OPINIÃO

As estátuas de Graciliano, Aurélio e Drummond: heróis de carne, osso e letras

Dos furtos aos óculos do poeta no Rio aos nudes com Graciliano em Maceió: por que interagir com essas imagens de metal?

Em Maceió, capital de Alagoas, o assunto é um só (se não é, fica sendo, pelo menos para esse texto): as estátuas

No dia 11 de fevereiro, uma professora de educação física tirou uma foto montada no cangote da escultura em bronze recém-inaugurada do escritor Graciliano Ramos na praia de Ponta Verde.



A imagem provocou reações acaloradas. Segundo o site alagoano Gazeta Web, o secretário municipal de Turismo, Jair Galvão "classificou a atitude como um 'ato de vandalismo', reforçando que a escultura "não pode servir de assento"."Este é um ato vandalismo. Recebi esta imagem pela manhã e estamos tentando identificar quando a mesma foi publicada. Inclusive, a Prefeitura de Maceió já analisa a possibilidade de tomar medidas contra esta moça", disse Galvão.



Não há notícia, no entanto, de que a professora tenha danificado a obra.

Mas a coisa não parou por aí. Menos de uma semana depois da foto da professora de educação física, uma mulher posou nua ao lado do velho Graça e também de outra estátua inaugurada no final do ano passado na orla de Maceió, a do também alagoano Aurélio Buarque de Holanda. Pelo que se entende de um site de notícias alagoano, a imagem ajudou a divulgar um canal de internet sobre suíngue.

Esses casos fazem lembrar da escultura do poeta Carlos Drummond de Andrade, que vive tendo os óculos roubados no Rio de Janeiro.

Abandonemos, pelo menos por um instante, a legítima preocupação com as centenas de reais (nem é tanto assim, pensando bem) que têm de ser gastos para consertar essas imagens quando são, de fato, danificadas. Vamos pensar apenas no simbolismo da coisa.

Por que as pessoas interagem com essas imagens de metal?

Na região central de São Paulo, há uma enorme pedestral sobre o qual fica uma escultura de Duque de Caxias, patrono do Exército. Em 1977, o escritor e jornalista Lourenço Diaféria escreveu uma crônica, intitulada "Herói Morto. Nós", também publicada no livro Mesmo a noite sem luar tem lua.

Diaféria tratava da morte do sargento Sílvio, um bombeiro que se jogara no poço das ariranhas, no zoológico de São Paulo, para salvar um menino de 14 anos que estava sendo dilacerado pelos animais. Sílvio morreu, e Diaféria escreveu a crônica em sua homenagem.

"Escrevo com todas as letras: o sargento Silvio é um herói. Se não morreu na guerra, se não disparou nenhum tiro, se não foi enforcado, tanto melhor", escreveu. E o contrapunha a Duque de Caxias, imagem icônica de um Exército que, à época, sustentava a ditadura militar. "O duque de Caxias é um homem a cavalo reduzido a uma estátua. Aquela espada que o duque ergue ao ar aqui na Praça Princesa Isabel -onde se reúnem os ciganos e as pombas do entardecer- oxidou-se no coração do povo. O povo está cansado de espadas e de cavalos. O povo urina nos heróis de pedestal."

Quem sabe a história lembra que Diaféria foi preso por conta desse texto, publicado na Folha de S.Paulo.

O interessante das "molecagens" com as estátuas de Graciliano, Aurélio e Drummond é que as pessoas não urinam aos seus pés. Nem cagam em suas cabeças, como os pombos. Há um caráter lúdico em todos os casos citados. A professora de Graciliano sobe em seu cangote, como se estivesse sobre os ombros do namorado em um show de rock; a mulher nua mostrou seus seios ao lado do dicionarista que, já idoso, parece fingir não lhe dar atenção; e a sacanagem de tirar os óculos de Drummond lembram nossas avós procurando os óculos de leitura para escolher feijão - nunca era simples encontrá-los.

Drummond, Aurélio e Graciliano são figuras vivas. São verdadeiros heróis - não de bronze, mas de carne, osso e letras.

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