HISTORIADORES PELA DEMOCRACIA

Nada, jamais, deve dispensar o historiador do dever de explicar

Para Historiadores pela Democracia, protestar pelo Estado democrático de direito é mais do que nunca um imperativo

Lendo o sofrível artigo “Formação de quadrilha”, de Demétrio Magnoli, na Folha de São Paulo do último domingo (26/5), no qual se nomeia de quadrilha o grupo Historiadores pela Democracia, e lembrando do editorial do Estadão de 14 de junho, que acusa esses mesmos historiadores - que reconhecem o rompimento com o Estado democrático - de quererem antecipar a história que será escrita no futuro, duas são as constatações: 1) os dois grandes veículos dessa imprensa golpista permanecem no mesmo lugar, prestando sempre um enorme desserviço à informação de qualidade para seus leitores; 2) há um entendimento deturpado daquilo que é a História e do papel dos historiadores.

Bater-se pelo Estado democrático de direito e pelas instituições públicas republicanas, frutos históricos de grandes e duras lutas pela democracia e contra o Estado de exceção é mais do que nunca um imperativo. As respostas às afrontas, na luta política, não devem se dar, a meu ver, pela demonização das direitas e de seus fiéis escudeiros – comumente ressentidos e recalcados com a academia. Essas respostas devem ser dadas com a ocupação dos espaços de debate, multiplicando nossos posicionamentos em diferentes frentes; forçando sua aceitação, inclusive, nos mesmos meios de divulgação que veicularam os conteúdos que suscitaram nossa indignação. Mais eficazes e importantes serão as respostas quanto mais esclarecerem, mais explicarem, mais mobilizarem.

No começo da década de 1990, a helenista francesa Nicole Loraux contra-argumentava com erudição (no texto “La démocratie à l’épreuve de l’étranger”) os usos do conceito de democracia grega, contra os estrangeiros na França, pelo Front National. Concordando com Moses  Finley, Loraux postulava que nada, jamais, deve dispensar o historiador do dever de explicar.

Essa postura se voltava para a necessidade da historiadora de combate intelectual ao Front National e sua política xenofóbica, no caso específico, contra a instrumentalização contemporânea do conceito de democracia ateniense como pretexto de exclusão dos imigrantes. Loraux analisava, nesse estudo, os usos dos “Vinte e cinco séculos de tradição jurídica e política” – título de uma fala da então deputada pelo Front National, Marie-France Stirbois, com a qual visava obter uma autoridade discursiva sobre eleitores e parlamentares.

Em seu estudo a helenista estabelecia uma longa preleção sobre a democracia grega, à qual se seguia uma erudita desconstrução do texto da parlamentar (Discussion du projet de loi Jean-Claude Gayssot tendant à réprimer tout acte raciste, antisémite ou xénophobe), que evocava a importância e o lugar na atualidade das “primeiras democracias”, “democracias autênticas”, para justificar a discriminação necessária.

Essa lembrança sempre me vem quando penso no imperativo dos historiadores de explicar o que foram as ditaduras e o que foi a ditadura brasileira. Explicar o que é um Estado de exceção e o que é um Golpe de Estado. Explicar, enfim, o que faz parte de um regime democrático e o que não faz.

Creio que estamos respondendo e explicando. Creio que devamos intensificar isso ocupando todos os espaços possíveis e fazendo uso de todos os meios. Creio que enquanto não fizermos isso correremos sempre o risco de deixarmos a maior ou a única visibilidade aos tantos Magnolis e Villas que povoam, com seu pensamento elitista e rasteiro, o espaço da grande mídia golpista.

Como diz o amigo e historiador André Machado, a História não nos absolverá!

(*) Glaydson José da Silva é historiador 

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