo ou, pior ainda, à suspeita de ser, ele próprio, o gay a ser perseguido.

Lembro que, naquilo que ainda era chamado de "segundo grau", tive um colega que tinha um jeito "efeminado". Um rapaz inteligente, sensível. Nas vezes em que conversamos, percebi que tínhamos vários gostos em comum, sobretudo quanto a escritores preferidos. Mas é claro que eu, covarde, só conversava com ele nas raras ocasiões em que não havia outros colegas por perto.

Não éramos só nós, estudantes. Os professores também o discriminavam, alguns de forma agressiva. Lembro quando um professor - "progressista", "bacana" - pediu que parássemos de hostilizar o colega. Mas o argumento foi: "Vocês devem é ter pena dele. E dos pais dele. Imagina a desventura que é ter um filho assim?"

Sei que muitos de nós entendíamos o caráter ritualístico dessa aversão. Mas não importa: a homofobia foi se tornando uma segunda pele, um hábito, um comportamento que incorporamos graças ao treinamento social tão eficaz que recebemos. E, depois, superar essa homofobia foi um trabalho de anos. Um trabalho que não termina, já que as marcas desse treinamento precoce e sistemático sempre estão prontas para reaparecer - e é necessário, a cada vez, afastá-las e reafirmar: "isso não sou eu".

Muitos, é claro, nunca superam, nem mesmo tentam. Permanecem confortáveis e encontram na sua homofobia, como podem encontrar no seu racismo, misoginia ou xenofobia, um consolo para sua vida frustrada e minúscula.

Penso no meu colega e no pesadelo que foi sua vida escolar. Penso no jovem que agora, no final de semana, foi espancado até a morte, na UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro), pelo crime de ser gay. Penso nas centenas de gays, lésbicas e travestis que são mortos no Brasil todos os anos, nos milhares de agressões físicas, nos milhões de gestos diários de hostilidade, de desprezo, de rechaço. No sofrimento que isso representa.

E penso nos deputados, sacerdotes e cidadãos de bem que fazem da perpetuação dessa violência uma prioridade de suas vidas. Uns são movidos por ódio e preconceito, outros por cálculo e oportunismo - não sei quais são os piores. O combate à homofobia nas escolas, a necessária discussão sobre gênero nas escolas: são causas tão óbvias, são ações que promovem valores que deviam ser tão consensuais (o fim da violência, a ampliação da autonomia, o respeito, a igualdade), que o fato de que não consigamos avançar nelas é a prova mais gritante do terrível, do colossal atraso mental que nos cerca.

(*) Luis Felipe Miguel é professor de Ciência Política na UnB (Universidade de Brasília) e coordenador do Demodê (Grupo de Pesquisa sobre Democracia e Igualdade). Este texto foi originalmente publicado em sua página pessoal no Facebook.

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