LITERATURA

Professor universitário descobre poema inédito de Machado de Assis e 8 crônicas de José de Alencar

Wilton Marques, do departamento de Letras da UFSCar, encontrou textos em edições do jornal Correio Mercantil

Toda criança já teve o sonho de encontrar um tesouro perdido. Viver a aventura de descobrir algo de muito valor, que esteja escondido há muitos e muitos anos, é uma espécie de desejo comum de todos os seres humanos. Imagine então como você se sentiria se a descoberta tivesse potencial para balançar as estruturas de diversos estudos acadêmicos sobre o maior escritor da história do Brasil.

Esta foi a sensação do professor Wilton Marques, do Departamento de Letras da UFSCar (Universidade Federal de São Carlos), em São Paulo. Em março, durante uma pesquisa sobre a influência dos autores românticos na formação de Machado de Assis, o professor descobriu um poema inédito do escritor, datado de 7 de setembro de 1856, publicado no jornal Correio Mercantil.

Isso impactou um pouco os estudos machadianos. Esse poema foi feito de 1956, quando o Machado tinha 17 anos apenas. O período da chamada juventude literária do Machado é um período muito pouco estudado, porque existem muitos poucos dados sobre esta etapa da vida dele. Não se sabe como aquele jovem escritor, mulato, sem muitas informações sobre sua educação formal, se inseriu no universo intelectual naquele momento.

“O Grito do Ipiranga” (leia AQUI), como o título sugere, é uma obra de louvação ao Brasil e a Dom Pedro I, comparado na obra a Napoleão Bonaparte. O poema é composto por 76 versos decassilábicos, distribuídos por nove estrofes irregulares.  A obra apresenta traços inéditos na produção literária de Machado.

“A despeito de o poema ser de juventude (Machado tinha apenas 17 anos),  ele traz em si várias marcas românticas, sobretudo na representação de aspectos ligados à realidade local (natureza, oceano etc) como marcas de nacionalidade literária, o que, em termos machadianos, também é uma novidade literária”, explica Marques.

Na continuidade da pesquisa sobre o Correio Mercantil, que também publicava textos de outros importantes escritores brasileiros, Wilton fez uma nova descoberta: oito textos desconhecidos de José de Alencar, autor do romance O Guarani, tinha uma coluna de crônicas no jornal, chamada de “Ao Correr da Pena”.

“Os textos da coluna foram reunidos em livro em 1864. Como eu fiz o levantamento no jornal e cruzei os dados com a antologia da coluna do Alencar, percebi a discrepância de números”, relata.
A descoberta gerou uma nova pesquisa, que será transformada em um livro que apresentará as crônicas desconhecidas e, de certo modo, complementará as edições anteriores de Ao Correr da Pena.

Wilton José Marques é docente da UFSCar desde 2004. Atualmente coordena o Programa de Pós-graduação em Estudos de Literatura da Universidade. Desde 2013, desenvolve a pesquisa “Machado de Assis: poeta” que estuda a produção poética machadiana em sua totalidade, ou seja, não apenas os livros efetivamente publicados, “Crisálidas” (1864), “Falenas” (1870), “Americanas” (1875) e “Ocidentais” (1901), como também os poemas dispersos em jornais e revistas. Nesse sentido, o maior objetivo é o de tentar esboçar um quadro geral do desenvolvimento poético de Machado de Assis. Em 2011, recebeu o prêmio Jabuti na categoria Crítica e Teoria Literária pelo livro "Gonçalves Dias: o poeta na contramão" (EdUFSCar, 2010) e, em 2014, publicou o livro “O poeta do lá” (EdUSCar).

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