DEMOCRACIA A UNIVERSIDADE

Produção acadêmica em regimes repressivos evita temas controversos, aponta estudo

Países como China e Arábia Saudita produzem muito pouco sobre história e política

A produção acadêmica de países como China e Arábia Saudita, quando comparada com democracias estabelecidas, evidencia uma enorme lacuna em campos como ciências políticas e história, segundo revelou estudo feito pela revista britânica Times Higher Education.

No caso chinês, por exemplo, entre 2013 e 2016, apenas uma publicação em cada 500 tratava de tópicos ligados às ciência humanas. No Reino Unido, segundo o estudo, a proporção é de um artigo em cada 20.

Apesar do recente crescimento na produção acadêmica chinesa, o país contribui muito pouco para o estudo de campos como história, ciência política, relações internacionais e sociologia.

Usando a base de dados do Elsevier’s Scopus e o Free House ranking, a pesquisa apresentou uma relação moderada entre a prevalência de regimes democráticos com o desenvolvimento de pesquisa acadêmica em temas “controversos”.

No período de 2013 a 2015, a China publicou 1.5 milhão de artigos, atrás apenas dos Estados Unidos, superando em mais do que o dobro a produção do Reino Unido, terceiro colocado. Porém, ao se tratar de temas sensíveis ao regime chinês, o país publicou 436 artigos, menos do que a Argentina.

Foto: Times Higher Education

Na vertical, porcentagem de publicações sobre temas "sensíveis". Na horizontal, nível liberdade de regimes baseado no Free House ranking de 2013. 

Em entrevista ao Times Higher Education, Kerry Brown, ex- secretário da embaixada britânica em Pequim, comentou que o sistema educacional chinês “prioriza e privilegia o estudo de ciências e economia.”

“Para o jovem pesquisador chinês, o cálculo é simples: ou se aprofunda em uma área na qual há menor sensibilidade política e maior capacidade de financiamento, ou se dedica a um campo onde há mais problemas e menos dinheiro”, explicou Brown.

Desde 2012, com a chegada do presidente Xi Jinping ao poder, houve um aumento de tensão no clima político chinês. Um dos reflexos é a maior repressão do pensamento “ocidental” nas universidades.

Recentemente, o jornal The Guardian reportou um aumento no número de acadêmicos chineses que viajam para os Estados Unidos em busca de maior liberdade de produção.

No caso chinês, porém, outros fatores podem contribuir para o que foi constatado pela pesquisa da Times Higher Education. No leste da Ásia, disciplinas de ciência humanas são tradicionalmente pouco valorizadas. No Japão, por exemplo, apenas 0,4% dos artigos tocam em assuntos ligados às humanidades, na Coréia do Sul, a parcela é de 0,7%.

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