OPINIÃO

Deus estava no lugar certo na votação do impeachment

Deus criou uma ordem: os homens mandam nas mulheres, os patrões nos empregados; não é um mistério que esteja na boca de agressores

Admito envergonhada minha ingenuidade. Eu não esperava que fosse tão fácil destruir o que vem sendo construído há pelo menos 30 anos. Também admito que nutri esperanças na capacidade de o Judiciário impedir o avanço do golpe. Mesmo agora, tenho de reconhecer, estou em dúvida - um resto de ingenuidade? – se o Judiciário não fez nada ou fez algo muito feio. E, claro, o maior dos meus equívocos, o mais vergonhoso: eu não esperava que o Legislativo fosse aquele circo de horrores. 

Mas não fui ingênua (isso não!) de me surpreender com a presença de Deus e da família nas declarações de voto dos nobres deputados. Deus tinha mesmo que estar ali onde estava. É para isso que Ele serve. Muitos daqueles homens realmente acreditam no que falam. Eles certamente são hipócritas quando dizem que estão ali para pôr fim à corrupção. Olhem para as gravações do espetáculo de ontem: alguns até riem ao vociferar contra a corrupção, péssimos atores que são.

Mas eles acreditam, sim, que existe um Deus; que Deus criou uma ordem; que essa ordem é hierárquica: os homens mandam nas mulheres, os patrões mandam nos empregados; os brancos mandam nos negros; os fortes mandam nos fracos; os ricos mandam nos pobres. O mundo é assim porque Deus quis.

Fabio Rodrigues Pozzebom/ ABr

"Com a ajuda de Deus, pela minha família e pelo povo brasileiro, pelos evangélicos da nação toda, pelos meninos do MBL, pelo Vem pra Rua, dizendo que Olavo tem razão, dizendo tchau pra essa querida, e dizendo tchau ao PT, Partido das Trevas, eu voto sim!", disse o deputado Marco Feliciano, líder da bancada evangélica, na votação de domingo (17/4) 

Sim, eles são simplórios, isso é evidente e não surpreende.

E eles são brutais na mesma medida. Para eles, existem dois lados, o de Deus e o de quem está contra Deus, mesmo que religioso.

Dilma é mulher, divorciada, ex-guerrilheira. Quando os chefes do rebanho mandam, o baixo-clero pode até aceitar apoiar essa mulher. Há vantagens em jogo, além disso. É, entretanto, algo que visceralmente ataca suas crenças e até seus interesses. Mulher tem de obedecer, não mandar.

Na cabeça desses homens, quando uma mulher manda, ela diminui a masculinidade e o poder deles. Quando os homossexuais não precisam mais se esconder, rebaixa-se o poder de execrá-los publicamente, agredi-los, condená-los ao silêncio. Quando a universidade se torna mais acessível aos pobres, ofende-se profundamente o senso moral de justiça desses homens. Que o aborto seja permitido é algo que escancararia a impotência deles.

Que eles tenham amantes e sejam, parte deles, homossexuais; que abusem de crianças, sexual ou socialmente, não é mais uma de suas atitudes contraditórias, pelo contrário. É coerente.

Uma coisa é fazer isso meio escondido, como transar com uma prostituta menor de idade depois da missa ou do culto, mesmo que toda a cidade saiba. Não há mal nisso, como já ensinou Nelson Rodrigues.

Outra coisa é que a lei proteja a mulher, o negro, o homossexual, o pobre. Quando a lei e o mundo público evitam a dominação, destrói-se a ordem natural das coisas. Por isso a tortura se justifica. Por isso o Bolsonaro. É um sistema de crenças homogêneas e coesas. 

É pior que isso. É mais um tapa na cara de quem tem valores morais e políticos antagônicos.

Eu achava que a violência destes tapas diminuiria, ainda que aos poucos. Mas o fato é que estamos aguentando esses golpes há muito tempo. Já nos envergonhamos de termos aguentado tanto e de termos procurado contemporizar. Há uma ruptura, sim. E que Deus esteja na boca dos agressores não é um mistério.

(*) Eunice Ostrensky é professora de Política da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (FFLCH/USP). É autora de "As revoluções do poder" e "Teoria, Discurso e ação política".

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